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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O DOENTE É O CULPADO


        No fim de semana passado, eu queria ter ido ao Largo da Igreja do Bonfim, onde estavam acontecendo várias atividades culturais em um evento voltado à prevenção do suicídio. Não sei se trata-se de uma iniciativa da Igreja Católica  ou se está associada ao denominado Setembro Amarelo , movimento de conscientização voltado ao problema que leva à morte 883 mil pessoas por ano, número maior do que os mortos em guerras, homicídios e desastres naturais. E não precisa ir muito longe: a cada 40 segundos, um brasileiro se suicida. 
      
          Possivelmente, por esse motivo, ouvi no rádio algumas matérias sobre o suicídio com membros do CVV (https://www.facebook.com/cvv141?fref=ts)*. A despeito das recentes declarações públicas de pessoas famosas e frequentes matérias sobre depressão, a sociedade parece continuar totalmente ignorante quanto ao tema.  E nada como a desinformação para afastar as pessoas daquilo que desconhecem e aprofundar seus pré-equivocados-conceitos. Nessas entrevistas, alguns dos reiterados mitos foram enfatizados:

        "Quem ameaça se suicidar, não comete o ato." Os especialistas dizem que, antes de cometer o suicídio, o doente faz vários avisos indireta e diretamente. Há dados afirmando que 75% deles avisaram antes. 

        "Se as estatísticas fossem mostradas, provocariam novos tentativas." O silêncio só faz com que as pessoas não se deem conta do quão grave é o problema e do quanto ele vem crescendo nos últimos anos;

        Nas reportagens, o que mais me chamou a atenção foi o questionamento de uma das  estudiosas entrevistadas: "Por que não se pergunta ao depressivos sobre a sua dor?"

        De fato, poucos perguntam sobre o que sentimos. Lembrei-me de que muitas pessoas, quando nos veem depressivas, fingem não notar, mas comunicam com o olhar. Pior é quando percebemos que sentem pena. Em alguns dos encontros, aos quais eu ia mesmo sem vontade, o meu desejo era ser invisível.  No meu caso, talvez não respondesse à pergunta, porque, embora não me esquive a falar sobre isso, falar mesmo com profissionais não foi solução apesar dos 40 anos de terapia. Na depressão, conviver dói. Houve dias em que eu só me movimentei para fazer uma única refeição, depois de longa insistência de marido e filhos e no ambiente mais seguro de todos- a nossa casa.

        A pergunta é respondida pela especialista do seguinte modo: "As pessoas não perguntam, porque os depressivos irão lhes falar dos males do viver. E elas não querem ouvir sobre isso." Concordo com ela. As pessoas podem não possuir a doença, mas padecem dos mesmos males inerentes ao espaço e tempo da pessoa deprimida. Apenas os sentem com intensidade diferente. Não desejam refletir sobre isso, mudar isso. Para elas, é melhor fingir que não os percebem, não podem e nem devem mudar a vida que levam. Não acho que estejam todos felizes com suas vidas, mas devem dispor de mais recursos físicos, emocionais e psíquicos para lidar com suas mazelas e vão tocando.

           De experiência, eu posso assegurar mais alguns mitos:

        "Remédios e terapia são suficientes para a convivência com a doença." Eis um mito difundido em reportagens de jornais e revistas. Reitero que eles são necessários, mas estão longe de serem suficientes. Além deles, é imprescindível o apoio familiar e a busca de outros tipos de terapêuticas, dentre as quais eu destacaria a acupuntura. Exercícios físicos diários, atividades manuais e o resgate dos hobbies preferidos também são de grande ajuda.

        "Ao não tomar os medicamentos, os doentes estão, consciente ou inconscientemente, boicotando a cura." Esse é um mito que os próprios médicos e terapeutas têm. No entanto, a depressão nos deixa em um estado de tamanho desânimo que o simples atos de se levantar, pegar cápsula e água e engolir ambos, nos parece um esforço hercúleo, portanto esse comportamente é mais uma das consequência da doença;

       Recentemente, em um grupo de desenvolvimento, caí na besteira de declarar que tinha depressão. Pela observação que já faço sobre as pessoas, receei fazê-lo na presença de uma das participantes. Sabia que ela não iria dar muita atenção a essa bobagem. Eu não estava enganada. No primeiro aborrecimento que tivemos, ela me ofendeu usando uma das frases clássicas:



"Depressão é frescura."

"Os depressivos adoram se fazer de coitadinhos."

"Quem tenta se suicidar quer chamar a atenção."

"Os suicidas são uns fracos"

         Na primeira oportunidade que têm, as pessoas jogam a pedra do preconceito em nós. Não é a primeira vez em que isso me acontece, mas sempre sou surpreendida, quando sinto, rente à cabeça, o vácuo do recente lançamento. A depressão é usada para nos ofender no âmago da alma, que é onde ela nos ataca. Em alguns desses momentos, meu mais profundo desejo é que contraiam a doença, embora saiba que não sentiriam o que sinto, porque quando ela é contraída em razão de algum problema não tem a mesma gravidade daquela fortemente marcada pela hereditariedade, com a qual se convive por toda uma vida. Assim talvez perdessem em arrogância e ganhassem em compaixão. 

        Essa doença tem a peculiaridade de ser a única que, além de precisar conviver com todos os sintomas e limites no tratamento, o enfermo é considerado culpado por possuí-la. 

* O CVV de Salvador funciona em Nazaré e atende 24 pelo telefone 3322-4111

domingo, 27 de setembro de 2015

NEM CANTOR, NEM COMUNICADOR, NEM HUMANISTA, UM SURFISTA


Acordei 6h, com um enorme sentimento de gratidão, mas ainda sem saber o porquê. Vi que o dia estava lindo, olhei para o marido dormindo e me lembrei que era aniversário dele, do meu menino, meu leãozinho, meu rei sol.  Ciro Coqueiro​ faz 22 anos hoje. Ciro filosofa como eu, mas é ponderado como o pai. Como a mãe, é extrovertido, porém tem um toque de educação e reserva. (desenvolveu mais a empatia). Ele é o homem que mais me provoca e tira do sério. Por outro lado, ele me encanta e prova que a sensibilidade, além de não ser característica exclusiva das mulheres, pode ser, cotidianamente, expressa por todos. Ciro é um cantor, um comunicador e um humanista. No início do curso de Engenharia Mecatrônica eu lhe perguntei: "Meu filho, você está feliz nesse curso? Você é mesmo um engenheiro? Você não é um cantor, um comunicador, um humanista?" Ele me respondeu: "Ah, mãe. Eu gosto mesmo é de pegar a minha prancha e ir pra praia."  Eu dei uma gargalhada. No entanto, só fiquei mais tranquila quando, ao contar a nossa vizinha, Bela, uma engenheira ambiental, ela retrucou: "Minha tia, não é na engenharia que estamos precisando mais de humanistas?" Eis a  anatomia de Ciro, como o vejo através do meu Raio "M":





UM CANTOR
Desde pequeno, as pessoas notavam o quanto Ciro era entoado. Tem um talento especial para o canto. Por dois anos foi o aluno escolhido para subir ao palco e representar as músicas premiadas do Festival de Música e Matemática dos Maristas. Essa habilidade provoca em mim um mix de raiva, inveja, admiração e orgulho.  Raiva, porque ele nem liga para o talento, inveja de não o possuir eu mesma, admiração porque é um talento que considero fabuloso e orgulho de que ele o possui, é ciente dele e isso pode nos aproximar um dia. Antigamente, ele vivia dizendo que eu não tinha ritmo, agora já não repete essa punhalada nas minha costas, mas ainda não me chama para um dueto. Adorei o dia em que ele chegou dizendo que o show do Teatro Mágico era a minha cara. Ale Carvalho também tinha me dito que eu iria amar.   Estou aguardando ansiosa o dia em que iremos juntos assistir ao show do grupo junto com o Scambo, cujas músicas ele fica me mostrando.

UM COMUNICADOR
Quando era pequeno, ele ficava no elevador com a cabeça para cima olhando para as pessoas. Elas eram obrigadas a falar com ele e quando saiam do elevador sem lhe dizer nenhuma palavra, ele falava: "tchau!"
Há 3 anos ele saiu dos Maristas, mas não passo pelo portão da escola sem que os porteiros perguntem por ele. Ainda essa semana Paulo foi abordado por um garoto que perguntou: "Você é pai de Ciro, né?".

UM HUMANISTA
Ciro é um humanista, sem deixar de fazer um esforço para ver o ponto de vista de quem é mais autocentrado. Na escola, tinha uma comunicação muito estreita com os professores mais preparados para o ofício, aqueles que não se limitavam ao conhecimento da disciplina pois cultivavam e provocavam maiores reflexões de ordem política e social (Shanti, Daiane, Isaque etc). Ciro sempre está nos provocando momentos de discussão filosófica e eu, uma filha da ditadura militar, amo ter essa oportunidade. Até hoje, guardo os seus livros de sociologia e filosofia em minha cabeceira.  Ele sempre promete assistir comigo aos vídeos que tenho curtido com pensadores como Viviane Mosé, Leonardo Boff, Márcia Tiburi, Flávio Gikovate, Mário Sérgio Cortela, Leandro Karnal etc . O problema é que ele tem um mantra: "AMANHÃ". Esse é um dos defeitos de Ciro, mas esse não é um texto para dissecá-los.  No entanto, o tempo passa galopando (ele já tem mais de 20 anos) e é preciso alertá-lo que o amanhã acaba fugindo entre a crina desse cavalo alado. De que modo? Poeticamente:

ADIAMENTO

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas em um edital...
Mas por um edital de amanhã
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...

Sim, o porvir...”

Fernando Pessoa, em Tabacaria e Outros Poemas 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A POÉTICA DA TERRA



Nesse sábado, encontrei-me com Vladimir Queiroz em uma das mesas-redondas da Pré-Flica na Caixa Cultural. Ele está de viagem para a Romênia para lançar novo livro: MUXARABIS. Eu lhe expliquei que tinha andado meio afastada dos eventos literários e não havia visto a chamada para o seu lançamento. O livro tem encadernação e ilustrações impecáveis e uma seleção de poemas maravilhosos.
 

ETÉREO

As estrelas dormiram
esta noite me olhando
e se me olham não revido.
Durmo
e cismo sonhando
com o brilho etéreo;
que por um instante sumido
continua brilhando
ao sabor da travessia.
Mantenho-o comigo,
mesmo que se tenha ido.

       Não sei quantos foram os livros de poesia editados por Vladimir, só que gosto muito do que ele escreve. Eu já tinha Luminescência, Nuances e Terracota  O último tem ilustrações belíssimas de nosso conterrâneo, o artista Juraci Dórea. Não me lembro de Vladimir da terrinha, lembro-me do poeta de feiras de livros e afins. Um dia, após nos cumprimentarmos no supermercado, tive a coragem de lhe perguntar de onde o conhecia. Ele me falou ser também de Feira de Santana, disse que conhecia Miltinho, meu irmão e que escrevia e costumávamos nos encontrar em eventos de Literatura.  Vladimir é meio tímido e não tem nada da arrogância que parece ser a marca dos escritores. Além dele, Mônica Menezes, José Inácio Vieira de Melo e Kátia Borges também estão no rol dos poetas atuais que não pedem para serem lançados na fogueira das vaidades. Estou enganada ou os artistas plásticos são menos vaidosos do que os da palavra?


BECOS

Por entre ruas escuras
na penumbra de ecos sujos
ouvem-se passos lentos,
cadenciados, soturnos, sinistros.

Passos que procuram encontrar uma voz;
retira o capuz, desnudar o algoz.

Ver surgir na confluência oval
e obscura de nó: o agave,
para desfibrilar a retórica,
ser o istmo que conecta dois mundos:
de um lado o santo do outro o medonho.

Ver o despertar da aurora
ao bater de asas alvissareiro.

Evitara o aperto sobre a glote
                             derradeiro.

       Edgar Allan Poe escreveu  "Filosofia da Composição", texto em que disseca o ofício de escrever. Como a maioria das atividades,  essa é minunciosamente planejada e arduamente construída. Depende de talento e inspiração, mas não prescindo de disciplina e esforço. No entanto, até hoje, época em que a possibilidade de escrever e publicar está superacessível,  quase todos os escritores publicados se porta como se fossem os escolhidos dos Deuses. O único momento de encontro com o leitor - aquele  que dá significado ao que ele faz - é o momento em que está autografando o seu livro recém-vendido.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MMM (MINHAS METADES MARAVILHOSAS)

Angustiada, perguntei para a minha terapeuta: Andréa, quem sou eu? Essa múmia ou aquele vulcão? Ela me respondeu, para meu desespero, com muita tranquilidade: VOCÊ É AS DUAS... Hoje, eu não quero ser mais uma, a que mais ri e sempre persegui. Agora, nesse minuto, o meu sentimento é o de aceitar a guerra entre as metades...




Como hei de ser paz, se há guerra em cada diminuta umidade que irá se transformar em orvalho na manhã de amanhã? 





Antes de tudo, estou descobrindo que sou deusa: nem Afrodite, nem Athená. Já fui ao reino de Hades como filha e como mãe. Nada de Perséfone ou Deméter. Jamais a vingativa Hera. Só agora ouso ser curiosa. Quero, depois de queimar todas as fotos tristes e emboloradas, sentir que abro a minha arca onde, por 4 décadas, deixei escondida a minha boneca, Aninha. Quero abraçá-la, porque ela já não é grande e pesada demais para a pequena e magra menina que fui. Vou abraçar a minha boneca da esperança, que deixei esquecida no fundo do baú da memória. Cansei de ser Diana, não sou superpoderosa, bem sei! E estou cansada de guerrear, a grande guerra será interna ou externa? Ou não serão duas faces de uma mesma Vera?



NÃO HÁ O QUE CONFESSAR!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

QUANDO A BELEZA É PROBLEMA


  


       Falamos muito em diversidade como algo positivo, mas na ação, os preconceitos estão de tal modo fossilizados, enraizados, calcificados, mumificados... Assistindo ao show, no qual  a atriz Bel Lisboa interpreta Rita Lee, vários amigos ficaram surpresos em ver a cena em que Ronnie Von a entrevista e sugere, ainda na coxia, que o nome de sua banda recém.formada seja MUTANTES, baseando-se em título de livro recente. "Foi Ronnie Von? Eu não sabia que ele era assim..." era o comentário geral... Desinformação total é do que estamos tratando. A jovem guarda não se resumiu a Roberto e Erasmo Carlos. Eles foram apenas os nomes a se destacarem mais.


     
Ronnie Von, Wanderley Cardoso e Jerry Adriane ficaram registrados na história da música popular brasileira como se fossem um trio uniforme, mas havia grande diferença entre eles. Ao menos de interesses. Ronnie Von é entrevistador até hoje, fala  várias línguas, tem um ouvido absoluto que lhe permitiu ser o campeão invencível do quadro ''Qual é a música" do programa Silvio Santos etc.



     

Um exemplo correspondente, mas mais forte ainda, porque em se tratando de sofrer preconceito as mulheres são imbatíveis, foi aquele de Bruna Lombardi. Ela surgiu como modelo na mesma época em que Xuxa Menegel e Luiza Brunet. Enquanto a última continuou mantendo sua imagem de mulher bela, eternamente jovem e cheia de classe, a primeira sourpreendeu a todos, tornou-se uma carreira de cantora e apresentadora infantil, nenhuma substância e tem conseguido sucesso financeiro e de audiência até hoje (por motivos comerciais, tem lançado vários produtos, dentre os quais um dicionário mais do que bizarro: o antieducativo denominado dicionário da Xuxa) e canta músicas totalmente alienadas e alienantes...), Bruna, por sua vez,  se lançou como atriz, apresentadora, diretora de cinema e poeta. Por ter feito ousado fazer uma incursão no mundo da intelectualidade, Bruna tem pago um preço bem alto. Pouco se sabe que ela lançou inúmeros livros de poesia e prosa, tanto no Brasil como no exterior e  ainda ridicularizam a sua relação, bastante estável, com também lindo ator, Carlos Alberto Richelli.
       Pois é, até no mundo artístico, onde a aparência significa tanto, somos mais aceitos se, em caso de sermos bonitos além da conta, ficarmos na nossa condição de burros e ignorantes. Nesse caso ganharemos os aplausos, receberemos cachês mais altos e estaremos nas capas e castelos da revista Caras. Enfim,  seremos admirados por milhões de gentis brasileiros!

*  https://pt.wikipedia.org/wiki/Ronnie_Von

**  https://pt.wikipedia.org/wiki/Bruna_Lombardi

terça-feira, 4 de agosto de 2015

OS POETAS VOARAM...


   


     Domingo, fui com a artesã, Mary Ruse, ao Brechó em benefício da construção das instalações da Creche Tia Nildete, no subúrbio de Salvador. Quem se interessar pela iniciativa da amiga Luiza Alvim, deve levar suas doações e ir ver novas peças a preços ótimos, nos dias 06, 07, 08 e 09, pois o evento fez tanto sucesso, que terá seu 3o. reprise. 

     Ainda na Ceasa do Rio Vermelho, experimentei um delicioso picolé de jaca e minha amiga foi comprar sementes para a sua pequena horta em vasos. Nesse local, havia várias aves engaioladas em exposição, para venda em espaços diminutos. Não resisti e perguntei à pessoa do balcão, provavelmente a dona da loja, se ela sabia, que havia sido proibido qualquer engaiolamento de pássaros na Índia ("PAÍS ONDE A VACA É ANIMAL SAGRADO, AGORA PROÍBE PÁSSAROS NA GAIOLA" no link). De pronto, ela me perguntou, se eu tinha cachorro em apartamento. Eu neguei e ela disse que isso também era confinamento. Concordei com ela, esclarecendo não ser meu o desejo, de que sua loja terminasse, apostando que ela seria capaz de adaptar o seu negócio caso isso fosse realmente cumprido aqui.  Muito educadamente, ela quis saber se haviam sido proibidas tanto a venda quanto a criação e eu lhe confirmei. Sua resposta foi: "Aqui é complicado, apontando para uma prateleira. As tartarugas foram proibidas também e a gente vende porque muitas pessoas procuram... 


     Vejam só: ela não se sente errada em vender, porque as pessoas compram e os que compram não se sentem errados em criar, porque as tartarugas são vendidas. Lembraram-se do ovo e da galinha? Na verdade, eu me esqueci de observar se eles também são vendidos lá. Eis um exemplo de que a culpa é sempre do outro, de que a lei deve valer só para ele. Eis aí o retrato da nossa face mais triste. Aquela que está sendo tão desvelada nesse momento histórico! Foi essa a lógica da escravidão? Lamento e me acalento com os poetas, que já voaram seja em palavras ou NÃO: 

                    


O PÁSSARO CATIVO

                       Olavo Bilac

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
             A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
             O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
             Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
             “Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
             Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
             Tenho frutos e flores,
             Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
             Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
             Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
             Quero voar! voar! ... 
Estas cousas o pássaro diria, 
             Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
             Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
             A porta da prisão...
                                            
                          Do livro: Poesias Infantis, Ed. Francisco Alves, 1929, RJ
 




sábado, 11 de julho de 2015

AS PIPOCAS NO CAMINHO

     Os pipoqueiros da minha infância faziam um tipo de pipoca que hoje só é vendida nas lojas de artigos naturais em sacos nas versões salgada e doce. Além disso, as paçocas que, hoje, vêm enroladas em tijolinhos em grandes vasilhas redondas de plástico eram vendidas por eles em pequenos saquinhos de papel enchidos na hora.  Perto do clube que havia próximo à minha casa, tinha um pipoqueiro com sua carrocinha  e passou a fazer parte de nossa rotina ir até lá ao final da tarde. Embora o percurso fosse pequeno - pouco mais do que duas quadras - eu nunca havia ido sozinha, mas acompanhada da minha vizinha, cerca de um ano mais velha do que eu. 

      Em um dos dias em que aguardava enquanto ela trocava sua roupa para o costumeiro passeio, uma de suas irmãs mais novas implicou em ir conosco. A ideia não nos agradou em nada.  Afinal, não gostávamos de andar com meninas pequenas e sermos impedidas de partilhar nossos segredos de grandes amigas em início de adolescência. Pirracenta e dengosa, a menina chorou, suplicou e esperneou tanto que a mãe delas determinou que teríamos de levá-la conosco. Em represália à ordem tácita, a minha amiga desistiu de ir.  Eu fiquei desconsolada ao ver nossa diversão rolando água abaixo por conta da implicância de uma pirralha, mas temia me aventurar sozinha por um caminho que eu nunca tinha feito desacompanhada. Minha revolta foi tão grande que decidi enfrenta-lo só apesar de todo o medo.  E fui.


       Não me lembro da emoção vivida, da velocidade dos meus passos, nem se estava tomada de orgulho pela independência conquistada ou de sobressalto pelos possíveis riscos porque se apagaram da minha memória todos os momentos da ida ao pipoqueiro.  Só não consegui me esquecer de que, na volta, já na calçada do no fundo do ginásio de esportes do clube, estava concentrada em saborear a minha pipoca quando uma mulher alta, negra e vestida em trapos me deu um forte tapa na cara e eu derrubei a pipoca e voltei correndo e aos prantos para casa.  Tenha sido uma louca ou uma pessoa enraivecida, o fato é que soube captar o meu sentimento de solidão e vulnerabilidade. A experiência, mas do que me traumatizar deve ter me fortalecido, porque apesar do choque, ainda tive coragem de, anos mais tarde, enfrentando o medo, ir  morar sem pais, irmãos, namorado ou amigos.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

AOS PAIS IDEAIS: AO PAI CELESTIAL E À MÃE DIVINA!


(...)"Meditarei regularmente para que a luz da fé possa conduzir-me ao reino imortal do meu Pai Celestial.

Mãe divina, afastarei o véu estrelado do céu, rasgarei o manto do espaço, desfarei o tapete mágico dos pensamentos, desligarei os divertidos filmes da vida, para que eu possa Te contemplar. Abrirei os olhos para a alegria da meditação, verei então dissiparem-se todas as trevas.


Com as flores e os céus brilhantes, com o divino maná da alegria nas mentes felizes, com as almas repletas de sabedoria, com as canções dos pássaros e as divinas melodias nos corações dos homens, meu Bem-amado me chama, para que meus passos se voltem em direção a Seu lar de paz interior." (...)



Trecho extraído do livro 'Meditações Metafísicas" de Paramahansa Yogananda
Mais informações no site abaixo, com tradução para o Português: https://www.yogananda-srf.org/Default.aspx?langtype=1046


Livros

Meditações Guiadas

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A FORÇA DO MISTÈRIO


 Como sou rebelde e contraditória, ensinei Matemática, mas tinha raiva das tecnologias e fui uma professora de Inglês que não suportava as sociedades Estadunidenses e Britânicas.  A última pelo colonialismo cultural brasileiro e a segunda pelo mercantilismo e colonialismo históricos. Em relação às tecnologias, o problema não são elas em si, mas o que motiva o desenvolvimento das ciências que as produzem. Quando surgiram os primeiros celulares, dentre todos os professores de Matemática da Escola Técnica Federal da Bahia, só a professora Zulmira tinha um . Eu menos me interessei pelo uso dele do que me diverti com o seu orgulho e o fato dela só ligá-lo durante segundos por conta dos altos custos! Fiquei muito tempo sem sentir necessidade de ter um celular e os meus primeiros foram os descartados por meu marido. Eu bem  gosto de controlar as pessoas, mas detesto ser monitorada! Até hoje não sei usar os canais fechados de tv e, embora tenha feito Especialização em Informática Educativa no CEFET-Go que era orientado pela UNICAMP/MIT, preciso dos meus filhos para quase todos os problemas do meu laptop e do Sansung Android, o qual os amigos mandam jogar fora pela minha incomunicabilidade. Assim, não diria que sou Jurássica, mas, no mínimo, me identifico bastante com Santos Dummond, não pela genialidade, mas por ter inventado o prático relógio de pulso. Não sei olhar as horas no celular, tem de ser olhando para o meu pulso.

Em junho, esqueci, em Tiradentes, o meu relógio de pulso, comprado de 2a. mão, há anos, em Carlito, relojoeiro amigo, da Boca do Rio. Só passei a retirá-lo, quando começou a entrar água no mostrador. Quando chegou de Minas, Lucinha o trouxe para mim,  e, ansiosa, eu o coloquei na bolsa, depois de ver que estava parado. Ao mostrar para Carlito, ele declarou não ser um problema de pilha e,  que, desta vez, ele não poderia mais voltar a funcionar depois de uma secagem do mecanismo interno, pois depois de secado, o aparelho voltava a trabalhar, parando em seguida. Ainda assim, eu lhe disse que ficasse tentando enquanto eu não lhe trouxesse um dos outros relógios que tinha: provavelmente um que comprei na Feira do Paraguaí e não o dourado, presente do marido no Natal de 2012.  Anteontem, cheguei a conversar com meu filho sobre o parecer técnico e a falta do relógio.

      Ontem, por um imprevisto de precisar sair mais cedo da terapia, eu peguei um engarrafamento na volta para casa próximo ao Iguatemi, meu percurso mais frequente depois da duplicação da Av. Pinto de Aguiar. Assim, resolvi vir pela Pituba e aproveitei para antecipar umas programadas compras no Max Center, aberto até as 20h. Minha irmã, Vânia, havia me pedido que lhe enviasse produtos por uma amigo de viagem à Europa. O problema era me lembrar de todos os itens que ela me havia solicitado, considerando que o meu celular estava descarregado, como é usual.  Eu compraria apenas os 3 artigos que memorizara. Chegando lá, entre as 3 lojas, decidi comprar primeiro as calcinhas. Na vitrine, vi os anúncios de 10% em caso de compras acima de 10 peças e a loja cheia de bolas de soprar no teto. Quanto aos 10%, achei que não iria comprar tantas peças, infelizmente. Quanto às bolas, pensei: "balela"*! Todavia, tendo me lembrado que Liza precisava de calcinhas e elas não estavam assim tão caras, completei as 6 peças para Vânia a fim de obtermos o desconto.  As atendentes me entregaram um alfinete para que eu pocasse uma das bolas... Eu nem me lembrava disso e, desinteressada, fiquei olhando para elas, torcendo para que o meu brinde não fosse tão insignificante...  No entanto, o papelzinho que saltou da bola se perdeu no, atrás ou embaixo do balcão e nenhuma de nós foi capaz de encontrá-lo. Dado o impasse, elas me deram  de novo o alfinete para tentar outra bola. Eu lhes disse: "olha, mas se o papel reaparecer, eu vou escolher!" Elas concordaram! Eu procurei uma bola mais cautelosamente e, quando a estava furando, a garota me mostrou o papelzinho. A essa altura,  meu alongamento de braço e pernas já estava pronto. Poquei! O brinde era um  relógio no valor de 99,99 reais e o anterior dava  50% de desconto Eu quis logo ver o relógio, estava claro que eu preferiria ele (mais tarde, me informaram que o desconto só valeria para a próxima compra)! A gerente protestou e então fui eu que fiquei indignada e lhes relembrei que o acerto havia sido feito antes de eu ver os papéis de premiação. Ela terminou concordando e eu precisei voltar para casa, informada de que o TriCenter fechava uma horas antes do Shopping Itaigara.  Mesmo assim, voltei para casa feliz e mais orientada.

      Fiquei analisando a sequência dos fatos. Caso não houvesse ocorrido vários imprevistos e eu não tivesse me adaptado a eles sem resistência, talvez comprasse os itens em outro local e nem participaria da promoção. O que me motivara a comprar ali foi o fato das 3 lojas serem vizinhas. A terapeuta não me liberando antes, não tendo engarrafamento, se eu não mudasse de planos, não fosse primeiro para aquela loja, não tivesse proposto o acordo e não tivesse escolhido exatamente aquelas bolas, nada disso teria acontecido. Como disse Caetano, "É incrível a força que as coisas têm, quando elas precisam acontecer!" O porquê disso é muito mais do que lógica, estatística ou comunicação. É mistério!!!!!



sábado, 14 de março de 2015

ACUADOS E MAIS VIOLENTOS?

      Outro dia, uma amiga queria me convencer de que o discurso feminista estava ultrapassado com a seguinte frase: "Os homens estão acuados!" Há poucos dias, outra me relatou da queixa de um amigo seu de que as mulheres estavam desinteressantes, porque muito "atiradas". Fiquei indignada em relação à afirmação e achei curiosa e engraçada a queixa. Pelo que sei, as estatísticas não parecem comprovar tantos avanços assim. Ando tão alienada que as coisas mudaram e eu não dei por isso? Os homens sempre nos abordaram.  Por longo tempo e inúmeras vezes, o fizeram de modo grosseiro com gestos obscenos e palavras de baixo calão. Pegaram em nós sem nos pedir permissão e imaginaram ser a nossa obrigação estar disponíveis para satisfazer suas vontades e obedecer os limites que determinavam para nós. No entanto, hoje, julgam que estamos muito ousadas se tomamos a iniciativa da aproximação?  Não lhes parece uma piada?

      Desde muito cedo adotei um discurso feminista, não me lembro quando isso aconteceu. Sei apenas que não precisei ler ou discutir sobre o tema para saber que as mulheres sofriam com essa visão limitada de suas potencialidades, determinação e singularidade. Tive uma mãe muito forte que, embora se submetesse em muitos aspectos por conta das expectativas sociais em relação à mulher, em alguns momentos se rebelava e virava a mesa. Foi assim que, respectivamente, ela não se dei a oportunidade de se formar e trabalhar fora, mas pegou o carro do meu pai, em sua ausência e saiu em uma rural trotando feito cavalo bravo com os seus 3 filhos no banco de trás. Isso deixou em mim um certo sentimento de contradição. Foi vivendo as minhas próprias experiências que tornei-me mais consciente da necessidade de lutar pela causa feminista na minha esfera individual. Só para citar alguns casos, já fui tratada de modo diferente dos homens solteiros por porteiros do meu prédio, quase apanhei de um homem porque não demonstrei igual interesse por ele, já gritei na rua para que homens desconhecidos não me tratassem como mercadoria barata exposta em vitrine e até recebi oferecimento de jóias para ser amante de homens bem mais velhos, enquanto suas mulheres iam ao banheiro do próprio apartamento.

      Hoje, presenciei o choro de uma cabeleireira, durante o trabalho, assintindo de novo ao vídeo de uma mulher sendo espancada por seu parceiro. Ela afirmou que a conhecia porque a agredida costumava brincar com os seus filhos. No vídeo, a garota recebe socos e tem o seu cabelo cortado. Todos os dias divulga-se casos de mulheres assassinadas por maridos, ex-maridos, namorados ou ex-namorados. Há alguns emblemáticos em períodos distantes como Ângela Diniz, Daniella Peres e Eliza Samúdio. Vale ressaltar que esses três casos foram muito discutidos e apurados porque tratavam-se de mulheres brancas e de classe média. Em se tratando de negras pobres, nem mesmo os dados estatísticos dão conta! 

      Três em cada quatro mulheres já foram agredidas ou assediadas por companheiros no Brasil. As medidas oficiais como a Lei Maria da Penha não surtiram o efeito esperado. E isso não se dará, mesmo com o assassinato de mulheres sendo considerado crime hediondo. Em um país onde a impunidade impera, não haveria de ser aquelas, a quem se reputa menor valor, a serem as que têm a garantia do amparo da lei. Portanto, considero que o único alento é a constatação de que tem aumentado o número de grupos de jovens garotas se organizando, buscando trabalhar pela conscientização de outras mulheres. Para minha alegria, em março, participei de 2 atividades coordenadas por grupos de mulheres* que fazem esse trabalho de formiguinhas educadoras na crença de que é possível alcançar a garantia dos nossos direitos e o respeito às nossas diversidades. Que estejam certas e que sejam elas a saborear o fruto do trabalho carregado!

*MINAVU - Coletivo de Mulheres Artistas:    https://www.facebook.com/minavu.arte?fref=ts
e   Cacheando em Salvador: https://www.facebook.com/CacheandoEmSalvador?fref=ts

sábado, 7 de março de 2015

PRIMEIROS CUIDADOS COM AS CUIDADORAS!

           QUE TAL... Que tal se, no mês da mulher, cada uma delas parasse para refletir se está sendo uma boa mãe, uma boa filha, uma boa amiga, uma boa cuidadora, enfim? Preliminarmente a essa tarefa, cabe perguntar-se: estou me ocupando comigo, atenta às minhas necessidades mais fundamentais?  Que tempo e energia tenho dedicado a me ocupar dos meus corpos mental, emocional, físico e espiritual? Que tal se reservar um momento diário para acalentar a criança que vive dentro de você?  Para brincar com ela nesse mês de março e depois dele? Instantes de atenção à perfeição que habita em si e de contemplação com a mãe natureza, com todo o prazer que essa tarefa pode trazer para o futuro das próximas gerações? Está disposta a ser sua própria médica, mestre, filósofa, massoterapeuta e psicóloga curando, carências e traumas? Determinada a fazê-lo com a alegria de quem está realizando a tarefa que mais importa? Afinal, sem ela, vários serão os órfãos!

ADOÇÃO
                        Elisa Lucinda

Não sei se te contei
mas há algum tempo sou minha
me adquiri num mercado
onde o escambo era da posse pela liberdade
me obtive numa dessas voltas da morte
me acolhi num desses retornos do inferno.


Dei banho, abrigo, roupas, amor enfim.
Adotei o meu mim
como quem se demarca e crava em si o mastro da terra à vista
a cheiro, a tato, a trato, a paladar e ouvido.


Não sei se te contei
me recebi à porta da minha casa
abracei, mandei sentar
Abracei eu mesma, destranquei a porta
que é preu sempre poder voltar.
Dei apenas o céu à sua legítima gaivota
Somos a sociedade
e ao mesmo tempo a cota
Visita e anfitriã
moram agora num mesmo elemento
juntas se ancoram
na viagem das eras
No novelo do umbigo
No embrião do centro
No colo do tempo.

domingo, 25 de janeiro de 2015

VIDA, LOUCA VIDA

       Muitas vezes, a mudança da linguagem surge como reflexo de alteração na realidade, há outras, no entanto, em que ela se dá apenas no plano semântico. Meu pai foi diagnosticado como "psicótico maníaco-depressivo";  eu, como "portadora de transtorno bipolar". A despeito da tendência eufemística, de como os médicos me categorizam, trata-se da doença mental que revela uma vivência da dualidade entre vida e morte em uma potência elevada e cujo tratamento avançou muito pouco. Somos obrigados a conviver com um mal que desorienta nossos hábitos e planos como em todas as graves enfermidades. Porém, mais do que tudo, nessa doença malígna, nos sentimos desestruturados em ambos os polos (mania/euforia e tristeza profunda/depressão). Percebemos um estranhamento total por quem somos.  É nesse sentido que venho constantemente buscando me desvelar através do olhar do outro, da leitura que fazem dos meus registros nas palavras, atitudes e expressões pessoais. 


       Quem sou eu afinal? A mulher sorridente, agressiva, brincalhona, atrevida, sagaz e até inadequada? Ou aquela aparentemente tímida, medrosa, confusa, aérea , distraída e deslocada? Gosto de estar entre pessoas e falar em público ou prefiro o recolhimento? O fato de ter feito formação tanto em Letras como em Matemática, ao contrário de demonstrar uma capacidade de integração de diferentes áreas, não seria uma prova de desconhecimento de seus talentos e propósitos? Sendo assim, a insuficiente produção de hormônios cerebrais, além de produzir diferentes expressões da identidade, traria reflexos importantes no percurso profissional. Como responder tais perguntas, se muda tudo em mim? Conforme a fase, sou falante, glutona, não quero perder nenhum programa cultural, político ou social, faço amigos com facilidade e tomo iniciativa em manifestações públicas. Em outras, ao contrário, me recolho, não quero atender sequer as pessoas mais queridas e tenho desinteresse pelas notícias e qualquer dos acontecimentos dos mundos. Como manter qualquer projeto com um mínimo de coerência, se a vida não fica esperando os meus prazos internos e ignora a minha falta de vitalidade e inércia durante a depressão? E, ao contrário, como faze-lo, se o ritmo das coisas não é acelerado no meu rítmo, quando estou com as baterias sobrecarregadas e tenho ânsia de realizar, conviver e ser? É possível não me esgotar psíquica, física e emocionalmente durante as fases de euforia, se busco desesperadamente compensar a vida já perdida na fase depressiva, me envolvendo em atividades, cursos e projetos cujos níveis de prioridades não consigo determinar? Deprimida, a penumbra do meu quarto passa a ser todo o espaço existente e o tempo, além eternamente caótico, inclui um passado equivocado,  um futuro improvável e um presente irremediavelmente insuportável.

       Além disso. sabe-se muito pouco sobre a natureza da mente humana. Uma vasta bibliografia afirma que o transtorno bipolar não tem cura e deve ser tratado com medicamentos e psicoterapia. Bem sei que manter acompanhamentos psicológicos e psiquiátricos são tarefas que exigem coragem, disposição e dinheiro. Faço psicoterapia desde a juventude. Quanto aos medicamentos eu os tomo há mais de 13 anos, apesar dos efeitos colaterais (15kg de sobrepeso, uma gastrite, diminuição da libido, queda de cabelos etc). Essas abordagens não me têm garantido sequer seis meses contínuos de estabilidade emocional e disposição para a vida. Assim, concluo que, além de apoio psicológico e psiquiátrico, são necessárias ao menos duas vias de tratamento: a do apoio espiritual constante e a físico/energética (associação de alimentação balanceada, exercícios aeróbicos, massoterapia, yoga, acupuntura etc). Não aceito a primeira como mais uma mercadoria nesse nosso tempo onde tudo parece estar à venda. Quanto às práticas, no entanto, além de serem dispendiosas e de difícil acesso na velocidade do mundo atual, exigem muita clareza, autodeterminação e continuidade no seu uso. Nenhuma educação alimentar ou exercício físico e energético dá resultados se não são praticados regular e continuamente e apoio espiritual não surge por graça de uma imposição externa. Incorporar essas práticas no nossos cotidiano requer crenças e hábitos a serem criados, repetidos e longamente cultivados.

       Não faço essas reflexões tentando dirimir a minha responsabilidade sobre o que se passa comigo, mas numa tentativa de compreender o porquê de, embora as circunstâncias principais que me rodeiam continuarem iguais, eu as perceba de modos tão antagônicos e movidas por um mecanismo cuja chave de comando eu não sei qual é, onde está, nem quando é acionada.  Em um dia, eu me sinto feliz em fazer parte de tudo: da família que amo, dos amigos que conquistei, da grama sob meus pés, do brilho solar sobre o mar da Bahia etc. Poucos dias depois, ainda que tudo esteja igual, sinto-me não apenas só, mas com raiva de estar viva e desejando a morte como único alívio.   Com o passar dos anos e as reiteradas mudanças de ciclo, a nossa esperança e autoconfiança vão diminuindo não apenas pelo cansaço gerado, mas pela constatação de que a parte adoecida em nós é justamente aquela capaz de modificar nossos hábitos, nossas crenças, nosso modo de vida: a mente. Enfim, a menos que haja uma assistência mais positiva, ampla e integradora dos diferentes recursos existente, estaremos tomando dosagens de uma vacina que potencializa a força do micro-organismo e os danos por ele causado em nós. 



  FONTE DA IMAGEM: http://colecionandoprimaveras.blogspot.com.br/2014/05/transtorno-bipolar-o-que-e-isso.html