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domingo, 23 de novembro de 2014

CRÔNICA DE UM CASAMENTO NÃO ANUNCIADO



O acaso não rege as sinfonias das nossas vidas. Tudo o que realizamos é fruto de um sonho inicial, de um planejamento e de ações a ele direcionadas. Apesar de nossos pensamentos e disposição poderem atrair as experiências que vivemos, inevitáveis imprevistos fazem com que elas não aconteçam onde, quando e como idealizamos.  Assim, se não somos o grande Regente, digamos que escolhemos o tom da música.

Nesse fim de semana, fizemos um ensaio fotográfico com André Cunha e Joana Avena, namorados há onze anos( ENSAIO DE JOANA E ANDRÉ ). A ideia era realizar um tipo de sessão em que recém-casados saem com as roupas da cerimônia para um local inusitado. Sem termos analisado muito, o Castelo Garcia d’Ávila foi a locação escolhida. No entanto, constatamos tratar-se de um local significativo, pois André e Joana viveram grandes momentos em Praia do Forte, região próxima às ruínas. Ainda não havia nenhuma previsão de enlace desses eternos namorados, mas os vendo em trajes de noivos, minha emoção era clara e foi explicitada quando nosso filho Ciro exclamou: “Minha mãe tá adorando!”

A tarde chuvosa não impediu que fossem produzidas fotos expressivas e bem iluminadas, porque à medida que as horas se passavam, mudava a configuração do tempo no céu. Talvez isso tenha acontecido para lhes lembrar, que os dias cinzentos podem ser superados por um sol tão escarlate, quanto os lábios da noiva. Logo na entrada do sítio, um turista lhes desejou “Felicitaciones!” Depois, os noivos receberam dois presentes: a chegada de Núbia para fazer um registro pessoal e um maravilhoso pôr-do-sol para completar o cenário.
Mais tarde, um casal de Fortaleza começou a tirar fotos em iguais locais e nas mesmas posições em que eles haviam pousado.  A mulher, deduzindo terem eles se casado na igreja do Forte, salientou a combinação do estilo bucólico do vestido com o ambiente circundante. Sob o meu ponto de vista, o vestido de minha irmã, Vânia, parecia adequado para relativizar o tempo, por ter sido bordado há mais do dobro de anos de namoro dos dois. Ao saber que éramos parentes dos noivos, o homem concluiu que eles estavam sendo abençoados por nós e nisso ele estava absolutamente certo.  Por fim, como um violino prateado que dá os acordes introdutórios de um concerto, surgiu a lua cheia, iluminando o momento em que a natureza, em evidente estado de harmonia, tocava a tão esperada marcha nupcial.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

NÃO GOSTA DA SUA POESIA? MADAME A PSICOGRAFA EM 2 DIAS!






CASA DESARRUMADA
                                   DE: CARE DRUMMOND MANSUR DE ANDRADE
                                   PSICOGRAFADA POR: VERA LUCIA PASSOS COQUEIRO

Casa desarrumada é assim:
Um lugar organizado às pressas, meio limpo, com entrada livre pelos fundos e uma iluminação de dia nublado.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro de fofoca, um cenário Pigmaleão 70!
Tem gente que gasta muito tempo mandando correntes no zapzap, fofocando, pousando para fotos, ajustando as papadas...
Não, eu prefiro viver numa casa, onde eu bato o olho e percebo logo: aqui tem coroas cheias de vida!
Coroas cheias de vida, para mim, são aquelas que não leem livros de poesias, desarrumam cadeiras e prateleiras e ainda levam os tecidos e enfeites da dona da casa.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das visitas que não fizeram refeições fartas e se lambuzam na mesa da cozinha.
Bolo sem cobertura? Beiju sem manteiga, nem torrado? Banheiro sem papel higiênico? Tá na cara que a dona é relaxada! 
E se o café não está à mão, é porque as visitas não aprenderam a usar a cafeteira.
Casa com vida, para mim, tem banheiro com descarga funcionando só à base de balde (ou panela).
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda fita, sianinha, moldes, perto do sanitário, tudo junto. 
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente quase arrependida.
A que está sempre pronta para se entulhar de amigos, filhos, tios-netos, vizinhos...
E, nos quartos, se possível, a gente não sobe pra não ver os lençóis revirados por gente que não arruma a cama nenhuma hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar parecida com a cara das amigas da gente!

                                                               A MESA DA COZINHA
                                                         A AUTORA E A AMIGA QUE A PSICOGRAFA

CASA ARRUMADA

                                 DE: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
                                 POR: VERA LUCIA PASSOS COQUEIRO

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos, pros netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
A jornalista e fotógrafa mais querida.

domingo, 16 de novembro de 2014

AS PALAVRAS ESTÃO ENGORDURADAS


         
Em 2008, o nosso grupo de poesia falada participou de um Café Filosófico em que Viviane Mosé foi uma das palestrantes. O evento que se encerraria um show de Jorge Mautner, mas o cantor não compareceu. Na época, o grupo estava começando a se formar. Mais tarde ele passou a ser a ser a seção Salvador da Escola Lucinda de Poesia Viva e, hoje, se denomina  DI VERSOS - Arte Poética Singular. Foi uma experiência maravilhosa ouvi-la. Viviane estava acompanhada de seu marido e nos assistiu com o filho no colo.  Infelizmente, não temos fotos, não pedimos autógrafo nos seus livros, mas restou o a emoção e a memória daquela tarde.
          Acabo de encontrar uma reportagem sobre o Café no link Cine Clube Roberto Pires  Aproveito para pedir ao amigo e um dos organizadores, Nelson Cerino, que nos passe alguma foto, em que esteja registrada a nossa participação, para que eu a possa publicar no blog DI VERSOS - Arte Poética Singular .
       A única poesia dela que constava no nosso repertório foi "Receita para Lavar Palavra Suja". Ela foi lindamente apresentada pela nossa querida amiga, Mara Vanessa Fonseca, que está afastada do grupo, morando em Minas. Segue a poesia com as palavras limpas e límpidas saindo da boca da própria poeta e pensadora:




        Eu não me lembro de todo o repertório, apenas sei que o grupo foi representado por Jina Carmen, Mara Vanessa, Sarah Carneiro, Marta Alencar e eu. Outro momento marcante foi Silvana Motta, que na impossibilidade de ficar pendurada de ponta cabeça, apresentava o poema "Morcego" de Augusto dos Anjos, escondida em um corredor atrás do palco. A poesia que falei foi de "Aula de Desenho"  (todos brincam dizendo tratar-se de mais um trava-língua que escolho) é da autoria da poeta e ensaísta mineira Maria Esther Maciel. O poema trata da mulher e sua capacidade de se reinventar a cada instante:



AULA DE DESENHO

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.

Esboço uma face a régua e compasso:

É falsa. Desfaço o que fiz. 

Retraço o retrato. Evoco o abstrato

Faço da sombra  minha raiz.

Farta de mim, afasto-me

e constato: na arte ou na vida, 

em carne, osso, lápis ou giz

onde estou não é sempre

e o que sou é por um triz.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

LEITURA NATURAL DA NATUREZA DO CORAÇÃO DOS HOMENS




“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer. Uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens”.  
                               

                                                                                            Ferreira Gullar



LEITURA NATURAL



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.






Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.




Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.






sábado, 8 de novembro de 2014

A BENÇA, MEU TIO?


No dia em que completo 45 anos serão sorteados 45 milhões de reais. Respeito muito a sabedoria popular e lembro que um dos ditados diz que "sorte no jogo, azar no amor". Pensando em cada minuto de minha vida, decidi nem passar perto de uma casa lotérica, pq de nada me valeria todo dinheiro do mundo sem o amor de meus filhos e dos meus amigos, sem os quais minha vida seria algo sem qualquer sentido. Aos meus amigos, que hoje e sempre ao lembrar rio e choro de saudades, meu muito obrigado.

       Acabo de acordar, penso em escrever para Yolanda e Jackson Costa, elogiando o espetáculo poético "A COISA", que assisti na Caixa Cultura, mas me deparo com a mensagem acima.

           Um homem de nome Vicente Cunha Passos poderia ser meu irmão, no entanto, é meu tio e padrinho. É provável que ele tenha sido o irmão mais querido do meu pai e o maior desafeto de minha mãe. Eram todos primos e neles corre um sangue e uma herança genética e comportamental que os põe propensos ás mesmas doenças. Tio vicente foi o motivo ou a desculpa para inúmera brigas entre meus pais. Eu, como filha primogênita, herdeira da mesma carga genética, a preferida de minha mãe e a menos amada por meu pai, fui um tipo de Exu ou Hermes, que só levava notícias más entre mamãe e titio. Ela saia comigo em um táxi para os seguir e ver se meu pai estava em algum bordel com o seu irmão, cuja fama de boêmio e mulherengo era bem conhecida na nossa cidade. Voltávamos sempre constatando que os dois estavam juntos em um bar, talvez matando as saudades de irmãos, cumprindo a determinação divina de que foram escolhidos e escolheram partilhar pais e infância e juntos aprenderem a se tornarem adultos melhores. A lição de meu pai era se permitir ser feliz, abrir-se para a vida, sentir-se merecedor de dádivas imateriais e  vencer o enorme machismo, sentir-se mais forte do que a mulher que tanto amava e tentava controlá-lo, enquanto ela o ajudava a vencer uma depressão crônica na família. Ao meu tio cabia aprender a não exagerar na busca do prazer carnal e desmedido, moderar a alegria que busca fugir de uma tristeza soterrada. 




       Fui batizada por esse tio, por desígnios de Deus e para desespero de minha mãe. Eles haviam convidado, provavelmente por determinação dela, seu tio Dário Cunha e sua esposa Elvira para serem meus padrinhos em Santa Bárbara. Naquela manhã, no entanto, seu tio não compareceu à cerimônia por razões que desconheço. No momento de ser concretizado o batismo, na falta de opção e provavelmente, sob pressão do meu pai, fui batizada por tio Vicente e sua irmã, com a qual jamais tive contato. Escondido o episódio, durante toda a minha vida infância e juventude. pedi a benção ao tio Dário, que era uma espécie de mediador nos conflitos dos Cunha. Ele era um fazendeiro muito rico, que não sabia lidar com o dinheiro,  embora a contragosto, o emprestasse ou desse quando seus sobrinhos lhe pediam. 
       
        Por volta dos meus 14 anos, em uma das vindas de Minas Gerais do meu tio Meinardo Passos ou tio Joaquim, meu pai parou sua rural, embaixo de uma mangueira do Hotel Solar Santana, propriedade original da família Cunha, e, chorando, revelou aos seus 3 filhos que possuía uma irmã de nome Lourdes, viva e morando em sua cidade natal. Não posso revelar os sentimento ou os pensamentos dos meus irmãos, mas eu fiquei chocada e identificada com o sofrimento e fraqueza daquele homem em ter vivido tantos anos afastado de sua única irmã e ter sido conivente na decisão de boicotar uma possível relação de amor entre ela e seus filhos.

       No início do ano de 1975, lendo um horóscopo com previsão para 76, tenho o pressentimento de que meu pai morreria no mês de agosto daquele ano. Manifesto isso para as minhas amigas que tentam me convencer do contrário.  Em agosto, aos meus 17 anos, como previ, morre o meu pai. Ele se queima vivo em seu maior gesto de desespero, coragem e solidão. Em consequência disso e de todo o sentimento gerado por sua ação, concluo que será insuportável a convivência diária entre minha mãe e eu. Já consciente de seu autoritarismo e loucura. Certamente, ela viria morar em Salvador e eu não suportaria seus desmandos e desrespeito a mim. A grande herança deixada fica totalmente controlada pela matriarca como modo de demonstrar a sua insegurança, sofrimento e necessidade de poder levar à frente aquela família sem a presença de seu marido. Não consigo aguardar os meus 21 anos para receber a parte do quinhão que me era devida, comprar a minha alforria. Então, a ameaço de entrar com um processo e de esperar o seu desfecho, trancando o curso de Arquitetura na UFBa, voltando para Feira de Santana e procurando viver de aulas particulares de PortuguêsInglês e Matemática. Não sei se blefei ou se teria a coragem de enfrentar minha própria mãe em um tribunal. Vendo o quanto nos parecíamos fisicamente, eu teria a sensação de estar lutando contra mim mesma. Ela cede, decide me conceder o fruto dos rendimentos de aluguéis, juros bancários, 3 fazendas e do maior hotel da cidade. Ceder não é a palavra mais acertada, porque ela determinou a forma com que eu receberia o dinheiro e o valor devido. Assim, todos os meses entre meus 18 e 21 anos, eu fui para a casa do seu tio Dário, onde pedia a sua benção e ele assinava um cheque me emprestando o valor mensal, reclamando de minha rebeldia e me dando indiretas sobre o  trabalho que tinha ao ser forçado a abrir sua carteira, digo, assinar um cheque, provavelmente o ato que mais desafiava o seu padrão de pensamento e ação. 

     Anos mais tarde, descubro que meu pai, assim como meu tio Vicente, teve amantes, que o meu tio Dário não havia me batizado e era pelo meu tio Vicente que eu precisava ser abençoada. Fiquei aterrorizada ao saber que o meu padrinho era aquele tio que eu tantas vezes havia procurado em sua porta, para lhe repetir, chorando, mensagens agressivas determinando que se afastasse da família do seu irmão? Nessa situação, até hoje não fui capaz de tratá-lo como afilhada, nem nele vi nenhum gesto de quem tivesse a responsabilidade de ser meu pai substituto. 


       Em 2012, quando eu e meu companheiro de 25 anos, resolvemos comemorar bodas de prata, nos casando no civil, ao procurar o meu batistério, eu me dei conta de que não sabia quem era a minha madrinha. A essa altura, tio Dário e tia Elvira já haviam morrido. A busca da revelação foi vã, porque o documento havia sido extraviado em Santa Bárbara, no processo de vinda para o Bispado de Feira. Casei-me muito triste com esse questionamento e a constatação de que meu pai não poderia participar da cerimônia e minha mãe não queria nela estar. Porém, continuei a investigação indo à casa de tio Vicente e tia Aidil, para saber deles quem era a minha madrinha. Bastante envelhecido e sofrendo do mal de Alzheimer, ele não me reconheceu e falou: "parece mesmo que eu batizei um filho de Milton". Depois de várias buscas sem sucesso, em um momento de contato telefônico com minha mãe, eu lhe pergunto, muito calma e estrategicamente, que me diga quem era a minha madrinha. Ela me diz ter sido "uma pretinha que trabalhava na casa de minha avó paterna e que já deveria estar morta." Concluo que, se ela era mais nova do que minha mãe, havia grandes possibilidade de que eu a encontrasse para montar mais um quebra-cabeças do meu passado. Eu conto a suas irmãs, minha tia Ovídia e Maria das Graças,  que não acreditam nessa versão, mas continuam a busca a meu pedido. Em um outro telefonema, eu digo a minha mãe que não localizei essa mulher e ela me diz que se enganou e acha que foi mesmo tia Lourdes. já morta. Então, para desvendar o meu passado e dar mais um passo rumo á possível verdade do que fui, para o entendimento do que sou e decisão do que quero ser, já marquei uma viagem até Santa Bárbara, onde, poderei, ao menos falar com a sua filha, aquela que cuidou da minha tia e madrinha até a sua morte e rever as fachadas das casas vizinhas, onde meus pais e avós moraram  e visitar a igreja onde fui batizada. 

       Termino esse longo relato, me sentindo mais limpa e leve e declarando ao meu primo Vicentinho, com o qual não convivi e que se tornou meu amigo no facebook, como tantos outros desconhecidos: "De alma lavada, sinto tristeza pelos primos que não fomos, fico feliz pelo pouco contato e carinho que foi possível existir com o seu irmão mais velho, Roberto Passos, e amo todos pelos laços que ainda poderemos desenvolver."