Follow by Email

sábado, 8 de novembro de 2014

A BENÇA, MEU TIO?


No dia em que completo 45 anos serão sorteados 45 milhões de reais. Respeito muito a sabedoria popular e lembro que um dos ditados diz que "sorte no jogo, azar no amor". Pensando em cada minuto de minha vida, decidi nem passar perto de uma casa lotérica, pq de nada me valeria todo dinheiro do mundo sem o amor de meus filhos e dos meus amigos, sem os quais minha vida seria algo sem qualquer sentido. Aos meus amigos, que hoje e sempre ao lembrar rio e choro de saudades, meu muito obrigado.

       Acabo de acordar, penso em escrever para Yolanda e Jackson Costa, elogiando o espetáculo poético "A COISA", que assisti na Caixa Cultura, mas me deparo com a mensagem acima.

           Um homem de nome Vicente Cunha Passos poderia ser meu irmão, no entanto, é meu tio e padrinho. É provável que ele tenha sido o irmão mais querido do meu pai e o maior desafeto de minha mãe. Eram todos primos e neles corre um sangue e uma herança genética e comportamental que os põe propensos ás mesmas doenças. Tio vicente foi o motivo ou a desculpa para inúmera brigas entre meus pais. Eu, como filha primogênita, herdeira da mesma carga genética, a preferida de minha mãe e a menos amada por meu pai, fui um tipo de Exu ou Hermes, que só levava notícias más entre mamãe e titio. Ela saia comigo em um táxi para os seguir e ver se meu pai estava em algum bordel com o seu irmão, cuja fama de boêmio e mulherengo era bem conhecida na nossa cidade. Voltávamos sempre constatando que os dois estavam juntos em um bar, talvez matando as saudades de irmãos, cumprindo a determinação divina de que foram escolhidos e escolheram partilhar pais e infância e juntos aprenderem a se tornarem adultos melhores. A lição de meu pai era se permitir ser feliz, abrir-se para a vida, sentir-se merecedor de dádivas imateriais e  vencer o enorme machismo, sentir-se mais forte do que a mulher que tanto amava e tentava controlá-lo, enquanto ela o ajudava a vencer uma depressão crônica na família. Ao meu tio cabia aprender a não exagerar na busca do prazer carnal e desmedido, moderar a alegria que busca fugir de uma tristeza soterrada. 




       Fui batizada por esse tio, por desígnios de Deus e para desespero de minha mãe. Eles haviam convidado, provavelmente por determinação dela, seu tio Dário Cunha e sua esposa Elvira para serem meus padrinhos em Santa Bárbara. Naquela manhã, no entanto, seu tio não compareceu à cerimônia por razões que desconheço. No momento de ser concretizado o batismo, na falta de opção e provavelmente, sob pressão do meu pai, fui batizada por tio Vicente e sua irmã, com a qual jamais tive contato. Escondido o episódio, durante toda a minha vida infância e juventude. pedi a benção ao tio Dário, que era uma espécie de mediador nos conflitos dos Cunha. Ele era um fazendeiro muito rico, que não sabia lidar com o dinheiro,  embora a contragosto, o emprestasse ou desse quando seus sobrinhos lhe pediam. 
       
        Por volta dos meus 14 anos, em uma das vindas de Minas Gerais do meu tio Meinardo Passos ou tio Joaquim, meu pai parou sua rural, embaixo de uma mangueira do Hotel Solar Santana, propriedade original da família Cunha, e, chorando, revelou aos seus 3 filhos que possuía uma irmã de nome Lourdes, viva e morando em sua cidade natal. Não posso revelar os sentimento ou os pensamentos dos meus irmãos, mas eu fiquei chocada e identificada com o sofrimento e fraqueza daquele homem em ter vivido tantos anos afastado de sua única irmã e ter sido conivente na decisão de boicotar uma possível relação de amor entre ela e seus filhos.

       No início do ano de 1975, lendo um horóscopo com previsão para 76, tenho o pressentimento de que meu pai morreria no mês de agosto daquele ano. Manifesto isso para as minhas amigas que tentam me convencer do contrário.  Em agosto, aos meus 17 anos, como previ, morre o meu pai. Ele se queima vivo em seu maior gesto de desespero, coragem e solidão. Em consequência disso e de todo o sentimento gerado por sua ação, concluo que será insuportável a convivência diária entre minha mãe e eu. Já consciente de seu autoritarismo e loucura. Certamente, ela viria morar em Salvador e eu não suportaria seus desmandos e desrespeito a mim. A grande herança deixada fica totalmente controlada pela matriarca como modo de demonstrar a sua insegurança, sofrimento e necessidade de poder levar à frente aquela família sem a presença de seu marido. Não consigo aguardar os meus 21 anos para receber a parte do quinhão que me era devida, comprar a minha alforria. Então, a ameaço de entrar com um processo e de esperar o seu desfecho, trancando o curso de Arquitetura na UFBa, voltando para Feira de Santana e procurando viver de aulas particulares de PortuguêsInglês e Matemática. Não sei se blefei ou se teria a coragem de enfrentar minha própria mãe em um tribunal. Vendo o quanto nos parecíamos fisicamente, eu teria a sensação de estar lutando contra mim mesma. Ela cede, decide me conceder o fruto dos rendimentos de aluguéis, juros bancários, 3 fazendas e do maior hotel da cidade. Ceder não é a palavra mais acertada, porque ela determinou a forma com que eu receberia o dinheiro e o valor devido. Assim, todos os meses entre meus 18 e 21 anos, eu fui para a casa do seu tio Dário, onde pedia a sua benção e ele assinava um cheque me emprestando o valor mensal, reclamando de minha rebeldia e me dando indiretas sobre o  trabalho que tinha ao ser forçado a abrir sua carteira, digo, assinar um cheque, provavelmente o ato que mais desafiava o seu padrão de pensamento e ação. 

     Anos mais tarde, descubro que meu pai, assim como meu tio Vicente, teve amantes, que o meu tio Dário não havia me batizado e era pelo meu tio Vicente que eu precisava ser abençoada. Fiquei aterrorizada ao saber que o meu padrinho era aquele tio que eu tantas vezes havia procurado em sua porta, para lhe repetir, chorando, mensagens agressivas determinando que se afastasse da família do seu irmão? Nessa situação, até hoje não fui capaz de tratá-lo como afilhada, nem nele vi nenhum gesto de quem tivesse a responsabilidade de ser meu pai substituto. 


       Em 2012, quando eu e meu companheiro de 25 anos, resolvemos comemorar bodas de prata, nos casando no civil, ao procurar o meu batistério, eu me dei conta de que não sabia quem era a minha madrinha. A essa altura, tio Dário e tia Elvira já haviam morrido. A busca da revelação foi vã, porque o documento havia sido extraviado em Santa Bárbara, no processo de vinda para o Bispado de Feira. Casei-me muito triste com esse questionamento e a constatação de que meu pai não poderia participar da cerimônia e minha mãe não queria nela estar. Porém, continuei a investigação indo à casa de tio Vicente e tia Aidil, para saber deles quem era a minha madrinha. Bastante envelhecido e sofrendo do mal de Alzheimer, ele não me reconheceu e falou: "parece mesmo que eu batizei um filho de Milton". Depois de várias buscas sem sucesso, em um momento de contato telefônico com minha mãe, eu lhe pergunto, muito calma e estrategicamente, que me diga quem era a minha madrinha. Ela me diz ter sido "uma pretinha que trabalhava na casa de minha avó paterna e que já deveria estar morta." Concluo que, se ela era mais nova do que minha mãe, havia grandes possibilidade de que eu a encontrasse para montar mais um quebra-cabeças do meu passado. Eu conto a suas irmãs, minha tia Ovídia e Maria das Graças,  que não acreditam nessa versão, mas continuam a busca a meu pedido. Em um outro telefonema, eu digo a minha mãe que não localizei essa mulher e ela me diz que se enganou e acha que foi mesmo tia Lourdes. já morta. Então, para desvendar o meu passado e dar mais um passo rumo á possível verdade do que fui, para o entendimento do que sou e decisão do que quero ser, já marquei uma viagem até Santa Bárbara, onde, poderei, ao menos falar com a sua filha, aquela que cuidou da minha tia e madrinha até a sua morte e rever as fachadas das casas vizinhas, onde meus pais e avós moraram  e visitar a igreja onde fui batizada. 

       Termino esse longo relato, me sentindo mais limpa e leve e declarando ao meu primo Vicentinho, com o qual não convivi e que se tornou meu amigo no facebook, como tantos outros desconhecidos: "De alma lavada, sinto tristeza pelos primos que não fomos, fico feliz pelo pouco contato e carinho que foi possível existir com o seu irmão mais velho, Roberto Passos, e amo todos pelos laços que ainda poderemos desenvolver."


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sem muitos gerúndios, longas esperas e musiquinhas, o seu comentário é, de fato, importante para nós! Fique calmo, pois não vamos desligar a nossa ligação virtual, ok?