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sábado, 14 de março de 2015

ACUADOS E MAIS VIOLENTOS?

      Outro dia, uma amiga queria me convencer de que o discurso feminista estava ultrapassado com a seguinte frase: "Os homens estão acuados!" Há poucos dias, outra me relatou da queixa de um amigo seu de que as mulheres estavam desinteressantes, porque muito "atiradas". Fiquei indignada em relação à afirmação e achei curiosa e engraçada a queixa. Pelo que sei, as estatísticas não parecem comprovar tantos avanços assim. Ando tão alienada que as coisas mudaram e eu não dei por isso? Os homens sempre nos abordaram.  Por longo tempo e inúmeras vezes, o fizeram de modo grosseiro com gestos obscenos e palavras de baixo calão. Pegaram em nós sem nos pedir permissão e imaginaram ser a nossa obrigação estar disponíveis para satisfazer suas vontades e obedecer os limites que determinavam para nós. No entanto, hoje, julgam que estamos muito ousadas se tomamos a iniciativa da aproximação?  Não lhes parece uma piada?

      Desde muito cedo adotei um discurso feminista, não me lembro quando isso aconteceu. Sei apenas que não precisei ler ou discutir sobre o tema para saber que as mulheres sofriam com essa visão limitada de suas potencialidades, determinação e singularidade. Tive uma mãe muito forte que, embora se submetesse em muitos aspectos por conta das expectativas sociais em relação à mulher, em alguns momentos se rebelava e virava a mesa. Foi assim que, respectivamente, ela não se dei a oportunidade de se formar e trabalhar fora, mas pegou o carro do meu pai, em sua ausência e saiu em uma rural trotando feito cavalo bravo com os seus 3 filhos no banco de trás. Isso deixou em mim um certo sentimento de contradição. Foi vivendo as minhas próprias experiências que tornei-me mais consciente da necessidade de lutar pela causa feminista na minha esfera individual. Só para citar alguns casos, já fui tratada de modo diferente dos homens solteiros por porteiros do meu prédio, quase apanhei de um homem porque não demonstrei igual interesse por ele, já gritei na rua para que homens desconhecidos não me tratassem como mercadoria barata exposta em vitrine e até recebi oferecimento de jóias para ser amante de homens bem mais velhos, enquanto suas mulheres iam ao banheiro do próprio apartamento.

      Hoje, presenciei o choro de uma cabeleireira, durante o trabalho, assintindo de novo ao vídeo de uma mulher sendo espancada por seu parceiro. Ela afirmou que a conhecia porque a agredida costumava brincar com os seus filhos. No vídeo, a garota recebe socos e tem o seu cabelo cortado. Todos os dias divulga-se casos de mulheres assassinadas por maridos, ex-maridos, namorados ou ex-namorados. Há alguns emblemáticos em períodos distantes como Ângela Diniz, Daniella Peres e Eliza Samúdio. Vale ressaltar que esses três casos foram muito discutidos e apurados porque tratavam-se de mulheres brancas e de classe média. Em se tratando de negras pobres, nem mesmo os dados estatísticos dão conta! 

      Três em cada quatro mulheres já foram agredidas ou assediadas por companheiros no Brasil. As medidas oficiais como a Lei Maria da Penha não surtiram o efeito esperado. E isso não se dará, mesmo com o assassinato de mulheres sendo considerado crime hediondo. Em um país onde a impunidade impera, não haveria de ser aquelas, a quem se reputa menor valor, a serem as que têm a garantia do amparo da lei. Portanto, considero que o único alento é a constatação de que tem aumentado o número de grupos de jovens garotas se organizando, buscando trabalhar pela conscientização de outras mulheres. Para minha alegria, em março, participei de 2 atividades coordenadas por grupos de mulheres* que fazem esse trabalho de formiguinhas educadoras na crença de que é possível alcançar a garantia dos nossos direitos e o respeito às nossas diversidades. Que estejam certas e que sejam elas a saborear o fruto do trabalho carregado!

*MINAVU - Coletivo de Mulheres Artistas:    https://www.facebook.com/minavu.arte?fref=ts
e   Cacheando em Salvador: https://www.facebook.com/CacheandoEmSalvador?fref=ts

sábado, 7 de março de 2015

PRIMEIROS CUIDADOS COM AS CUIDADORAS!

           QUE TAL... Que tal se, no mês da mulher, cada uma delas parasse para refletir se está sendo uma boa mãe, uma boa filha, uma boa amiga, uma boa cuidadora, enfim? Preliminarmente a essa tarefa, cabe perguntar-se: estou me ocupando comigo, atenta às minhas necessidades mais fundamentais?  Que tempo e energia tenho dedicado a me ocupar dos meus corpos mental, emocional, físico e espiritual? Que tal se reservar um momento diário para acalentar a criança que vive dentro de você?  Para brincar com ela nesse mês de março e depois dele? Instantes de atenção à perfeição que habita em si e de contemplação com a mãe natureza, com todo o prazer que essa tarefa pode trazer para o futuro das próximas gerações? Está disposta a ser sua própria médica, mestre, filósofa, massoterapeuta e psicóloga curando, carências e traumas? Determinada a fazê-lo com a alegria de quem está realizando a tarefa que mais importa? Afinal, sem ela, vários serão os órfãos!

ADOÇÃO
                        Elisa Lucinda

Não sei se te contei
mas há algum tempo sou minha
me adquiri num mercado
onde o escambo era da posse pela liberdade
me obtive numa dessas voltas da morte
me acolhi num desses retornos do inferno.


Dei banho, abrigo, roupas, amor enfim.
Adotei o meu mim
como quem se demarca e crava em si o mastro da terra à vista
a cheiro, a tato, a trato, a paladar e ouvido.


Não sei se te contei
me recebi à porta da minha casa
abracei, mandei sentar
Abracei eu mesma, destranquei a porta
que é preu sempre poder voltar.
Dei apenas o céu à sua legítima gaivota
Somos a sociedade
e ao mesmo tempo a cota
Visita e anfitriã
moram agora num mesmo elemento
juntas se ancoram
na viagem das eras
No novelo do umbigo
No embrião do centro
No colo do tempo.