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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

RESPONSABILIDADE LINGUÍSTICA



      Ontem um vizinho pediu a minha opinião sobre a forma como Roberto Carlos pronunciava algumas palavras em suas canções. Como exemplo ele citou "que" e "desejo" e  as quais ele pronunciava, respectivamente, as vogais finais como os fonemas [i] e [u]. Eu quis contra-argumentar chamando a atenção para o fato de se tratar de uma obra de arte, portanto, onde se dá a licença poética, mas preferi falar de variantes linguísticas. Se as músicas eram populares, sua forma de pronunciar as palavras não deveria ser estranha ao público ao qual sse dirigiam. Acrescentei que, especialmente em um país grande como o nosso, é plenamente justificável que haja várias formas de se expressar uma mesma palavra e não ser recriminado por isso. Sem querer me estender demais, salientei que a exigência na forma falada da língua é muito menor do que na escrita.


      Foi então que me lembrei do meu estranhamento e até revolta quando vejo anúncios com incorreções gramaticais. Aí sim eu fico revoltada, porque quem difunde uma mensagem escrita em cartazes, panfletos, "busdoors" ou "outdoors", sabe que o faz para um grande público e deveria ter responsabilidade em não cristalizar incorreções em um povo, em sua maioria, sem acesso a uma educação de qualidade. Ao meu ver, deveria haver uma lei que multasse as empresas que afixassem essas peças publicitárias com erros gramaticais, fossem eles de grafia, de concordância ou de qualquer outra espécie. A existência de um revisor seria obrigatória para garantir que essas desinformações não fossem propaladas aos quatro cantos. Não sou purista da língua, mas acredito que deve haver um cuidado com esse que é um patrimônio de um povo e faz parte de sua identidade, permite que seus membros se comuniquem e tenham a sensação de pertencimento, Afinal, corrigir o que se aprende erradamente requer muito mais esforço do que aprender a forma mais correta. Na verdade, não há uma forma "erradas" ou "certas" de se falar ou escrever, mas uma enorme gama de possibilidades que devem se adequar aos que fazem os enunciados e às situações linguísticas, mas considero que em certos casos, é necessário que se tenha o propósito educativo de se aproximar mais das formas mais aceitas pela norma culta. Enquanto escrevo, sinto falta de quem revise o meu texto, penso no quanto aprenderia se tivesse essa possibilidade e me lembro de algumas amigas que seriam capazes de melhorá-lo como as Cristinas Gaião e Cunha. No entanto, eu o faço para satisfazer a minha necessidade pessoal de expressão, em um meio informal e me dirijo a um grupo muito restrito de pessoas. Eis aqui o meu álibi. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

CONECTIVIDADE MIRIM

  
Dei carona a um jovem hoje à tarde e, no cainho, conversamos sobre a familiaridade com os recursos informáticos em função das idades. Eu relatei das dificuldades que tenho com novos recursos, apesar de ter sido um modo pioneira, quando comprei um computados da 2a. geração (286 com sistema DOS), na década de 80, e de ter concluído uma especialização em Informática Educativa, em um convênio com a Unicamp. Ele me relatou, que um sobrinho com dois anos já acessava filmes em um tablet e tinha celular com aplicativos como o whatsapp. Concordei com a evidência do que discutíamos no exemplo por ele apresentado, mas não cheguei a discutir as questões que esse fato me levantavam. Afinal, tivemos apenas o breve tempo de uma carona. Acredito que, apesar da natural facilidade que têm as novas gerações para acessarem computadores, tablets e celulares, não concordo ser um bom ato educativo essa iniciação tão precoce pela seguintes razões:

1. Desenvolvimento da fantasia: com a natural capacidade de fantasia que possuem as crianças, elas não precisam de muitos meios físicos para acessá-la;

2. Importância do brincar: ao brincarem as crianças desenvolvem sua subjetividade e, através de brincadeiras coletivas, articulam sua expressão e capacidade de se relacionarem, especialmente, com outras crianças; 

3. Estímulo à passividade:  esse objetos impõe às crianças uma atitude de simples receptores de conteúdos muito pouco educativos.  Agora,além de ficarem conectadas aos canais de tv, elas estão ligadas a outros meios os potencializando á obesidade. Mais do que isso, essas atividades lhes priva do contato amoroso com a família;

4. Potenciais perigos: a possibilidade de acessarem conteúdos inapropriados e entrarem em contato com pessoas com com más intenções;

5. Riscos físicos:  esses aparelhos podem representar perigos para a saúde das criança porque ainda não se sabe com precisão os efeitos do uso de celulares em nosso cérebro, há casos de crianças que se machucaram com fogo por dormirem com celulares ou por os usarem enquanto eles carregavam. Isso tudo sem falar do acesso à energia elétrica através de carregadores e com cabos;

6. Estímulo ao consumo de "brinquedos" caros; com a proximidade do dia da criança, tenho ouvido no rádio alguns anúncios de celulares ditos "muito baratos! Apenas 1700,00!" com vozes de criança os pedindo. Fico imaginando quais serão os desejos de consumo dessas crianças na adolescência;

7. Vulnerbilidade implícita: os celulares têm sido objetos muito procurados por assaltantes dado ao fato de várias pessoas os portarem e à facilidade de serem vendidos após o ato violento.


O mundo não anda lúdico, ao contrário, está visivelmente pesado e estressante. A necessidade de resgatarmos essa alegria infantil tem gerado não só estudos sobre Ludicidade, especialmente na área educacional, como empresas dirigidas a adultos, para que tenham contato com sua criança interior através de atividades lúdicas, como a Transludus. Portanto, acredito que a atividade que mais poderia beneficiar as crianças deva ser a participação em oficinas de construção individual do próprio brinquedos com materiais reciclados que além de lhes fazer refletir sobre o problema ambiental, lhes permitam não só a alegria de descobrir a sua potencialidade como criadores mas também a possibilidade de brincar coletivamente.  
         


                     

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A LOUCURA ENTRE NÓS TRÊS


 
   
Faz uma semana que assisti ao filme baiano A LOUCURA ENTRE NÓS, da diretora Fernanda Fontes Vareille,  baseado no livro do psicólogo Marcelo Veras. O documentário trata da trajetória de duas mulheres com problemas psiquiátricos que frequentaram o Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, aqui em Salvador. Eu não estava só. Fui acompanhada de duas amigas e colega de terapia, ambas com diagnósticos semelhantes ao meu: uma delas também de transtorno bipolar e outra apenas de depressão. Essa última, há alguns meses, tentara suicídio se atirando, de madrugada, na frente de um carro em movimento. Foi dela a sugestão de assistirmos a esse filme, com a justificativa de que gostava de se informar sobre o assunto.



       Foi a primeira vez em que vi imagens do portão de entrada do Juliano Moreira e do seu interior. Antes do filme, tomamos um café enquanto conversávamos sobre os problemas de outras colegas nossas de terapia e sobre internações em clínicas e hospitais psiquiátricos. Em como é terrível estar preso, usando doses excessivas de medicamentos, isolados e sem domínio sobre a própria vida. Contei que eu já havia pedido várias vezes ao meu marido, para jurar jamais permitir que me internassem, por maior a loucura por mim cometida. Outra de nós também falou o mesmo, mas a terceira disse que já havia sido internada e o quanto isso foi sofrido.

        Hoje, assisti a uma propaganda de uma rede de Clínicas Psiquiátricas, nela os médicos e administradores  destacavam o aspecto inovador da casa, porque suas instalações tinham cores claras e acomodações aconchegantes. É incrível que em nenhum momento eles questionavam o internamento em si e não davam nenhuma pista da forma como seria o tratamento dos doentes. Provavelmente, esses pontos eram secundários, tamanhas as vezes em que repetiam e mostravam as diversas salas do local. Notei que não havia grades, mas portas sem abertura. E pior, alguns supostos familiares também enfatizavam essas maravilhas da clínica, como se as instalações físicas fossem o mais importante no tratamento.

       A nossa tentativa era nos divertir um pouco depois do grupo de mulheres, mas duas de nós saímos da sala de projeções tocadas e tristes. Durante o filme, minhas amigas conversavam e muitas vezes relatavam coisas semelhantes ao que se passava na tela com as personagens. Eram colocações do tipo: "A contenção não é mais física, é química.", "Eu já tomei esse remédio "'haldol", ele deixa a gente assim, dopada, Observe como a pessoa fica com o olhar fixo.",  "Olhe a indiferença do funcionário.", "Eu já fiz bobagens desse tipo.","É horrível quando isso acontece.", "Alguns psicólogos tratam a gente, como se fôssemos crianças.", "Essa paciente tem o apoio da família, mas a outra sempre aparece sozinha. Isso faz uma enorme diferença."  "É por esse motivo que aquela nossa colega tem pavor de voltar a ser internada e deprime todas as vezes em que precisa ir lá apanhar os seus medicamentos." Fiquei a me perguntar em que medida as outras pessoas no cinema notavam esses aspectos tão evidentes para nós...
                                                        Medicamentos

       Até um certo momento, me senti mal com os comentários delas. Afinal estavam falando em um tom de voz que talvez pudesse ser ouvido pelas pessoas sentadas ao nosso redor. Mas, quando me perguntei se a minha posição sempre fora de esconder a doença ou de tentar conscientizar os demais a não terem preconceitos em relação a pessoas como nós, comecei a falar tamtém. Entre outras coisas, relatei:  "Já tomei "fluxetina' por muito tempo." "Com "carbolítio" eu engordei 20 quilos." " Gasto R$400,00 por mês em medicamentos." etc. Ao final, enquanto descíamos as escadas da sala de projeções, pensei em tentar verificar, qual era a expressão das outras pessoas em relação a nós três. Desisti. A melhor visão que poderiam ter era de estarmos, como elas, saindo de um filme e refletindo sobre o que o tema propunha. Nada mais do que isso era necessário mostrar.

                                                               Trailer do filme
                                        
 "A vida não tem equilíbrio; só equilibristas."  
                                                          Dr. Marcus André Vieira

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O AMOR É GRANDE E CABE NESSA JANELA SOBRE O MAR

VERA E A JANELA
                                  Maria Geralda Gomes Aguiar




     Vera queria ter uma janela. Não se sabe de onde vinha aquele desejo insistente, mas ele estava lá. Quem sabe a falta de horizontes na interiorana, embora tão próxima da capital, cidade onde nascera. O certo é que Vera insistia em ter sua janela. Não uma janela qualquer. Não uma janela para ver o tempo passar. Queria a qualquer, a todo custo, uma janela para o mar. Alcançaria o mar que lhe sorria além dos contornos da avenida, que de tão próximo parecia ser-lhe exclusivo. Um mar posto aos seus olhos para encher de maresia o cotidiano. Nada mais queria da vida, ali do décimo andar, não desde o playground descortinava-se o mar que trazia-lhe uma ilha do horizonte, um forte guarnecedor das costas daquele chão, a silhueta de um porto, até. Era um pedaço de uma baía, onde todos os santos haviam se reunido só para realizar um desejo seu. Teria sido para presenteá-la, quem sabe?

     Quanto engano pensar que Vera nada mais queria. Sua janela não seria como as já existentes. Queria uma janela só sua, que desse para o poente (ou o nascente?). Não importa! O tempo desfaz a memória do que é um mero detalhe, coisa desimportante quando só se quer o sol por companhia. Briguenta? Corajosa? Aventureira?

     Só se sabe que cometeu um ato contra os regulamentos da industriosa  construção civil. Ciosa do que pensava ser um direito inarredável seu- ver o sol, olhar o mar e deixar a maresia entrar por todas as aberturas de uma morada empoleirada no alto daquilo que os outros chamavam prédio de apartamentos, simplesmente prédio, ou edifício residencial - chamou os pedreiros e encomendou-lhes uma abertura na parede lateral do escritório, ao lado do seu potente, hoje modesto micro-computador. A janela ocuparia todo o espaço possível para ser desfrutável. Deveria ter um metro, ou mais? Era só deixar uns vinte centímetros entre os caixilhos e as paredes que contornavam a caixa de fósforos onde, duramente, planejava aulas, exercícios e provas para tantos, muitas e muitas vezes inimigos da tão amada matéria.

     Se havia desfeito um sonho de mãe, que a sonhava arquiteta, para seu sonho seguir, haveria, pois, de construir uma janela apara aquecer os números, quem sabe amolecer os ângulos de tantas formas geométricas, dar um impulso de luz à geometria espacial? Se possível fosse, até tornar a álgebra menos linear. Analiticamente planejada, fervorosamente debatida com moradores e com administradores, instalaria a janela.

     Houve amigos prós e contrários, até o esboço de um movimento que, imaginariamente, se intitularia "janela já". Queremos o horizonte descortinado! As ameaças foram muitas e vãs. O dito já era fato. A janela havia invadido a parede e olha orgulhosa por sobre os quintais, telhados e varias com  roupas ao sol.

     Um mandado de segurança, cogitou-se. Ficou quem sabe nos meandros da burocracia ou na falta de legislação pertinente. Os detalhes jurídico/administrativos são sempre maçantes e cansativos, por isso não interessam. Talvez os tenha apagado deliberadamente. Só se sabe que a janela pioneira resiste bravamente e mais duas, frutos do sonhos de seus vizinhos, lhe fazem companhia.

     Agora Vera não mora mais lá. Queria mais espaço e verde para a vida com o filho que estava chegando. Empoleirou-se novamente no aoto de outro décimo andar. Dali, quem sabe, sonha em caminhar ou caminha com o ato concreto por entre o verde dar árvores que lhe sombreiam o cotidiano. Olha o retângulo, ou ú um quadrilátero formado pelas águas de uma piscina nem sempre ensolarada. São esses erros arquitetônicos da engenhosa construção civil que o sol, implacavelmente não perdoa, e por isso mesmo só aparece em certos ângulos das brechas do armado concreto.

     Hoje não se sabe se Vera é aquela que amorosamente respirava o mar chegante de tantos cantos da costeira São Salvador. Houve  uma Vera que amava o mar e o transportava para recantos imaginários. Ter o mar na alma é fazer dos desafios travessias nas quais mergulhar? Fazer mil acrobacias com uma estética vividamente sentida? Deixar de lado as má(s)temáticas e aventurar-se pelas letras, àquelas vernáculas? Novas janelas se abrirão? Ficam perguntas na janela que ontem, estava fechada.

     Vera terá o direito de insistentemente tentar deixar de amar uma má temática? O amor por uma m[á temática mantém aquecido o mar de Vera ou sera que no balanço nem sempre seguro, de seu interno mar, ela deixou de amar?

quinta-feira, 14 de julho de 2016

EU NÂO ACREDITO EM VOCAÇÃO!


Houve um tempo em que invejei as pessoas por garantirem ter nascido para determinado caminho profissional. Imaginava a tranquilidade que deviam possuir pela ausência de dúvidas em relação a essa decisão tão importante para a nossa felicidade que, em geral, é feita muito precocemente. Apesar disso, desconfiava da autenticidade infantil em poder responder à clássica pergunta: O que você quer ser quando crescer?

     O fato é que descobri muitas coisas no meu percurso profissional. Não fui uma excelente aluna, mas costumava ser aprovada sem recuperações. No entanto, no chamado colegial, a Matemática começou a ser o meu calo. Fui encaminhada por minha mãe para um teste vocacional no ano do vestibular. Perguntaram-me as disciplinas de que eu mais gostava. Claro que respondi serem Português e Inglês. Depois de vários exercícios e as tais leituras de confusos borrões, o veredito foi o mais óbvio: você não tem talento para a área de Ciências Exatas e sim para a de Humanas. Eu me inscrevi para Psicologia. Foi uma decepção para a minha mãe. Desde cedo, ela me ensinara a dizer que eu queria ser uma médica pediatra. E eu incorporei esse “desejo”. Até tenho isso escrito em um trabalho escolar. Mas, quando vieram os grandes conflitos familiares, achei que fazer psicologia poderia me fazer entendê-los, resolvê-los e apaziguar o meu coração angustiado.

     Perdi o vestibular e vim morar em Salvador para fazer cursinho pré-vestibular. Durante o curso, fui aluna do prof. Pádua e tive a oportunidade de reaprender todos os conteúdos de inicias da Matemática. Motivada e bem orientada, passei a ficar fascinada e me sentir poderosa por compreender aquela fascinante linguagem. Porém, ainda insegura em mergulhar ao fundo na disciplina, uni o meu gosto pelo desenho com os números e passei em Arquitetura. Não deu outra, no segundo ano, eu já tinha eliminado as principais disciplinas de Matemática e tropeçava nas mais importantes de Arquitetura. Assim, fiz novo vestibular para Licenciatura em Matemática. Ao terminar o curso, por conhecer pouco do seu vasto universo, prossegui meus estudos até concluir o Bacharelado. Paralelamente, sempre estudava línguas, chegando a me formar em Inglês e Francês. Ensinei matemática por cerca de 15 anos e então, resolvi retomar a minha antiga paixão: a magia das palavras. Aos 34 anos, fiz novo vestibular para Letras. Passei a lecionar Inglês, ainda meio arrependida por não ter feito Letras Vernáculas.

     Hoje, tenho a plena convicção de que eu teria dado uma excelente psicóloga (e algumas pessoas me garantem isso), uma boa advogada, comunicadora ou até arquiteta. Para mim, temos infinitos talentos e raras oportunidades de desenvolvê-los. A escola deveria ser esse laboratório permanente, contudo, ao contrário, restringe as opções e enquadra seus alunos do mesmo modo que os testes vocacionais o faziam. Uma única vida talvez não seja o bastante para desenvolvermos todos os nossos talentos, em especial porque alguns deles demandam mais tempo de descoberta e prática e outros nos parecem mais evidentes e fáceis. Portanto, não engulo as clássica frases de quem diz não ter jeito para a Matemática ou não gostar de Português porque odeia ler. Ao contrário, conto-lhe a minha história para lhe provar o contrário e encorajar a seguir inusitadas trilhas. Também não considero que seja exclusivo  da Matemática o poder de desenvolver o raciocínio lógico. Todas as disciplinas podem fazê-lo. Não é uma questão do que é ensinado, mas de como é o processo de ensino-aprendizagem. 

     As letras e os números  me deram régua e compasso. Por isso,  tenho muita  alegria em possuir  interesse e  em  transitar   por  diversas  áreas. Atualmente,  depois  de  aposentada,  comecei   a  fazer  o   Bacharelado Interdisciplinar  em Arte. Revelo a  vocês, que bem lá no fundo, minha frustração é não  ter  sido uma  grande cantora,  tipo Marisa Monte*. Podem crer,  cantar  bem,  ainda não canto, mas insisto  em que poderei realizar essa façanha um dia. Se não nessa vida, nas próximas. Na verdade, a resposta mais natural na minha infância deveria ter sido: “Quero ser cantora”. Na maturidade é: “Ser maior e mais feliz”!
*(Ousadia eu tenho, cantei essa música em um teste para entrar no Coral do Estado da Bahia e não é que passei? Tenho chance ainda, podem apostar!).

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SÓ PARA QUEM GOSTA DE LER


Há cerca de 2 anos, passei a ter uma vermelhidão na esclera. Fiz uma longa peregrinação por oftalmologistas e nenhum deles conseguiu prescrever um colírio, que solucionasse o problema persistente por meses. Entre os medicamentos, cheguei a usar colírios com corticóide mais de uma vez. Como havia um diagnóstico paralelo de ressecamento do olho, resolvi fazer uma faxina geral no meu quarto, limpando cuidadosamente os livros nas duas prateleiras próximas ao teto, nas estantes da cabeceira da minha cama e doei os livros, que não me interessavam tanto. Assim, resolvi o problema. Esse episódio exemplifica, o quanto temos hábito de ler e o nosso apego aos livros.

Ao contrário de João Ubaldo, não me recordo com tantos detalhes do meu contato inicial com a leitura de palavras, nem tive tanto estímulo a entrar nesse fascinante mundo. Sinto por isso, porque os exemplos dos pais são importantíssimos para os filhos, como no relato   da formação do escritor. Se eu tivesse sido tão encorajada, teria um repertório mais rico e maior habilidade e competência tanto para a leitura quanto para a escrita.  Sei apenas, que frequentei um seminário de música, antes de ser alfabetizada, portanto tive contato com a linguagem musical, antes de aprender a linguagem escrita, tão exigida nas escolas. Embora, nos anos 60, não houvesse tantos livros voltados para as crianças, certamente, com o meu olhar infantil, eu lia as imagens dos poucos textos a que tinha acesso, os signos, os ambientes e os diálogos e gestos das pessoas, com as quais tinha contato.


Meus pais tiveram pouca escolaridade. Meu pai não lia, mas recordo-me de minha mãe lendo romances de Morris West. Mais tarde, ela comprou para nós, uma enciclopédia Delta Júnior e as coleções completas de Machado de Assis e de José de Alencar. Na escola, éramos obrigados a ler alguns livros (Vidas Secas, O Senhor do Engelho, As Pupilas do Senhor Reitor, O Menino do Dedo Verde, Cazuza, Poliana etc), para a produção de trabalhos escritos. Lembro-me que, ao contrário da maioria dos colegas, ao longo da leitura, eu costumava sentir prazer nela e chegava a fazer trabalhos para outros alunos, sempre com o cuidado de caprichar mais no meu!

Porque a irmã, um ano mais nova do que eu, não se interessava tanto pelas atividades escolares, minha mãe me obrigava a dar meus trabalhos, para que ela os copiasse no ano seguinte. Eu detestava fazer isso, não porque tinha ideia de direitos autorais, mas porque os considerava uma expressão singular só minha. Nas festividades da minha adolescência, como as mensagens dos cartões impressos não traduziam os meus sentimentos, passei a desenhar e escrever os meus, o que me dava certo orgulho pela originalidade deles. Mantenho essa prática até hoje e as mensagens são sempre recebidas com muita alegria.

Depois da morte do meu pai, já com 17 anos, vim morar em Salvador e passei a ter contato com um tio, com o qual estabeleci uma relação de muito amor. Ele era aficionado por livros, possuía uma vasta biblioteca, costumava me indicar alguns autores. Só agora, me dou conta de ter sido ele, quem mais me incentivou a ler. Em sua casa, conheci alguns autores citados por João Ubaldo, como Swift, Alexandre Dumas e Monteiro Lobato. Mais tarde, li George O’well, Remingway, Charles Dickens, o argentino Manuel Puig, Moacir Scliar, os contos e o poema O Corvo de Edgar Allan Poe em várias traduções, Ítalo Calvino, Fernando Moraes,  Henfil, Eduardo Galeano, Rainer Maria Rilke, Ágatha Christie, Nélida Piñon, entre outros. Porque as mitologias grega e latina costumam me interessar, li dicionários sobre esses mitos e algumas adaptações de Medéia, O Minotauro, Andrômeda etc

Tenho algumas decepções em relação aos livros. Uma delas se dá, porque eu abandono aqueles, cujos textos não conseguem captar logo a minha atenção e isso me faz doa-los. Mas, quando outras pessoas insistem, que o livro é muito bom, fico arrependida de tê-lo dado. Assim, como havia lido a peça Gota d’agua e gostei muito de Budapeste de Chico Buarque, comprei um exemplar de O Leite Derramado. No entanto, na primeira parte dele, a história da solidão do velho enfermo despertou em mim enorme tristeza e eu o dei. Como acontece, depois de algum tempo, fique querendo dar uma nova oportunidade a ele e não o possuía mais. Isso também poderá acontecer com Lolita, do qual eu tinha dois exemplares e já me desfiz de um deles. O caso mais grave foi, quando quis ter mais conhecimentos sobre Canudos e comecei por ler Os Sertões. Como o início do livro continha longas informações sobre relevo e sobre uma época histórica muito anterior ao acontecimento, eu interrompi sua leitura, embora saiba da necessidade de situar os fatos e o contexto, que levaram a esse movimento. Resolvi então ler A Guerra do Fim do Mundo. O último, mais romanceado, eu li até o final, embora com muito esforço, porque pouco foi narrado sobre a grandiosidade desse episódio da nossa história, seus ideais e conquistas. Ao contrário, Antônio Conselheiro é descrito como um lunático e todos os que o seguiram como fanáticos miseráveis. Alguns livros como Grande Sertão: Veredas eu precisei fazer mais de uma tentativa de ler. No entanto, ao final, fiquei maravilhada pela sua narrativa, pelos neologismos criados e até extraí trechos, para mostrar aos amigos. Como de hábito, depois de terminar a leitura do romance de Guimarães, fui ler sua apresentação e me encantei com um maravilhoso texto manuscrito de Drummond, em que ele exaltava o autor, usando uma linguagem similar à do livro. Essa leitura despertou meu interesse em ler os contos de João G. Rosa, já que o conto é uma tipologia textual, que aprecio bastante.

Possuo algumas idiossincrasias associadas ao ato de ler. Não sei ir ao banheiro sem algum livro, portanto nossa casa tem revistas ou livros em todos eles. Em algumas vezes, em que estou lendo e a narrativa chegava a um ponto crucial, eu fecho o livro, para poder me deliciar com ele no dia seguinte. Muitas vezes, livros emprestados não são devolvidos, porque sequer ponho o meu nome neles. Acho um desleixo o ato de escrever com caneta nas páginas dos livros. Por essa razão, eu circundo com lápis o número daquelas, de que mais gosto ou, no máximo, faço observações como “muito bom”, “excelente” e aponto com uma seta ou com “?”, as palavras não estão escritas segundo o que eu conheço da norma padrão da língua portuguesa. Quanto aos textos teóricos, cujo objetivo é estudar, prefiro sublinhar com lápis e régua as partes, que resumem as principais ideias deles.

Nos últimos anos, depois de um worshop com Elisa Lucinda, resgatei o meu antigo deleite por poesias. Formamos um grupo, que recita poemas e eu passei a organizar uma pequena biblioteca de poetas (Affonso Romano, Shakespeare, Adélia Prado, Myriam Fraga, Cora Coralina, Kátia Borges, Florbela Espanca, Lorca, Mônica Menezes, Manoel Bandeira, Emile Dickinson, Drummond, Paulo Leminski, Pablo Neruda, Ângela Vilma, Cecília Meireles, Raul de Leoni, Martha Medeiros, Vinícius de Moraes, Antônio Cícero, Paulo Andrade, Arnaldo Antunes, Bruno Tolentino, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Ferreira Gullar, José Inácio Vieira de Mello, Ronaldo Jacobina, Viviane Mosé, Karina Rabinovitz, Antônio Brasileiro, Ruth Rocha, Roseana Murray, Lewis Carroll, Thiago de Mello, José Paulo Paes, Vladimir Queiroz, Bruna Lombardi etc).

Meus romancistas preferidos são: Gabriel Garcia Marques, Mário Vargas Llosa e o português José Saramago. Contos de Eva Luna, de Isabel Allende, foi um dos livros, de que mais gostei. Há nele um conto sobre uma mulher, que vendia palavras nas feiras, que eu me recusei a contar fábulas e insisti em apresenta-lo no final de um curso de contador de história. O último livro, que me fascinou, foi Meus Desacontecimentos – a história da minha vida com as palavra, da jornalista Eliane Brum. Eu já gostava de ler seus artigos, porém, após ter relido esse pequeno e fascinante livro, cheguei à conclusão, de que gostaria, imensamente, de tê-lo escrito.




Antes de dormir, tenho o hábito de compartilhar com meu marido, os textos teóricos, cujos temas penso lhe interessar, trechos de romance ou poesias. Esse hábito começou no início do nosso relacionamento de quase 30 anos, mas, desde então, eu preciso monitorá-lo, para que ele não comece a roncar logo no início da leitura em voz alta. Assim, cada parte dos textos é intercala pela pergunta: “Está acordado?”. Suponho, que ele considere essas leituras, como uma espécie de canção de ninar para adultos.  E é nesse embalo, que as prateleiras sobre nossa cama voltam a se avolumar.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

EM DISPARADA

                                                                                                                                                                                                                                                                       EM DISPARADA
           Na infância, não tive calma, pois o tempo era uma noção desconhecida. Na juventude, queria engolir o mundo, como se o tempo futuro não existisse e o passado me envergonhasse. Na maturidade, vivi a ansiedade da preocupação com afazeres profissionais e familiares. Agora, já com mais de 55 anos, vejo o quanto essa falta me faz e como o tempo escorreu entre os meus dedos por não tê-los vivido inteira e sossegadamente. E é justamente nos anos que me esperam, que precisarei desenvolver essa difícil tarefa, porque a areia da ampulheta escorre e não há como impedir que o último grão caia afinal. Ainda será possível estabelecer outro tipo de vínculo?
                                                      
         Oração ao tempo com Djavan                                                        

                                         Mestre
                                                                            Ricardo Reis

Mestre, são plácidas 
Todas as horas 
Que nós perdemos, 
Se no perdê-las, 
Qual numa jarra, 
Nós pomos flores. 

Não há tristezas
Nem alegrias 

Na nossa vida. 
Assim saibamos, 
Sábios incautos, 
Não a viver, 

Mas decorrê-la,
Tranqüilos, plácidos, 

Lendo as crianças 
Por nossas mestras, 
E os olhos cheios 
De Natureza ... 

À beira-rio,
À beira-estrada, 

Conforme calha, 
Sempre no mesmo 
Leve descanso 
De estar vivendo. 

O tempo passa,
Não nos diz nada. 

Envelhecemos. 
Saibamos, quase 
Maliciosos, 
Sentir-nos ir. 

Não vale a pena
Fazer um gesto. 

Não se resiste 
Ao deus atroz 
Que os próprios filhos 
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos 

Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranqüilos, tendo

Nem o remorso
De ter vivido.