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segunda-feira, 4 de abril de 2016

SÓ PARA QUEM GOSTA DE LER


Há cerca de 2 anos, passei a ter uma vermelhidão na esclera. Fiz uma longa peregrinação por oftalmologistas e nenhum deles conseguiu prescrever um colírio, que solucionasse o problema persistente por meses. Entre os medicamentos, cheguei a usar colírios com corticóide mais de uma vez. Como havia um diagnóstico paralelo de ressecamento do olho, resolvi fazer uma faxina geral no meu quarto, limpando cuidadosamente os livros nas duas prateleiras próximas ao teto, nas estantes da cabeceira da minha cama e doei os livros, que não me interessavam tanto. Assim, resolvi o problema. Esse episódio exemplifica, o quanto temos hábito de ler e o nosso apego aos livros.

Ao contrário de João Ubaldo, não me recordo com tantos detalhes do meu contato inicial com a leitura de palavras, nem tive tanto estímulo a entrar nesse fascinante mundo. Sinto por isso, porque os exemplos dos pais são importantíssimos para os filhos, como no relato   da formação do escritor. Se eu tivesse sido tão encorajada, teria um repertório mais rico e maior habilidade e competência tanto para a leitura quanto para a escrita.  Sei apenas, que frequentei um seminário de música, antes de ser alfabetizada, portanto tive contato com a linguagem musical, antes de aprender a linguagem escrita, tão exigida nas escolas. Embora, nos anos 60, não houvesse tantos livros voltados para as crianças, certamente, com o meu olhar infantil, eu lia as imagens dos poucos textos a que tinha acesso, os signos, os ambientes e os diálogos e gestos das pessoas, com as quais tinha contato.


Meus pais tiveram pouca escolaridade. Meu pai não lia, mas recordo-me de minha mãe lendo romances de Morris West. Mais tarde, ela comprou para nós, uma enciclopédia Delta Júnior e as coleções completas de Machado de Assis e de José de Alencar. Na escola, éramos obrigados a ler alguns livros (Vidas Secas, O Senhor do Engelho, As Pupilas do Senhor Reitor, O Menino do Dedo Verde, Cazuza, Poliana etc), para a produção de trabalhos escritos. Lembro-me que, ao contrário da maioria dos colegas, ao longo da leitura, eu costumava sentir prazer nela e chegava a fazer trabalhos para outros alunos, sempre com o cuidado de caprichar mais no meu!

Porque a irmã, um ano mais nova do que eu, não se interessava tanto pelas atividades escolares, minha mãe me obrigava a dar meus trabalhos, para que ela os copiasse no ano seguinte. Eu detestava fazer isso, não porque tinha ideia de direitos autorais, mas porque os considerava uma expressão singular só minha. Nas festividades da minha adolescência, como as mensagens dos cartões impressos não traduziam os meus sentimentos, passei a desenhar e escrever os meus, o que me dava certo orgulho pela originalidade deles. Mantenho essa prática até hoje e as mensagens são sempre recebidas com muita alegria.

Depois da morte do meu pai, já com 17 anos, vim morar em Salvador e passei a ter contato com um tio, com o qual estabeleci uma relação de muito amor. Ele era aficionado por livros, possuía uma vasta biblioteca, costumava me indicar alguns autores. Só agora, me dou conta de ter sido ele, quem mais me incentivou a ler. Em sua casa, conheci alguns autores citados por João Ubaldo, como Swift, Alexandre Dumas e Monteiro Lobato. Mais tarde, li George O’well, Remingway, Charles Dickens, o argentino Manuel Puig, Moacir Scliar, os contos e o poema O Corvo de Edgar Allan Poe em várias traduções, Ítalo Calvino, Fernando Moraes,  Henfil, Eduardo Galeano, Rainer Maria Rilke, Ágatha Christie, Nélida Piñon, entre outros. Porque as mitologias grega e latina costumam me interessar, li dicionários sobre esses mitos e algumas adaptações de Medéia, O Minotauro, Andrômeda etc

Tenho algumas decepções em relação aos livros. Uma delas se dá, porque eu abandono aqueles, cujos textos não conseguem captar logo a minha atenção e isso me faz doa-los. Mas, quando outras pessoas insistem, que o livro é muito bom, fico arrependida de tê-lo dado. Assim, como havia lido a peça Gota d’agua e gostei muito de Budapeste de Chico Buarque, comprei um exemplar de O Leite Derramado. No entanto, na primeira parte dele, a história da solidão do velho enfermo despertou em mim enorme tristeza e eu o dei. Como acontece, depois de algum tempo, fique querendo dar uma nova oportunidade a ele e não o possuía mais. Isso também poderá acontecer com Lolita, do qual eu tinha dois exemplares e já me desfiz de um deles. O caso mais grave foi, quando quis ter mais conhecimentos sobre Canudos e comecei por ler Os Sertões. Como o início do livro continha longas informações sobre relevo e sobre uma época histórica muito anterior ao acontecimento, eu interrompi sua leitura, embora saiba da necessidade de situar os fatos e o contexto, que levaram a esse movimento. Resolvi então ler A Guerra do Fim do Mundo. O último, mais romanceado, eu li até o final, embora com muito esforço, porque pouco foi narrado sobre a grandiosidade desse episódio da nossa história, seus ideais e conquistas. Ao contrário, Antônio Conselheiro é descrito como um lunático e todos os que o seguiram como fanáticos miseráveis. Alguns livros como Grande Sertão: Veredas eu precisei fazer mais de uma tentativa de ler. No entanto, ao final, fiquei maravilhada pela sua narrativa, pelos neologismos criados e até extraí trechos, para mostrar aos amigos. Como de hábito, depois de terminar a leitura do romance de Guimarães, fui ler sua apresentação e me encantei com um maravilhoso texto manuscrito de Drummond, em que ele exaltava o autor, usando uma linguagem similar à do livro. Essa leitura despertou meu interesse em ler os contos de João G. Rosa, já que o conto é uma tipologia textual, que aprecio bastante.

Possuo algumas idiossincrasias associadas ao ato de ler. Não sei ir ao banheiro sem algum livro, portanto nossa casa tem revistas ou livros em todos eles. Em algumas vezes, em que estou lendo e a narrativa chegava a um ponto crucial, eu fecho o livro, para poder me deliciar com ele no dia seguinte. Muitas vezes, livros emprestados não são devolvidos, porque sequer ponho o meu nome neles. Acho um desleixo o ato de escrever com caneta nas páginas dos livros. Por essa razão, eu circundo com lápis o número daquelas, de que mais gosto ou, no máximo, faço observações como “muito bom”, “excelente” e aponto com uma seta ou com “?”, as palavras não estão escritas segundo o que eu conheço da norma padrão da língua portuguesa. Quanto aos textos teóricos, cujo objetivo é estudar, prefiro sublinhar com lápis e régua as partes, que resumem as principais ideias deles.

Nos últimos anos, depois de um worshop com Elisa Lucinda, resgatei o meu antigo deleite por poesias. Formamos um grupo, que recita poemas e eu passei a organizar uma pequena biblioteca de poetas (Affonso Romano, Shakespeare, Adélia Prado, Myriam Fraga, Cora Coralina, Kátia Borges, Florbela Espanca, Lorca, Mônica Menezes, Manoel Bandeira, Emile Dickinson, Drummond, Paulo Leminski, Pablo Neruda, Ângela Vilma, Cecília Meireles, Raul de Leoni, Martha Medeiros, Vinícius de Moraes, Antônio Cícero, Paulo Andrade, Arnaldo Antunes, Bruno Tolentino, Mário Quintana, Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Ferreira Gullar, José Inácio Vieira de Mello, Ronaldo Jacobina, Viviane Mosé, Karina Rabinovitz, Antônio Brasileiro, Ruth Rocha, Roseana Murray, Lewis Carroll, Thiago de Mello, José Paulo Paes, Vladimir Queiroz, Bruna Lombardi etc).

Meus romancistas preferidos são: Gabriel Garcia Marques, Mário Vargas Llosa e o português José Saramago. Contos de Eva Luna, de Isabel Allende, foi um dos livros, de que mais gostei. Há nele um conto sobre uma mulher, que vendia palavras nas feiras, que eu me recusei a contar fábulas e insisti em apresenta-lo no final de um curso de contador de história. O último livro, que me fascinou, foi Meus Desacontecimentos – a história da minha vida com as palavra, da jornalista Eliane Brum. Eu já gostava de ler seus artigos, porém, após ter relido esse pequeno e fascinante livro, cheguei à conclusão, de que gostaria, imensamente, de tê-lo escrito.




Antes de dormir, tenho o hábito de compartilhar com meu marido, os textos teóricos, cujos temas penso lhe interessar, trechos de romance ou poesias. Esse hábito começou no início do nosso relacionamento de quase 30 anos, mas, desde então, eu preciso monitorá-lo, para que ele não comece a roncar logo no início da leitura em voz alta. Assim, cada parte dos textos é intercala pela pergunta: “Está acordado?”. Suponho, que ele considere essas leituras, como uma espécie de canção de ninar para adultos.  E é nesse embalo, que as prateleiras sobre nossa cama voltam a se avolumar.

2 comentários:

  1. Esse detalhe de aproveitar seus trabalhos para mim é novidade mas não me furto a culpa dessa verdade já que minha área de prazer nunca se situou na leitura como você e sim no esporte, da qual me orgulho muito de ser sempre a nr 1 da família. Mas como não sou a versão também à leitura já terminei essa daqui e cumpri o seu desafio de ser uma pessoa que leu seu longo e maravilho texto. Como sempre esse blog é uma referencia do seu estado de espírito e lê-lo, logo agora cedo, tenho certeza que vai fazer meu dia correr bem bem. <3 <3<3

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  2. A versão não, aversa....
    Maravilho não, maravilhoso

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