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domingo, 25 de janeiro de 2015

VIDA, LOUCA VIDA

       Muitas vezes, a mudança da linguagem surge como reflexo de alteração na realidade, há outras, no entanto, em que ela se dá apenas no plano semântico. Meu pai foi diagnosticado como "psicótico maníaco-depressivo";  eu, como "portadora de transtorno bipolar". A despeito da tendência eufemística, de como os médicos me categorizam, trata-se da doença mental que revela uma vivência da dualidade entre vida e morte em uma potência elevada e cujo tratamento avançou muito pouco. Somos obrigados a conviver com um mal que desorienta nossos hábitos e planos como em todas as graves enfermidades. Porém, mais do que tudo, nessa doença malígna, nos sentimos desestruturados em ambos os polos (mania/euforia e tristeza profunda/depressão). Percebemos um estranhamento total por quem somos.  É nesse sentido que venho constantemente buscando me desvelar através do olhar do outro, da leitura que fazem dos meus registros nas palavras, atitudes e expressões pessoais. 


       Quem sou eu afinal? A mulher sorridente, agressiva, brincalhona, atrevida, sagaz e até inadequada? Ou aquela aparentemente tímida, medrosa, confusa, aérea , distraída e deslocada? Gosto de estar entre pessoas e falar em público ou prefiro o recolhimento? O fato de ter feito formação tanto em Letras como em Matemática, ao contrário de demonstrar uma capacidade de integração de diferentes áreas, não seria uma prova de desconhecimento de seus talentos e propósitos? Sendo assim, a insuficiente produção de hormônios cerebrais, além de produzir diferentes expressões da identidade, traria reflexos importantes no percurso profissional. Como responder tais perguntas, se muda tudo em mim? Conforme a fase, sou falante, glutona, não quero perder nenhum programa cultural, político ou social, faço amigos com facilidade e tomo iniciativa em manifestações públicas. Em outras, ao contrário, me recolho, não quero atender sequer as pessoas mais queridas e tenho desinteresse pelas notícias e qualquer dos acontecimentos dos mundos. Como manter qualquer projeto com um mínimo de coerência, se a vida não fica esperando os meus prazos internos e ignora a minha falta de vitalidade e inércia durante a depressão? E, ao contrário, como faze-lo, se o ritmo das coisas não é acelerado no meu rítmo, quando estou com as baterias sobrecarregadas e tenho ânsia de realizar, conviver e ser? É possível não me esgotar psíquica, física e emocionalmente durante as fases de euforia, se busco desesperadamente compensar a vida já perdida na fase depressiva, me envolvendo em atividades, cursos e projetos cujos níveis de prioridades não consigo determinar? Deprimida, a penumbra do meu quarto passa a ser todo o espaço existente e o tempo, além eternamente caótico, inclui um passado equivocado,  um futuro improvável e um presente irremediavelmente insuportável.

       Além disso. sabe-se muito pouco sobre a natureza da mente humana. Uma vasta bibliografia afirma que o transtorno bipolar não tem cura e deve ser tratado com medicamentos e psicoterapia. Bem sei que manter acompanhamentos psicológicos e psiquiátricos são tarefas que exigem coragem, disposição e dinheiro. Faço psicoterapia desde a juventude. Quanto aos medicamentos eu os tomo há mais de 13 anos, apesar dos efeitos colaterais (15kg de sobrepeso, uma gastrite, diminuição da libido, queda de cabelos etc). Essas abordagens não me têm garantido sequer seis meses contínuos de estabilidade emocional e disposição para a vida. Assim, concluo que, além de apoio psicológico e psiquiátrico, são necessárias ao menos duas vias de tratamento: a do apoio espiritual constante e a físico/energética (associação de alimentação balanceada, exercícios aeróbicos, massoterapia, yoga, acupuntura etc). Não aceito a primeira como mais uma mercadoria nesse nosso tempo onde tudo parece estar à venda. Quanto às práticas, no entanto, além de serem dispendiosas e de difícil acesso na velocidade do mundo atual, exigem muita clareza, autodeterminação e continuidade no seu uso. Nenhuma educação alimentar ou exercício físico e energético dá resultados se não são praticados regular e continuamente e apoio espiritual não surge por graça de uma imposição externa. Incorporar essas práticas no nossos cotidiano requer crenças e hábitos a serem criados, repetidos e longamente cultivados.

       Não faço essas reflexões tentando dirimir a minha responsabilidade sobre o que se passa comigo, mas numa tentativa de compreender o porquê de, embora as circunstâncias principais que me rodeiam continuarem iguais, eu as perceba de modos tão antagônicos e movidas por um mecanismo cuja chave de comando eu não sei qual é, onde está, nem quando é acionada.  Em um dia, eu me sinto feliz em fazer parte de tudo: da família que amo, dos amigos que conquistei, da grama sob meus pés, do brilho solar sobre o mar da Bahia etc. Poucos dias depois, ainda que tudo esteja igual, sinto-me não apenas só, mas com raiva de estar viva e desejando a morte como único alívio.   Com o passar dos anos e as reiteradas mudanças de ciclo, a nossa esperança e autoconfiança vão diminuindo não apenas pelo cansaço gerado, mas pela constatação de que a parte adoecida em nós é justamente aquela capaz de modificar nossos hábitos, nossas crenças, nosso modo de vida: a mente. Enfim, a menos que haja uma assistência mais positiva, ampla e integradora dos diferentes recursos existente, estaremos tomando dosagens de uma vacina que potencializa a força do micro-organismo e os danos por ele causado em nós. 



  FONTE DA IMAGEM: http://colecionandoprimaveras.blogspot.com.br/2014/05/transtorno-bipolar-o-que-e-isso.html