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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A LOUCURA ENTRE NÓS TRÊS


 
   
Faz uma semana que assisti ao filme baiano A LOUCURA ENTRE NÓS, da diretora Fernanda Fontes Vareille,  baseado no livro do psicólogo Marcelo Veras. O documentário trata da trajetória de duas mulheres com problemas psiquiátricos que frequentaram o Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, aqui em Salvador. Eu não estava só. Fui acompanhada de duas amigas e colega de terapia, ambas com diagnósticos semelhantes ao meu: uma delas também de transtorno bipolar e outra apenas de depressão. Essa última, há alguns meses, tentara suicídio se atirando, de madrugada, na frente de um carro em movimento. Foi dela a sugestão de assistirmos a esse filme, com a justificativa de que gostava de se informar sobre o assunto.



       Foi a primeira vez em que vi imagens do portão de entrada do Juliano Moreira e do seu interior. Antes do filme, tomamos um café enquanto conversávamos sobre os problemas de outras colegas nossas de terapia e sobre internações em clínicas e hospitais psiquiátricos. Em como é terrível estar preso, usando doses excessivas de medicamentos, isolados e sem domínio sobre a própria vida. Contei que eu já havia pedido várias vezes ao meu marido, para jurar jamais permitir que me internassem, por maior a loucura por mim cometida. Outra de nós também falou o mesmo, mas a terceira disse que já havia sido internada e o quanto isso foi sofrido.

        Hoje, assisti a uma propaganda de uma rede de Clínicas Psiquiátricas, nela os médicos e administradores  destacavam o aspecto inovador da casa, porque suas instalações tinham cores claras e acomodações aconchegantes. É incrível que em nenhum momento eles questionavam o internamento em si e não davam nenhuma pista da forma como seria o tratamento dos doentes. Provavelmente, esses pontos eram secundários, tamanhas as vezes em que repetiam e mostravam as diversas salas do local. Notei que não havia grades, mas portas sem abertura. E pior, alguns supostos familiares também enfatizavam essas maravilhas da clínica, como se as instalações físicas fossem o mais importante no tratamento.

       A nossa tentativa era nos divertir um pouco depois do grupo de mulheres, mas duas de nós saímos da sala de projeções tocadas e tristes. Durante o filme, minhas amigas conversavam e muitas vezes relatavam coisas semelhantes ao que se passava na tela com as personagens. Eram colocações do tipo: "A contenção não é mais física, é química.", "Eu já tomei esse remédio "'haldol", ele deixa a gente assim, dopada, Observe como a pessoa fica com o olhar fixo.",  "Olhe a indiferença do funcionário.", "Eu já fiz bobagens desse tipo.","É horrível quando isso acontece.", "Alguns psicólogos tratam a gente, como se fôssemos crianças.", "Essa paciente tem o apoio da família, mas a outra sempre aparece sozinha. Isso faz uma enorme diferença."  "É por esse motivo que aquela nossa colega tem pavor de voltar a ser internada e deprime todas as vezes em que precisa ir lá apanhar os seus medicamentos." Fiquei a me perguntar em que medida as outras pessoas no cinema notavam esses aspectos tão evidentes para nós...
                                                        Medicamentos

       Até um certo momento, me senti mal com os comentários delas. Afinal estavam falando em um tom de voz que talvez pudesse ser ouvido pelas pessoas sentadas ao nosso redor. Mas, quando me perguntei se a minha posição sempre fora de esconder a doença ou de tentar conscientizar os demais a não terem preconceitos em relação a pessoas como nós, comecei a falar tamtém. Entre outras coisas, relatei:  "Já tomei "fluxetina' por muito tempo." "Com "carbolítio" eu engordei 20 quilos." " Gasto R$400,00 por mês em medicamentos." etc. Ao final, enquanto descíamos as escadas da sala de projeções, pensei em tentar verificar, qual era a expressão das outras pessoas em relação a nós três. Desisti. A melhor visão que poderiam ter era de estarmos, como elas, saindo de um filme e refletindo sobre o que o tema propunha. Nada mais do que isso era necessário mostrar.

                                                               Trailer do filme
                                        
 "A vida não tem equilíbrio; só equilibristas."  
                                                          Dr. Marcus André Vieira