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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A POÉTICA DA TERRA



Nesse sábado, encontrei-me com Vladimir Queiroz em uma das mesas-redondas da Pré-Flica na Caixa Cultural. Ele está de viagem para a Romênia para lançar novo livro: MUXARABIS. Eu lhe expliquei que tinha andado meio afastada dos eventos literários e não havia visto a chamada para o seu lançamento. O livro tem encadernação e ilustrações impecáveis e uma seleção de poemas maravilhosos.
 

ETÉREO

As estrelas dormiram
esta noite me olhando
e se me olham não revido.
Durmo
e cismo sonhando
com o brilho etéreo;
que por um instante sumido
continua brilhando
ao sabor da travessia.
Mantenho-o comigo,
mesmo que se tenha ido.

       Não sei quantos foram os livros de poesia editados por Vladimir, só que gosto muito do que ele escreve. Eu já tinha Luminescência, Nuances e Terracota  O último tem ilustrações belíssimas de nosso conterrâneo, o artista Juraci Dórea. Não me lembro de Vladimir da terrinha, lembro-me do poeta de feiras de livros e afins. Um dia, após nos cumprimentarmos no supermercado, tive a coragem de lhe perguntar de onde o conhecia. Ele me falou ser também de Feira de Santana, disse que conhecia Miltinho, meu irmão e que escrevia e costumávamos nos encontrar em eventos de Literatura.  Vladimir é meio tímido e não tem nada da arrogância que parece ser a marca dos escritores. Além dele, Mônica Menezes, José Inácio Vieira de Melo e Kátia Borges também estão no rol dos poetas atuais que não pedem para serem lançados na fogueira das vaidades. Estou enganada ou os artistas plásticos são menos vaidosos do que os da palavra?


BECOS

Por entre ruas escuras
na penumbra de ecos sujos
ouvem-se passos lentos,
cadenciados, soturnos, sinistros.

Passos que procuram encontrar uma voz;
retira o capuz, desnudar o algoz.

Ver surgir na confluência oval
e obscura de nó: o agave,
para desfibrilar a retórica,
ser o istmo que conecta dois mundos:
de um lado o santo do outro o medonho.

Ver o despertar da aurora
ao bater de asas alvissareiro.

Evitara o aperto sobre a glote
                             derradeiro.

       Edgar Allan Poe escreveu  "Filosofia da Composição", texto em que disseca o ofício de escrever. Como a maioria das atividades,  essa é minunciosamente planejada e arduamente construída. Depende de talento e inspiração, mas não prescindo de disciplina e esforço. No entanto, até hoje, época em que a possibilidade de escrever e publicar está superacessível,  quase todos os escritores publicados se porta como se fossem os escolhidos dos Deuses. O único momento de encontro com o leitor - aquele  que dá significado ao que ele faz - é o momento em que está autografando o seu livro recém-vendido.

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