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domingo, 2 de fevereiro de 2014

UM PORTUGUÊS, UMA BAIANA E MUITOS FILHOS ADOTIVOS

     Eu os conheci ainda pequena. Eram uma espécie de parentes da família que apareciam na nossa cidade de tempos em tempos. Naquela época, jamais pensei que se tornariam tão importantes na minha vida...
Ela sempre dizia que ele havia me adotado como filha e recordava a cena dele fazendo contas no escritório e eu ajoelhada ao seu lado. Eram os momentos em que ele verificava os lucros obtidos nos investimentos que fizera com a minha herança e me dizia: você é rica, pode gastar mais.


     Para mim, ele foi uma espécie de pai ideal, aquele que não faz exigências, já te vê como adulta e do qual não precisa esconder o que é. Como eu, ele não tinha papas na língua e isso fez com que nossa relação fosse muito verdadeira. Um dia ele afirmou que eu era virgem e se dispôs a colocar a sua mão no fogo por isso. Eu lhe respondi, dando uma gargalhada: ´se eu fosse você, não o faria, corre grande risco de se queimar...` Ele deu uma risadinha e encerramos a conversa. Em outra ocasião ele queria que eu lhe prometesse telefonar todos os dias só para lhe assegurar que eu estava bem. Afirmei que não o faria, afinal não havia telefones em todos os lugares e eu poderia esquecer ou não achar um orelhão. Concluí lhe tranquilizando com o ditado: `notícia ruim não anda, voa`. Ela, por seu turno, vivia me perguntando seu eu queria que ela fosse minha mãe. Eu lhe garantia que não seria uma boa ideia pois nossa relação seria diferente. 

     O gosto pela música era mais uma afinidade que havia entre nós. Ele tinha um som chamado três em um no qual escutávamos Frank Sinatra e Noel Rosa. De meu lado, eu sempre lhe mostrava as novidades da música brasileira. Um dia o fiz ouvir com atenção a música A NÍVEL DE, de João Bosco, que trata de dois casais que fizeram todas as trocas possíveis:  

(...)Estruturou-se um troca-troca
e os quatro: hum-hum... oqué... tá bom... é...
Só que Odilon, não pegando bem a coisa,
agarrou o Vanderley e a Yolanda ó na Adelina.
Vanderley e Odilon
bem mais unidos
empataram capital
e estão montando
restaurante natural
cuja proposta
é cada um come o que gosta(...)



     Ele deu risada e a ouviu repetias vezes, balançando negativamente a cabeça. Se dizia escandalizado com essas coisas, mas passava todas as noites de carnaval admirando as mulheres peladas dos desfiles do Rio e mantinha uma coleção escondida da revista Playboy.  Ela fazia questão de conservar o seu corpo bem feito com cintura de pilão, ancas largas e pernas grossas e rígidas fazendo toda manhã uma sequência de exercícios físicos que tentou me ensinar, sem sucesso. Eu sempre perguntava a ela se eles ainda faziam sexo e ela respondia sorrindo. Um dia me segredou: quando você tiver um marido e quiser lhe pedir uma coisa muito importante, deixe para falar sobre o assunto na cama, depois de vocês namorarem. 


     Como todo bom português. ele era bem machista em sua relação com a esposa e eu sempre me metia nas discussões lhe mostrando o quanto estava sendo autoritário. Eles tinham um afilhado muito querido que morava longe.  Ele estava prestes a vir passar o verão na Bahia e eles não paravam de repetir  como ele era bonito, inteligente, carinhoso e divertido. Na noite em que o rapaz chegou, quando batemos os olhos um no outro, deu paixonite aguda. Quando fomos dormir, do meu quarto eu os ouvia fazendo planos: eles vão se casar e ele virá morar aqui na Bahia. No entanto, seu sobrinho era tímido e só trocamos um beijo no momento da despedida.

     Eu sentia o amor que ele tinha por mim, embora fosse incapaz de me fazer um carinho. Uma vez, depois do fim de um namoro, quando me viu chorando, ele passava a mão em minha cabeça de um modo que mais parecia um empurrão do que um afago. Aliás do que mais me lembro são de suas mãos brancas com uma aliança grossa batendo sobre a mesa depois das refeições nas quais tinha sempre arroz especial que só ela sabia fazer. 

      Ele tinha uma biblioteca extensa e eu comecei a ler livros recomendados por ele como Os 7 Minutos de Irving Wallace e a sua coleção de Alexandre Dumas. Quando ele morreu, eu comprei dela a coleção completa de Monteiro Lobato para dar a minha sobrinha Bianca. Quando Bee cresceu, eles vieram para os meus filhos e agora que eles também estão crescidos, mantenho os livros no meu quarto. Aliás, é uma das poucas coisas que tenho dele. Assim que ele se foi, ela me deu um colar bem grosso de prata que ele usava por recomendação médica. O colar desapareceu da minha casa, mas não as lembranças.

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