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terça-feira, 14 de outubro de 2014

O LUTO DO DIA DE HOJE

MORTES COTIDIANAS
                  Vera Passos*



A gente tem de morrer tantas vezes nessa vida, que precisamos ir preparando a morte, talvez, definitiva.  O nascimento é a primeira dessas mortes, quando deixamos a bolha escurinha, quente e úmida, onde estamos em total sintonia com aquele ser que nos gerou e acolhe em uma simbiose perfeita, do qual extraímos tudo de que necessitamos. O sopro inicial é um grande esforço, mas o fazemos em nome da vida que nos aguarda e das sucessivas mortes que a acompanham. É com tristeza e choro que manifestamos essa morte sempre prematura. Morremos ao sair da infância, o que tem acontecido cada vez mais cedo, devido ao apelo exaustivo da sociedade midiática e consumista,  que impõe às crianças necessidades vãs, as tornando adultos mirins para o quê não estão de modo algum preparadas. Assim é que se tornam mães sem sequer terem ensaiado as brincadeiras com suas pequenas bonecas.
Na adolescência, é toda a nossa identidade que morre e buscamos, desesperados, outra que nos caiba. Rabiscamos assinaturas possíveis e estilos de vestir e de nos portar em público que nos definam. Ora nos escondemos, ora nos mostramos escandalosa e agressivamente.
 Mais tarde, em outros rituais como ao entrar para a vida profissional e no casamento, vivemos diferentes mortes. Fenecemos quando findam os nossos relacionamentos, e constatamos, que se apagou a chama do que foi uma grande paixão. Quando somos mães, morremos ao ver sair de nós aqueles seres que mantínhamos seguros dentro dos nossos corpos e agora se lançam no mundo em suas próprias descobertas e riscos.
Embora, ao nascer tivéssemos como destino o envelhecimento e a morte, a constatação do caminhar para o fim, na imagem nossa de cada dia, é a mais difícil das mortes enfrentadas. Dela fugimos angustiados! Porém ela teima em se expor nos espelhos que são os nossos antigos, e agora também velhos, amigos. Enquanto seguimos nessa trilha misteriosa e tão imprevisível que é a vida, vemos irem-se parentes e amigos. São muitas, e tantas, essas mortes... Às vezes a vida nos prende em armadilhas traiçoeiras a ponto de querermos, voluntária e estranhamente, morrer de fato e chegarmos a atentar contra a própria existência.  Em estado de depressão, nos sabotamos e matamos vários dos nossos dias. É Tanatos que nos faz navegar pelo inconsciente, embora a vida seja cheia de possibilidades, tenhamos diversos talentos e, lá fora, brilhe um sol fulgurante sob mar azul sem fim. 
Enfim, poderia continuar discorrendo sobre uma infinidade de mortes. Mas por me sentir muito viva agora, planejo a cerimônia que registrará a minha morte. Não quero carpideiras, mas os sons da leve música de algum choro sincero dos que sentirão a minha falta. O ritual do velório é muito sombrio, embora certo luto seja necessário para que os meus filhos reflitam o que significa para cada um deles a perda de sua mãe. Para internalizarem como querem guardar essa memória. Em um gesto solidário, ecológico e de celebração à vida, já doei os meus órgãos. Que minhas cinzas sejam jogadas em campo florido, enquanto o ar conduz belos poemas e cantos sobre a arte de viver. Viver em plenitude, saboreando os bons momentos, aprendendo com os maus e partilhando cada um deles.
E que venham outras vidas e suas respectivas mortes. Se elas existirem!
          *Professora de matemática e artesã, escreve no  verapassos.blogspot.com


SUGESTÕES INDISPENSÁVEIS: 

 "DESPEDIDA", um poema de Ferreira Gullar: 

"AS CORES DE ABRIL", uma música de Vinícius e Toquinho:


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