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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TÃO DIVERSAS E, AO MESMO TEMPO, PRIMAS ENTRE SI!


NARCISO DEIXA TURVO O ESPELHO, ONDE NÃO SE MIRA

(TÃO DIVERSAS E, AO MESMO TEMPO, PLUMAS ENTRE SI!)





        Eu era a aluna mais nova de uma turma só de mulheres em um colégio de freiras. Não me destacava nos esportes, nas notas, nem nas artes, o que me fazia ficar muito quieta, observando as colegas mais velhas, que já possuíam seios e namorados. Coisas que me pareciam ainda muito distantes da minha realidade de menina bem comportada. Eram muitas colegas e duas turmas desde a 5a. série até a 8a. Não lembro de todas, confundo as qualidades... e, possivelmente, os defeitos também, minha memória apagou muitas lembranças tristes desse tempo. A austeridade e negação do prazer impostos pelas freiras católicas eram, para mim, um prolongamento do ambiente familiar claustrofóbico. Quanto às freiras, mantínhamos uma curiosidade danada sobre o que eram, de verdade, sobre o que havia em seus corações disfarçados em hábitos. A escola era das irmãs Sacramentinas, vulgo Asilo. Que sugestivo nome me parece! Um monte de garotas em plena puberdade sob a vigilância de freiras, sem contato com meninos, obrigadas a rezar, cantar o hino da França e a usar uniformes com saias plissadas, blusas brancas com de mangas curtas - nada de mangas compridas - embora estivéssemos morando na Princesa do Sertão em salas com basculhantes e muros altos e ainda portando um pequeno escudo de ferro na lapela. Não lembro quantas éramos... temos tentado, há cerca de um mês, avivar coletivamente as nossas memórias, através de publicações em grupos no facebook e no whatsapp. Nesse universo, pouco conhecemos das colegas da época e muito menos sabemos, depois de passados 40 anos. Em em quem se tornaram como fruto das diferentes opções de vida que fizeram e pelas quais tiveram que se responsabilizar em seus aspectos positivos e negativos. Entre todas, a vida seguia e segue com seus aspectos duais e complementares.

       O fato é que algumas delas passavam por nossas vidas nos despertando irritação, enquanto outras fisgavam o   nosso olhar. Da minha sala, trago vivas várias imagens e emoções envoltas em um véu turvo e sinuoso como é esse fenômeno ou abstração. Sinto agora que memória e coração também sofrem efeito das forças newtonianas e antagônicas de repulsa e atração. Enquanto algumas faziam vir à tona toda a minha raiva contida, havia outras que me despertavam grande admiração. Esses sentimentos não se deram por um mero acaso, mas possivelmente por sincronicidade que se justificam pela declaração de C. G. Jung: “Percebemos nos outros as outras mil facetas de nós mesmos.” A ideia de que observamos no outro aspectos de nós mesmos pode ser compreendida de um modo positivo ou negativo.  Na vida adulta é mais fácil aproveitar esses aspectos como oportunidades enriquecedoras de nos conhecermos mais profundamente, mas quando isso se dá na adolescência, época em que a busca por identidade é tormentosa e exaustiva, essa frase não parece fazer sentido algum. É preciso maturidade para disciplinar o olhar para que ele veja além da aparência e não se esconda apenas turvando a água em que se mira. 

      Williane era um dos meus desafetos e a mútua aversão se transformou completamente, quando fui obrigada a morar com ela. Ela parecia só se interessar por estudar, era muito seletiva ou tímida e extremamente determinada, enfim, a filha que minha mãe queria, ou dizia querer ter. Para piorar a nossa animosidade, morávamos na mesma rua e ainda aprendíamos piano com as mesmas professoras! Sentia nela uma competitividade que me dava ódio. Nós nos tornamos grandes amigas, ao descobrir que a nossa animosidade não era uma emoção natural, mas fruto de uma exaustiva comparação estabelecida entre nós. Melhor, ao me aproximar dela, descubro que sua mãe tem temperamento parecido com o meu. Outro fato a ser analisado, penso eu. Certamente nos sentimos mais livres e felizes longe de expectativas alheias e quando permitimos nos ver com os nossos próprios olhares. Por atração que gera atração ou vice-versa, nossos filhos foram colegas, se tornaram amigos e estão cursando Engenharia na UNIFACS. Assim, todos saímos ganhando com o resultado da equação, ao provarmos que a energia do universo não é limitada, mas de expansão amorosa, por mais difícil que nos pareça senti-la. 

    Chamava-se Mariângela, a garota que me despertava a maior admiração: ela já tinha um corpo de mulher, parecia segura e demonstrava um espírito de liderança nato. Jamais esqueci do dia em que a professora de Português, a freira mais temida por todas nós, nos desafiou a escrever a biografia de uma colega. Tive dificuldades em escolher alguém e terminei escrevendo sobre a garota que havia feito a minha biografia. Era por gratidão que eu o fazia. Quando Mariângela teve a coragem de perguntar à Irmã Maria do Carmo, se poderia escrever sobre si mesma, passei a ser sua fã, embora confesse que menos pela autenticidade do que pelo destemor. Não havia dúvidas, eu queria ser como ela! Embora eu não manifestasse nenhuma das qualidades observadas nela, mais tarde precisei exercitá-las exaustivamente.  Talvez esses atributos estivessem latentes em mim, buscando um momento ideal para se manifestarem, como aquela gota que faz derramar um jorro d'água de um copo já cansado de ocultar seu conteúdo.  Não nos vimos por muitos anos e hoje, depois que muitas cachoeiras rolaram  pelos cursos dos rios de nossas vidas, ao retomamos contato, depois de 4 décadas, foi justamente a minha franqueza que me permitiu lhe revelar essa oculta atração. Na juventude, esse segredo revelado poderia inflar o seu ego. Ao contrário, ela me pede que eu escreva sobre isso para mostrar às suas filhas e eu o faço com a certeza de que a atual amorosidade, é capaz de superar qualquer sentimento de disputa ou inveja. 

        Eis aí o relato de observações muito pessoais que buscam entender os estudos da psicologia analítica: a água da roda do tempo, se vivido verdadeiramente, é o elemento capaz de nos limpar de todos os males. Parabéns às mulheres, às Psiquês que, ao contrário dos Narcisos, são capazes de se mirar nos espelhos das águas do tempo e de nelas mergulhar, emergir e aguardar que
suas mandalas tranquilas e silenciosamente se formem e possam, enfim, se encarar de frente. Para que fiquem felizes ao ver suas caras internas de pássaros sem asas a voar unidas, através das nuvens e tempestades, em direção às cordilheiras de suas essências divinais.



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