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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

COM QUE PINCEL?

Com que pincel?
                    (Vera Passos)


      O pincel com que pinto os meus dias tem a propriedade, às vezes mágica e muitas vezes perversa, de derramar potes de cores que saem impregnando ambientes diversos da minha vida. O maior estrago dessa sua característica quase intrínseca é que essa avalanche não tem como resultado a paz representada pela mistura de todos os espectros da luz. 

     O pincel é mágico quando, muito além das esquinas asfálticas e esburacadas dessa cidade, onde grávidas vasculham sacos de lixo como se a escassez fosse a lei do universo, nuances das delicadas marcas de primavera acessam os meus olhos, nesse eterno país do Verão.  E extremamente perverso nas horas em que o pó do dióxido de carbono ofusca os variados matizes do arco–íris do livre-arbítrio espelhado em minhas pupilas; e o que eram avenidas de vale, ladeiras, ruelas, becos e ruas de amplos destinos se estreitam em um longo túnel escuro e abafado, no qual a terra, em luta com a gravidade, derrama-se em lágrimas pelas rachaduras de paredes úmidas. É quando esqueço que sou um fruto único gerado da ligação misteriosa entre os pais celestiais, gigantes sempre ternos e inquebrantáveis na crença de que serei um dia, uma filha capaz de transmutar a dor em um equilíbrio de prazer no vai e vem dos movimentos galopantes do agora a se transformarem em presentes, logo amassados pelo tempo. Presentes que podemos receber, tanto com os olhos de crianças afortunadas em épocas natalinas como com o temor de quem tem a consciência da possibilidade de abrir um cartão de Ano Novo, repleto de Antrax em tempos de terrorismo insano.

      Menina estabanada que ainda sou, não aprendi a limpar as paletas, evitar as misturas indesejadas ou definir com firmeza que a harmonia deve ser o tom primordial a se espalhar por forte desejo e determinação daquela que é, afinal, a grande pintora do quadro. Esta criatura que não terá tempo sequer de assiná-lo ou explicar sua inata falta de talento para a arte do existir, quando, por um sopro inesperado, tal qual o gorro, o avental, a espátula e o cavalete, ela passar a ser mais um entre tantos objetos inertes pelo chão.

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