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domingo, 22 de agosto de 2010

DE SECAS, ORQUÍDEAS E ROSAS AO VENTO

"Minha infância de menina deu-me duas coisas que parecem negativas: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área da minha vida. Área mágica onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempo de vida, unidos como os fios de um pano."
Cecília Meireles

O fio que liga a infância à idade adulta pode trazer marcas tão profundas de sofrimento que parece impossível ver além de seu vermelho sangue encarnado, do seu gosto amargo de fel. Algumas pessoas se desdobram em lágrimas para molhar as rachaduras secas do solo que cobriu o seu pequeno coração mal regado. Penso que por muito tempo escolhi ser uma delas...
MAR ADENTRO
***************Elisa Lucinda
*
É preciso chorar.

As lágrimas são a chuva da gente,
nuvens do nosso tempo íntimo precisam desabar.
*

É preciso chorar, lágrimas são os rios do ser,
as cachoeiras da gente,
mudam nosso tempo simples, atualizam o nosso mar.

*
É preciso chorar,
é preciso à natureza copiar,
é preciso aliviar e molhar a seca do coração.
*
Se não chover vira sertão,
morre homem,
morre gado,
morre plantação.

*

Mas há outras que têm o dom de, na alquimia de uma cozinha interior, transformar sabores e cores e, em passes de mágica, fazer surgir dessa mistura delicioso prato de saborosa torta, cujo invólucro é uma massa constituida de poderosa força com recheio de fé e suave cobertura de alegria, com aroma especial capaz de contagiar até as mais inapetentes criaturas. Dedico essa postagem a uma amiga, Ana, que tem sobrenome de personagem de famoso romance de Raquel de Queiroz e à minha irmã que, tendo vivido a mesma realidade sertaneja que eu, também soube preparar alimento e não água.


4o. MOTIVO DA ROSA
************Cecília Meireles
*
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

2 comentários:

  1. Entre a realidade serteneja e a realidade lusa, a sua irmã ganhou experiência de vida, mas mantem na sua identidade as fantasias das lembranças sertanejas mais fortes do que as invenções da vida moderna informatizada.
    Quando o sangue baiano fala mais alto, não tem videira que o transforme, nem tem oceano que o molde para transformá-lo e lhe dar as característica da vida que a rodeia!
    Quem tem no coração o dendê e na alma o axé, pode apostar que nunca vai renegar aquilo que sempre foi e será!
    O meu memorial não vem de nenhum escritor famoso a quem Ana pode homenagear, vem das minhas raízes "cunha passos" que me cercam e que me dão suporte para esperar por mais 365 dias e voar para meu "canto".

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  2. Amei Verinha, vc homenageia Ana e Vaninha, adorei!

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