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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O BRASIIIIIIL CONHECE O BRAAAASIL?



http://www.youtube.com/watch?v=bkENNwwCqgM   Elis Regina cantava que O BRAZIL NÃO CONHECE O BRASIL. A pergunta que proponho é: O BRASIIIIIL CONHECE O BRAAAASIL?

O Sete morava com sua gente num velho rancho meio desmantelado, entre Navegantes e São João. No seu aspecto encolhido e raquítico, nas suas tábuas carcomidas e no seu ar úmido, apagado e encardido - o casebre parecia-se muito com as quatro pessoas que habitavam nele. O chão era de terra batida. Nas paredes, remendos de lata. O mobiliário, que sempre fora pouco e pobre, achava-se agora, desfalcado, porque muita coisa havia sido arrastada pelas águas, durante a última enchente. Naquelas duas peças de paredes enegrecidas de picumã, havia um permanente bodum - cheiro de suor muitas vezes dormido, de roupas sujas e molhadas, misturadas com ranço de comida e de sebo frio. Durante a noite - principalmente no inverno - os os moradores da casa pontilhavam as horas com suas tosses secas, num concerto com os sapos do banhado vizinho. Havia em todas aquelas caras uma expressão angulosa e sombria de fome crônica, duma fome que nunca se saciava por completo; e naqueles olhos morava um certo brilho quase opaco, que era a um tempo de febre, de desconfiança e de embrutecido espanto. 
(trecho do livro introdutório do capítulo de título Chá Amargo do romance O RESTO É SILÊNCIO de Érico Veríssimo)

Ontem, fui ofendida publicamente porque ousei informar a uma mulher negra, pobre e grávida que ela tinha direito a atendimento especial na fila do SAC - Serviço de Atendimento ao Cidadão. Um sujeito de tamanho enorme, que estava na sua frente, esparramado e se apoiando na coluna metálica da fila, persistiu indiferente ao pedido de licença da jovem para que lhe desse passagem. Depois dela ter repetido o pedido, ele praguejou dizendo que ela deveria contornar a sua figura e que não o tinha feito porque se tratava de uma preguiçosa! Espantada com a cena, eu me virei para um rapaz ao meu lado e desabafei: que falta de civilidade! Ele começou me respondendo e insistindo em que a moça era preguiçosa e terminou me chamando de vagaba, cadela e histérica conforme a minha voz e reação de indignação iam aumentado. Como a gerência do SAC  apenas se manifestasse para me fazer calar... terminei exigindo uma viatura, fui destratada pelo policial e ficamos, propositalmente, como de pronto declarou o atendente da delegacia, esperando por 4 horas para registar uma queixa contra esse senhor. Devo dizer que ele contou com o relato de um dos 3 policias em sua defesa e saiu antes de nós 5 da delegacia! Éramos eu, a moça grávida, sua irmã e seu vizinho - dos 3, apenas a sua irmã está trabalhando. Aquele era o seu dia de folga e elas tinham saído para, dentre outras coisas, ajudar o vizinho a regularizar o seu CPF. A quinta pessoa foi o meu marido que havia sido acionado por mim depois da atitude dos policiais. Gastei o dinheiro que tinha na bolsa com um lanche depois de passada a hora do almoço e, no final, descobri que eles tinham ido a pé para o SAC, haviam perdido o horário do banco e não tinham dinheiro em mãos para pagar as passagens de volta para casa. Além disso, a garota chamada de preguiçosa, fez questão de ir ao shopping para comprar o presente prometido para a sua filha, cujo nome estava tatuado em letras garrafais no seu braço esquerdo ADRIELLE. Como só pude dar o valor de uma passagem e eles tinham crédito no cartão para apenas mais uma, fiquei preocupada. Eles me tranquilizaram que tirariam dinheiro do cartão para garantir o retorno para casa. Por volta das 22h, no entanto, a tia das garotas me telefonou para agradecer e obter notícias porque até aquele momento elas não haviam chegado em casa. Eis a síntese da história entrando nos detalhes que mais importam: a visão de perto do machismo e abuso de poder dentro do mundo policial, dos flagrantes de roubo, de venda de drogas e de duas mães: uma  ajudando seu filho a prestar a queixa enquanto a outra pedia pela sorte do filho jovem delinquente que o abordara na porta da escola. Eu, me achando esperta, percebi que os 3 jovens estavam bem mais preparados para fazer as leituras sobre a forma como se portavam os policiais, oficiais e delegado. A título de exemplificação,  segue o link de imagens com uma mulher sendo agredida fisicamente por segurança do SAC:  https://www.youtube.com/watch?v=4YFMjz8QF2Q

Tenho me perguntado porque tudo isso aconteceu comigo. Em que ponto eu me permiti viver o ocorrido e mudar totalmente a uma rotina que incluiria receber a minha nova carteira de identidade, almoçar em casa, fazer terapia em um grupo de mulheres, ter atendimento individual, encontrar com amigas queridas para um chá no final da tarde, assistir a projeção das fotos do meu marido no projeto OLHOS DE RUA e apanhar um amigo de São Paulo que veio passar uns dias conosco?Qual o limite entre o exercício da própria cidadania e o sentimento de solidariedade e, do outro lado, a capacidade de nos defender frente às atrocidades diárias que vivemos? Qual seria o meio termo, a decisão mais sensata a tomar para que eu não fosse conivente com o desrespeito a uma mulher como eu, mas que não resultasse em ser também agredida e desmantelar um dia que parecia propício a muitas atividades agradáveis e fortalecedoras do meu eu? 

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