quinta-feira, 16 de outubro de 2025

ESCAMAS QUEBRARAM AS MINHAS VIDRAÇAS

"Eu sou trovão, Tu tempestade, Entre nós dois: Pura eletricidade”.
Um peixe atravessou a janela da minha casa. Ela estava fechada, embora sua cortina azul vibrante anunciasse, de modo não muito efusivo ou confiante, que havia espaço na antesala do meu peito. Acho que sequer eu sabia: ela estava plena de poltronas reclináveis, tinha um sofá de quatro lugares que se abria para acolher um tipo de casal que, como disse Drummond, brinca e namora a qualquer hora do dia. Também jazia, no canto esquerdo, um almofadão recheado com flocos de isopor, bem embaixo do quadro que comprei em Cuzco, após percorrer a trilha inca com ar rarefeito sob meus pés. Ali é possível depositar todo o peso da humanidade que não sei se carregamos mais sobre o ombro no lado direito do corpo ou do seu lado esquerdo, dentro desse músculo involuntário que sempre pulsa, por mais desesperançosos estejamos. No centro do recinto, bordado pelo meu tio mais querido, um grande tapete de tapeçaria estava posto no aguardo de arroubos de desejos vorazes e explícitos.
Claro, um bom observador notaria que a porta estava fechada, mas por um ato inconsciente. Não só estavam expostas plantas sobre o seu parapeito, como viam-se vários vasos no chão, apoiados sobre uma torta táboa de madeira. E para dar um toque mais sutil e despretencioso, entre eles podiam ser vistas várias flores esparramadas ao acaso, avisando que a vida é breve, é breve como a existência das pétalas, mas igualmente frágil se soubermos fazer a correta avaliação comparativa. As plantinhas dos vasos se resignavam a esperar que a água da chuva rara do sertão saciassem sua sede de vida, mas estavam alí dispostas, bem no fundo, aguardando a aparição de uma mão generosa, de uma mão amiga, amorosa. A residente dizia-se desesperançosa, mas os cuidados ou descuidos com a sua moradia, em atos-falhos, denunciam que o seu discurso não estava assim tão percentualmente assegurado.
Sim, o peixe me invadiu antes que eu abrisse a porta ao convidá-lo a escalar os sete degraus da entrada. Ele foi manso, mas determinado. Mandou uma espécie de Hermes ou Exu, não estou segura, a enviar poesia com a insinuação de que desejava conhecer o seu interior. Mas depois, mudou de estratégia e foi direto: atravessou a janela sem que eu me apercebesse, estraçalhou meus medos e arremessou meu espanto para ao alto. Como isso se deu, eu não sei, não tenho ideia, sequer suponho. Só sei que, quando dei por mim, ele estava em minha cama, já sob o meu edredon mais acolchoado com estampas semelhentes em seus dois lados (aquele de fundo azul com flores amarelas e avesso com fundo amarelo e sob flores azuis), em perfeita simetria a anunciar que a vida pode ser equilibrada e calma. E o maior dos espantos é que ele estava nu, oferecia-se a mim sem escamas, sem guelras, sem dentes afiados de piranha, sem eletricidade no corpo, pois a eletricidade que ele gera e fornece é de domínio público e sem qualquer cobrança é constituída por matéria desconhecida da física quântica. Em pouco anos, ele entrou pela janela e colocou dois girinos em meu virgem ventre e esse tem sido o cardume em maior risco de extinção sobre o qual já li ou ouvi falar, que senti na minha epiderme já idosa e que os meus olhos arregalados já vislumbraram.
Entrou em minha casa um peixe que trouxe mais do que a água doce, que nos mantém hidratados e saciados daquela salgada que mantém o nosso alimento limpo e agradável ao paladar. Entrou trazendo rio, mar e nos fez navegar até esse céu que nos habita há quase quatro décadas.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

MEMÓRIAS DE UMA PROFESSORINHA OU NA ESTANTE DE PANDORA

NA ESTANTE DE PANDORA Vera Passos Coqueiro Fui professora por 26 anos. Ensinei Matemática para adolescentes. Digo que garanti minha rede sob Coqueiro na praia VIP do céu! O carma foi tanto, que ensinei por dois anos a uma Ivete Sangalo adolescente e ainda mais rebelde! Comecei muito jovem e chegava em casa aos prantos, porque entendia a rejeição à disciplina como à jovem inexperiente que eu era. Na verdade, fui pra Matemática pra sofrer, para me conectar com o meu pai depressivo falecido tragicamente pouco antes, pra viver do outro lado a minha sensação de incapacidade, enquanto aluna. Eu tinha muito gosto e facilidade por Português e outras línguas, mas ao começar a gostar dos números e formas, já no pré-vestibular, me senti tão poderosa e fascinada, que mergulhei de cabeça em um mar totalmente escuro e desconhecido. Sofri muito, sofri demais, mas busquei corrigir isso. Fiz parte do movimento que criou a SBEM - Sociedade Brasileira de Educação Matemática, cujo propósito era/é tornar seu ensino mais lúdico e atrelado à realidade. Demorou, mas consegui. No percurso, criei jogos, li poesias em aula, falei do I Ching, li contos e crônicas de A.C. Clark e Jô Soares, incentivei a cooperação e o processo ensino-aprendizagem em grupo, inventei novas formas de avaliação, na qual a métrica deveria ser eles próprios, seus avanços e não aqueles do colega ao lado, centrei minha ênfase na correção do erro, na consciência e melhoria de si e não na exposição dos que falham e até fiz meditação para que os estudantes relaxassem antes das provas e se visualizassem saindo delas com a sensação de que tinham feito o que de melhor poderiam (já bem próximo à aposentadoria, descobri que isso existia na França: RYE – Rechèrche sur le Yoga dans l’Education). Continuei até depois que fui considerada a professora mais criativa da Escola Técnica Federal da Bahia. Todavia, no meio do caminho, havia uma pedra, pedregulhos na verdade, a do desejo e do “talento” natural. Havia as sílabas! Com o dobro da idade, fiz vestibular pra Letras e cursei, enquanto ensinava carga horária completa de Matemática, cuidava de um menino de 3 anos e paria uma menina. Não nego minha trajetória, ao contrário, tenho orgulho dela – apenas lamento ela ter sido tão sofrida. Parodiando Gil: “A Matemática me deu régua e compasso”! Hoje, aposentada há 13 anos, estou publicando meu 6⁰ livro individual e escrevendo doze outros de diferentes gêneros, linguagens e formas! Entre eles um terá o título “A Professorinha”, expressão com a qual fui tratada aos berros por um homem engenheiro não licenciado, enquanto este me expulsava da minha própria sala de aula na frente de seus alunos e dos MEUS”! Engoli as lágrimas, disse aos estudantes que tomaria providências e saí para uma Assembleia que estava acontecendo no Auditório da Instituição, hoje o Instituto Federal da Bahia. O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação - SINASEFE vivia seus primeiros dias e só cerca de nove educadores estavam presentes. Ainda assim, não tive coragem de relatar o ocorrido e hoje, quase 40 anos depois, ainda me faço as perguntas: O que eles teriam feito? Nada, já por verificarem que eu era uma jovem professora substituta? Ou se levantariam para me acompanhar em um confronto com o assediador? O fato é que à época essa palavra sequer existia. A relação entre palavras e experiências, senão biunívoca, é dialética: muda a realidade, mudam as palavras; mudam os fatos, cria-se neologismos ou atualiza-se antigas palavras para nomeá-los; muda-se a dinâmica social, passa-se a trocar as palavras escolhendo outras que traduzem melhor os novos estudos sociológicos, seleciona-se aquelas que são mais fiéis à nova dinâmica e descarta-se aquelas já rotas pelo mal uso, as mau ditas; atualizam-se mutuamente as trajetórias da história dos acontecimentos e da linguagem e até inventa-se novas palavras para que sejam as foices a forjarem novas utopias. No dia de hoje, 15 de outubro, Dia do Professor, me vêm à mente muitas histórias, porém raramente gosto das inúmeras homenagens que recebo. Elas falseiam a valorização de uma das profissões com menor prestígio social, não só por conta da sua origem clerical, mas, acredito eu, mais ainda, pelo fato dela ser exercida majoritariamente por mulheres, por “mulherzinhas”, diria o “meu ex-colega"! Quando sua nova mulher passou a ensinar lá, eu a cumprimentava pelos corredores me indagando como ele a tratava. Eu sentia pena dela, e ele morreu sem que eu tivesse lhe feito qualquer questão... As homenagens verdadeiras são muito parcas e se dão quando algum ex-aluno te reconhece e lembra de qualquer fato que foi exemplar em sua trajetória pessoal ou profissional, por mais bobo que seja o assunto. E vocês riem juntos e entendem melhor o que foram à época e a despedida é um abraço de gratidão pelo que conseguiram ser e pela lição de saberem terem sido mais do que imaginavam. No entanto, somos operárias que, como a maioria, não têm poder aquisitivo pra comprar muita das coisas que foram fruto do nosso labor, que além disso, têm o agravante de sequer verem o produto resultante do seu ofício, pela óbvia razão de não estarmos na ponta final da “linha de produção”, mas no seu início. O fato é que, aberta a caixa de Pandora de textos, tenho esperança de que até ela voe, voe na melhor forma possível, nas asas de livro!

sábado, 8 de março de 2025

DIA 8 DE MARÇO OU DIA DO CANSAÇO

Nada contra receber flores e cartões elogiosos de felicitações. Tudo contra o fato de que o dia das mulheres seja traduzido e festejado dessa maneira. Contra constantemente me lembrarem do quão guerreira sou. Preciso ser, dentre outras coisas, para encarar, cotidianamente, manifestações machistas. Não quero precisar responder a todas elas, não suporto ter que me manifestar contra elas todas as vezes em que sou desrespeitada. Em um dado momento só fico triste, em nada contribuo para que a outra pessoa se perceba preconceituosa e, quem sabe, repense sua conduta nessa sociedade onde o patriarcado parece o ar que se respira desde o surgimento da vida no planeta. Que nos cabe, para não morrer asfixiadas, respirar o machismo nosso de cada dia. Não é preciso dar exemplos, bem sei, mas o faço, talvez para que não me esqueça dessas situações e de que tive disposição e coragem para me manifestar a respeito, para não me curvar e expor melhor o lombo à chicotada. Mas então, vamos lá. Ouvi gritos de 4 homens nesses últimos 15 dias: Um deles gritou me mandando voltar para casa. Era um cambista que me oferecia seus ingressos pelo dobro do preço, a quem eu ousei responder: "Deus me livre!" Possivelmente eu deveria dizer: "Só isso? Desculpe-me senhor, mas não tenho condições de comprar o ingresso que você oferece". Eu me voltei e gritei dizendo que ele não me conhecia, que me devia respeito, que eu ia pra onde quisesse e apontei o carro da polícia próxima a nós. Claro que eu tinha conhecimento de que os policiais iriam rir, me ridicularizar e até intimidar se os procurasse. Assim fizeram em uma ocasião em que chamei os policiais, quando estava sendo agredida por ter entrado em defesa de uma moça negra e humilde que estava sendo desrespeitada por um homem branco, rico e arrogante. O segundo exemplo foi de outro senhor que passava uma quantidade enorme de compras em um caixa onde só era permitida a compre de 30 itens. Quando reclamei, esse me respondeu que estava pagando, que fazia o que queria e que eu me calasse. Obviamente, revoltada, lhe disse que eu não iria me calar, mas confesso que, pela sua agressividade, temi receber um soco na cara. O terceiro foi um guardador que me chamou a ocupar uma vaga e depois me cobrou o estacionamento antecipadamente. Eu lhe disse que nunca fazia isso e que pagaria no retorno. Ele respondeu: “É, eu tenho que confiar em você e você não pode confiar em mim”! Sabemos que, na minha volta, o meu carro estaria lá, mas ele poderia estar ou não. "Vá então pra zona azul", disse ele. Afirmei: "Vou sim, sem problemas"! (e veja que sempre dou preferência a estacionar em uma vaga onde o pagamento não vai pra prefeitura, mas pra quem está trabalhando no local). Porém, achei que não devia voltar ao carro e estacionar mais á frente, fazendo exatamente o que ele mandou. Como insistisse nesse discurso, terminei usando o argumento que detesto: a rua é pública, então posso estacionar nela quando desejar. Ele continuou retrucando, enquanto eu saía. Na volta, já temendo o encontro com ele, confesso que temi ver o meu carro arranhado ou com os pneus furados. Mas verifiquei que estava no mesmo estado. No entanto, como previ, ele já não estava lá. O último foi de um atendente de uma loja na qual compro regularmente há anos. É um ótica pequena em que atendem ele e sua mãe. A data de entrega dos meus óculos já tinha expirado há tempos, eu já tinha ido várias vezes lá sem sucesso e, em duas dessas vezes ele tomou o meu endereço garantindo que entregaria a mercadoria no mesmo dia. Quando lhes disse que me aborrecia a demora tão longa, que eu já tinha ido lá inúmeras vezes, ele começou a gritar: “Se o laboratório não entrega, eu não posso fazer nada!”. Lembrei-me de que em uma das vezes anteriores eu tinha respondido que, se o laboratório não cumpre os prazos, seria melhor eles trabalharem com outros profissionais. Como ele continuasse aos berros, eu lhe disse que observasse a diferença entre o meu tom de voz e o dele. Depois lhe falei que baixasse o tom de voz comigo. Como ele continuou, eu passei a repetir: “Eu não ouço grito de meu marido, não vou ouvir de você!”. Foi aí que sua mãe veio botar panos quentes, me pedir desculpas, dizer que ele estava nervoso etc etc. Saí pensando na minha resposta. Será que não havia uma admissão de que eu poderia sim ouvir gritos do meu marido, pelo simples fato dele ter esse status? Cheguei â conclusão de que não. Não só porque este nunca me gritou, mas também por o amar profundamente e saber que é um dos homens menos machistas que conheço. Sendo assim, seria mais tolerável aceitar as suas desculpas se o fizesse. Mas as coisas não são simples assim. Ainda hoje precisei observar o machismo nele! Vejam como começou o meu dia 8 de março: quando tomávamos nosso café, eu lhe disse que bebesse da água que estava nas garrafas na geladeira, porque eu decidira utilizar o restante de um botijão de água mineral que sobrara de nossa viagem no carnaval. Ele reclamou dizendo que eu deveria ter deixado lá no garrafão, já aberto. Foi quando lhe informei que água parada assim estraga e que eu tinha feito isso para não perdermos a água, esse bem tão valioso. Ele disse que eu estava enganada. Eu poderia até lembra-lo das pesquisas de Pasteur, mas não o fiz. Ao contrário, aromatizei a água com limão e hortelã e lhe perguntei se estava satisfeito. Daí, subi para reescrever um texto e fui surpreendida por ele, dizendo que havia consultado o Google e visto que em água mineral não havia cloro, por isso ela estava mais susceptível a estragar. Eu retruquei: "Não lhe disse"? Ele justificou sua atitude por reconhecer o erro (como se isso fosse um grande e difícil ato), falou algumas bobagens e encerrou a conversa dizendo: "Viu? Aprenda!" e quase bateu em retirada. Essa última história me parece bastante emblemática. Primeiro porque se passou em minha casa e o protagonista foi um exemplar bem melhorado dos homens, exatamente aquele que escolhi muito cuidadosamente para me casar. Observemos: - Não era preciso dizer que pedir desculpas é algo nobre, porque essa é justamente uma das atitudes que fazemos em excesso, ensinadas que fomos a de achar que quase tudo é de nossa, senão culpa, responsabilidade, - As falas das mulheres são postas em dúvida com maior frequência; - Ele tentou encerrar uma conversa me ensinando o que já sei. Claro que eu lhe chamei de volta pra mostrar o que acabara de fazer, ao que ele não respondeu com a admissão de uma conduta autoritária, mas com um sorriso que interpreto como: “Isso é engraçado”. Há um ponto ainda importante relacionado ao tratamento machista que recebi no início do dia de hoje. Depois do ocorrido, decidi fazer um áudio contando o caso e o enviar para os grupos dos quais participo, ou seja, para cerca de 700 pessoas, sendo a maioria mulheres. O triste não foi verificar que menos de 10 mulheres responderam a mensagem discutindo o que relatei ou contando experiencias semelhantes, mas que a grande maioria respondeu me enviando mensagens com rosas e cartões elogiosos de felicitações! ASSIM CAMINHA A SORORIDADE, COM PASSOS DE FORMIGA E SEM VONTADE!

sábado, 17 de agosto de 2024

HEI, VOCÊ AÍ! ME DÁ UM DINHEIRO AÍ!

Então eu lhe respondi na bucha: "NADA!”. Foi anteontem isso. Eu estava na sinaleira que fica na esquina da agência Mercês da CEF na saída do Orixás Center e entrada da Av. Sete, quando um morador de rua me perguntou agressivamente: “O que você vai me dar para eu comer?” Felizmente, o sinal abriu logo e fui embora satisfeita tanto por ter sustentado a minha resposta, quanto por não ter recebido um tapa na cara. Mas, Vera, é na sinaleira e com uma pessoa numa situação de pedinte que você deve testar a sua capacidade de dizer "não"? Mesmo se você é tratada com rispidez? Essa resposta também é: "NÃO"!
Mas a questão é por demais polêmica: Devo ou não devo dar esmolas? E a pergunta me é feita reiteradas vezes durante cada santo dia ... a cada novo semáforo tenho que me perguntar qual a melhor forma de lidar com mais esse subproduto da perversa desigualdade social do nosso país. E são tantas as implicações da minha decisão... Tenho que enfrentar a expressão de ódio, quando digo não, a raiva se o valor que dou não é considerado suficiente para quem recebe, corro o risco de ser assaltada, como já fui várias vezes e até temo receber um insulto se o que ofereço não é dinheiro. Sim, há cerca de 30 anos achei ter resolvido o problema, quando passei a carregar uma vasilha plástica com biscoitos no porta-luvas do carro. Dando algo para a pessoa comer, não correria o risco dela estar usando o trocado que lhe dei para drogas lícitas ou ilícitas. Como não fui capaz de sustentar as reações de quem não queria nada além de dinheiro, aposentei a vasilha. Segundo o IBGE, em 2021 houve um aumento de 14,7% no número de moradores de rua em relação ao ano anterior e o total registrado - que certamente é bem menor do que o número real - passou a ser de 222 mil pessoas! O site da SPINVISÍVEL destaca o quanto a situação de rua é complexa e multifacetada e aponta 5 causas que levam as pessoas a serem moradores de rua. Sâo elas: desemprego, conflitos familiares, uso abusivo de drogas, problemas de saúde mental e desigualdade social. Além do item, desigualdade social, considero que três outras causas estão associadas à falta de políticas sociais e consequente desigualdade social. O Estado deveria garantir não só emprego a todos os cidadãos, mas também assistência plena aos usuários de drogas e a portadores de distúrbios psíquicos. Em última análise, até os conflitos familiares podem ter raízes na desigualdade social e suas infinitas facetas.
Abrir o vidro do carro para dar qualquer coisa que seja é muito complicado numa cidade violenta como Salvador, especialmente para uma mulher. Há 18 anos, no caminho para levar meu filho e dois colegas para a escola bem cedinho, resolvi comprar um jornal ATARDE na mão de um rapaz que usava um colete com o emblema desse veículo de imprensa. Ele me entregou o exemplar do jornal e, quando fui pegar o dinheiro na carteira, vendo uma nota de R$50,00, ele enfiou a mão pra apanhá-la e ficamos os dois puxando a carteira até que o sinal abriu e ele saiu correndo com ela. Fui sim, denunciar na sede do Jornal ATARDE, mas eles agiram como se nenhuma responsabilidade tivessem sobre quem está uniformizado trabalhando na venda de seu produto. Noutra situação acontecida nos anos 80, alguém falou algo próximo à janela traseira do carro que minha mãe dirigia, eu abri um pouco o vidro e o rapaz me mostrou um caco de vidro sujo, dizendo ser aidético e ameaçando me cortar. Por sorte, o sinal abriu e minha mãe, que não sabia o que estava se passando, arrastou o carro. Esses são apenas dois dos casos perigosos que vivi por abrir o vidro do carro, tentando ajudar quem está junto a mim, naquela situação de vulnerabilidade e desamparo. Sei bem que, como uma cidadã classe média, não sou eu a maior responsável pela miséria em meu país, no entanto, queria poder fazer algo a mais para minimizá-la. Algo além de doações para a TETO BRASIL, a AÇÃO DA CIDADANIA e MÉDICO SEM FRONTEIRAS. A pobreza bate à minha janela. A pobreza me horroriza, me deixa indignada, ativa o seu senso se solidariedade, mas eu nem sei se abro para ela.

sábado, 10 de agosto de 2024

SÓ NOS RESTA ACOMPANHAR?

Anteontem, o costumeiro engarrafamento que me retarda a ida a qualquer lugar em diração ao centro da cidade, me fez constatar, consternada, que o edificio que está sendo construído no canteiro entre as duas pistas da orla, na av. Otávio Mangabeira, continua crescendo. No dia 13 de junho, fiz uma postagem aqui nesse blog no link , denunciando essa construção que vai/está obstruindo a vista do mar, impedindo a circulação da brisa marinha etc. À época a construção tinha um número de andares que era a metade do que tem hoje, ainda inacabada:
EM 13/06/24
EM 07/08/24 Como escreveu o poeta Valater Hugo Mãe (sim, ele não é só romancista, já gravei um lindo poema desse portguês e ele foi transformado em vídeo por José Mamede e está disponível no meu perfil no insta: @verapassoscoqueiro), o capitalismo é uma fábrica de fazer espanhóis, na verdade é também de fazer a maioria dos brasileiros, uma fábrica de gerar miséria, de constuir feiuras, de acinzentar os nosso dias...

domingo, 7 de julho de 2024

À NOSSA ESPREITA

A morte nem é nossa vizinha. Caso fosse, apenas uma parede poderia nos separaria dela. É a nossa sombra e a gente foge dela como vampiro da cruz! Mas não tem jeito, essa cruz vai chegar seja na sua lápide, caso seja a pessoa seja cristã, seja como cruz no sentido metafórico do termo. Mas a gente sabe que não foge da sombra, nem mesmo nos dias mais nublados. Mas foge, foge e foge. No entanto, há momentos em que a sombra nos tapea, passa a pena na gente e aparece à nossa frente, aparece como enorme tela de cinema 3d. Foi o que se passou comigo há cerca de dois mês... Tenho uma amiga que conheci há mais de 15 anos em uma clínica de tratamento psíquico. Ela foi minha colega em um grupo terapêutico. Ficamos amigas. Tínhamos o mesmo temperamento extrovertido e éramos ambas artesãs. Por algum tempo trabalhamos juntas. Ela me ajudava a bordar camisas customizadas. Eu fazia os desenhos e ambas bordávamos. Ela recebia um valor por cada peça concluída. Não era muito, cada camisa era vendida por um valor muito pequeno. Afinal, quem dá valor a peças artesanais, não é mesmo? Ouvi alguém falar algo muito interessante sobre isso: "Se for feito por homem, é arte. Se for feito por mulher, é artesanato!". Não só do fato de ser um trabalho manual, mas também daí deve vir a desvalorização das peças artesanais. Não se leva em conta o valor do material usado, o tempo gasto para fazer o artigo e, muito menos, o valor intrínseco da criatividade da concepção da peça, no meu caso camisas únicas da marca UM A UM COSTUMIZAÇÂO. Em outros momentos, fui eu a auxiliá-la a fazer enfeites para carnaval, vendidos por ela. Nesse caso, sem pagamento, porque era só um gesto de gratidão pelo que ela havia me ajudado antes. No final do ano passado, uma amiga comum, também pertencente àquele grupo de terapia, recebeu uma mensagem dela lhe contando que havia caído, tinha tido um problema no quadril e na perna, tinha se tornado cadeirante e estava morando em um abrigo. Ficamos ambas muito tristes e preocupadas com essas notícias. Já havia muito tempo que eu a visitara e não tinha ideia de que isso lhe estava acontecendo. Desde então, só tínhamos trocado mensagens pelo whatsapp. Marcamos de ir à casa de repouso no início desse ano. Passado o carnaval, decidimos ir, mas vários contratempos nos impediram, alguns por imprevistos meus, outros da minha companheira de visita. Foi assim que só conseguimos nos dirigir para ir vê-la em maio. Eu saí de Patamares, peguei minha amiga na Graça e fomos até o Abrigo Dom Pedro II, na Av. Luiz Tarquínio, na cidade baixa. Chegando lá, nos informaram que o abrigo já não funcionava naquele local. Segundo o vigilante, a instituição funcionava agora em Piatã em local que ele não sabia precisar. Decidimos atravessar novamente a cidade e fomos até lá. Foi uma maratona achar a nova localização do asilo. Tivemos que pedir informações a mais de 6 pessoas! Quando enfim chegamos, nos informaram que não havia nenhuma mulher com o nome da nossa amiga: Valine. Ligamos para o seu celular para ver exatamente onde ela estava morando. Nada. As nossas ligações não foram atendidas... Como nos disseram que havia outro abrigo na mesma rua, até lá fomos. Novamente não havia ninguém como seu nome naquele local. Cansadas e sem saber por onde continuar a procura, voltamos desanimadas para casa. Tentamos doar as frutas que compramos para o lanche ao asilo público, mas eles disseram que possuem normas que não permitem isso. Desorientada, voltei para casa com um presente, sequilhos e um cartão escrito para a minha amiga com a seguinte mensagem:
Valine, Não estamos sós. Não estamos só com os protetores invisíveis. Estamos juntos como seres em construção, sempre em busca da iluminação. Conte conosco, Beijos carinhosos, Veroca (Era assim que ela me chamava.)
Eu e minha amiga combinamos de procurar as irmãs da desaparecida para sabermos exatamente em que abrigo ela vivia. O sobrenome é Noguerol, lembramos. Então porque o sobrenome delas não era muito comum: Noguerol. Concluímos que o melhor canal para isso seria o instagram e que a tarefa seria facilitada porque o nome não era muito comum. Procuramos a sua irmã mais velha e não a encontramos. Uma semana depois, eu me lembrei do nome de sua outra irmã e mandei mensagem para ela. Esta me respondeu contando em detalhes que nossa amiga havia morrido! Não sei descrever que sentimento me abateu ao receber aquela notícia. Como deve se sentir uma pessoa que sai com presente, cartão e lanches para um alegre encontro com uma antiga amiga e descobre que ela está morta há meses? Não sei descrever. Só sei que senti. O que me resta fazer? Desejar que hoje ela tenha de fato sobre a proteção dos seres invisíveis. Segure firme na mão deles e siga em paz, Valine.

domingo, 16 de junho de 2024

FORRÓ, UM SOPRO DIVINO

 

FORRÓ, UM SOPRO DIVINO


Em um vídeo recém recebido (https://www.youtube.com/watch?v=4UrGfuw6GN4), Dominguinhos nos mostra cinco tipos diferentes de ritmos que são tocados durante os festejos juninos: forró pé de serra, baião, xote, arrasta pé e xaxado. Eu até consegui me lembrar do Falamansa que toca o chamado forró universitário, ao qual ele não se referiu, mas confesso que sequer consegui gravar qual deles é o embalo que tanto gosto de dançar com meu benzinho, seja em uma sala de reboco ou não. Afinal, essa matéria não passa pelo túnel nebuloso do intelecto, desliza pela via verdejante do corpo, esse mistério que me carrega e que insisto em naturalizar como se apenas uma carcaça fosse. Mas ele resiste e sela sensações e memórias: da minha aorta alçando voo enquanto deslizo na pista, conduzida por suas mãos com aqueles seus dedos beijando os meus como colibri em pétala recém orvalhada, do meu quadril que tenta avançar entre suas pernas exatos 2,25cm a cada toque da zabumba... Ahhh, e de sua voz ecoando em meu ouvido, acompanhando a música daquele jeito desafinado e gostoso, distoante não porque é experimentação bossanovista, mas porque é carimbo dessa marca registrada que é só sua. E tem a memória de mim também. De me dizer: “Veja, Vera, ele tá tão feliz!”; “Ele também faz seu movimento pra se roçar em você, e requebra, requebra, requebra macio”; “Sinta bem, registre o momento, guarde a sensação de que ele requebra nesse compasso de alegria que, com a caneta dos pés, traça a frase:  “Olha, que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais...”

E no almoço do dia seguinte, quando nossa filha pergunta como foi a reza pra Santo Antônio e o forró que a seguiu, lembro do Sto Antônio que ele me deu em um nicho com florzinhas de metalacê eo bilhete: "Você tem muito a agradecer a ele!" Mas é nesse momento que ele me desafia: “Qual foi mesmo a música de que eu mais gostei, ontem?” Eu saio correndo desesperada a pesquisar e lhe respondo sem qualquer certeza, achando que dei um chute que no máximo vai bater na trave:

“Debaixo do barro do chão da pista onde se dança, suspira uma sustança, sustentada por um sopro divino...”

Nessa hora ele ri satisfeito comemorando a minha excelente memória e sabedoria sobre esse ser incognoscível que ele é. E é claro que concordo totalmente com essa sua conclusão, afinal não sou boba nem nada! Eu só sei que:

Eu não sei do arrasta pé.

Eu não sei do forró pé de serra.

Eu não sei do baião.

Eu não sei do xote.

Eu não sei do xaxado

Eu só sei que estava lá. E ainda estou!

quinta-feira, 13 de junho de 2024

TIRE AS SUAS MÃOS DA MINHA PRAIA


"Tire as construções de minha praia, não consigo respirar.
As meninas de mini saia, não conseguem respirar
Especulação imobiliária e o petróleo em alto mar..."

                                                                        (Lucro – Baiana System)

A luta contra o progresso desmedido, sem planejamento e análise dos impactos econômicos, sociais, culturais e tendo como critério a sustentabilidade não é nova e a questão está longe de ser resumida na dicotomia entre progresso e estagnação, entre o urbano progressista e o rural bucólico e atrasado. Trata-se de uma batalha que vale a pena ser travada se os adversários são o PROGRESSO DESMEDIDO e o PROGRESSO RESPONSÁVEL. De fato, o que está em disputa é o crescer desordenadamente e o crescer de modo planejado, considerando os interesses de todas as camadas da população, minimizando os impactos ambientais etc. É essa a questão que está em voga em várias situações contemporâneas. No Brasil de hoje, ela é um fator de fundo quando analisamos as catástrofes no Rio Grande do Sul e está em voga quando a maior parte da população brasileira se manifesta contra a Proposta de Emenda Constitucional que permite o uso de nossas praia.

Em Salvador eu a observo principalmente na questão da mobilidade urbana e no uso do solo. Ao problema dos enorme engarrafamentos na cidade, os órgãos responsáveis têm respondido com viadutos por toda parte, muitas vezes construídos sobre a destruição de lindas áreas verdes. Está também demonstrada a opção de modelos de transporte ultrapassados   trafegando em trechos já contemplados por outras 1possibilidades de deslocamento, a exemplo do BRT. Lembro-me bem que na campanha eleitoral para prefeito da cidade, o candidato Hilton Coelho (PSOL) enfatizava que o GLT era mais moderno e mais indicado do que o BRT para implementação na cidade. Mas o que vimos foi o BRT sendo implantado depois de anos dessa discussão, portanto com tecnologia ainda mais defasada, em local onde havia árvores centenárias, em um trajeto já percorrido por ônibus convencionais e pelo metrô,  menos poluidor e mais rápido.

Já ao problema do crescimento urbano, desde que o gabarito de construção foi modificado (mudança no PDDU), quando João Henrique Carneiro era prefeito, os arranha-céus estão pululando como pústulas de sarampo na pele de crianças não vacinadas. Moro em um bairro que era caracterizado por moradias horizontais, no qual não existia um só prédio de dois andares. Hoje estamos cercados por edifícios com cerca de vinte andares, alguns deles se denominando bairro, como o Green Ville que de “green” e de “ville” não tem nada. A hipocrisia no modus operandi das empreiteiras é tão grande que têm o displante de utilizar nomes da flora e da fauna nos prédios e grupos de construções que foram construídas nos lugares onde antes havia justamente inúmeras espécies da flora e da fauna! Exemplo muito marcante disso foi o que transformou o Horto Florestal da Cidade do Salvador no famoso bairro “Cidade Jardim”, onde impera o concreto e foi tão mal dimensionados que se um morados faz uma festa, ninguém pode visitar alguém dos prédios vizinhos porque a rua vira um grande engarrafamento e não há vagas para nela estacionar. Recentemente e igualmente grave foi que escavaram o morro logo abaixo da Cidade Jardim só para construírem mais um dos “trocentos” supermercados Hiper Ideal. Afinal, tudo depende de quem está a fazer. Do poder político e aquisitivo do proponente. Não é mesmo?

Mas a grande e pior das novidades não é só que esses edifícios estão sendo cornstruídos em frente ao mar, em um projeto de tornar nossa orla igual a Copacabana, na qual não corre nenhuma brisa, é que começaram a construir no canteiro entre as duas pistas da orla, entre as pistas da Avenida Otávio Mangabeira! Cada dia que passo por lá, vou contando quantos andares já foram construídos em um deles. Comecei achando que eram 3, mas já ultrapassam 6!

Mais um exemplo que destaco é o que está prestes a acontecer na Praia do Buracão, no Rio Vermelho:

Projeção de sombras que incidiriam sobre a Praia do Buracão caso sejam construídas as três torres planejadas pela Novonor (antiga Odebrecht) no Rio Vermelho, em Salvador; doutora em química contra o projeto alerta para o risco às correntes marítimas e à ventilação da cidade — Foto: Ilustração do arquiteto Daniel Pessoa a partir de detalhes do projeto/Movimento SOS (portal Globo)

Há alguns dias, ouvi a fala do deputado Alceu Moreira,  (pasmem) DO RIO GRANDE DO SUL, que teve a brilhante ideia de pôr em votação na Câmara essa Proposta de Emenda Constitucional denominada popularmente de PEC das PRAIAS. Vale escutar o áudio, porque ele nem disfarça que o objetivo é liberar as praias pra especulação imobiliária!  Por que será que, entre todos os problemas do país e, especialmente, aqueles gravíssimos do RS, essa "ilustre excelência" está tão preocupado com isso? Matéria publicada no UOL relara a lista de oito senadores e um governador a serem beneficiados pela sua aprovação e que há ainda 116 vereadores, 65 prefeitos, 41 deputados estaduais e 31 federais, 31 vice-prefeitos e 2 vice-governadores. Também podem ser favorecidos pela eventual mudança na legislação empresas do setor imobiliário, da agricultura e empresários que possuem imóveis nos chamados terrenos de marinha, que pertencem à União.

Só faltou que o deputado Alceu encerrasse sua fala com a seguinte frase:

 "Vamos aproveitar que está todo mundo ligado nessa tragédia e passar a boiada dos arranha-céus!”


                        Hotel Tambaú, uma construção particular na praia de João Pessoa, feita em 1970 para uso privado.

Essa luta é muito antiga, mas continuamos como estacas de braços dados, impedindo a boiada de passar

quinta-feira, 23 de maio de 2024

EU E VERY IMPORTANT PEOPLE

Nessa que foi a minha última viagem, tive a experiência de ir para uma SALA VIP no Aeroporto de Congonhas, a convite de uma das pessoas que viajaram comigo. Sempre detestei essa sigla VIP e me perguntava o proquê de haver pessoas muito importantes, designação que ers agravada pela constatação de que isso era um marcador de classe social. O fato é que no Brasil da pandemia, o número de pessoas desimportantes, que sempre foi enorme nesse país estremamente perverso e desigual, foi aumentando vertiginosamente (de 2019 a 2022, o IDB diminuiu 3 pontos, passando o país para a 89a. posição). Nunca perguntei nem havia parado muito para pensar como seria uma sala VIP. Só achava que teria cadeiras mais afastadas e confortáveis. Ontem eu descobri que não era apenas isso. Não foram só cadeiras o que vi. Havia vários salgadinhos, diferentes tipos de bolo e biscoitos,  máquina de café, capuccino etc, geladeira com cerveja, refrigerante, água e vinho e banheiros exclusivos em um ambiente refrigerado.E pelo que me informaram, essa não era uma sala tão VIP assim. Outras são muito melhores!

O que faz com que os bancos brasileiros invistam dinheiro em montar esses espaços? Certamente tem relação com seus lucros, que estão entre os maiores do mundo! O que se dá na mente de alguns brasileiros que os faz terem a necessidade de se sentirem mais importantes nos aeroportos e em todos os lugares do país? É a herança escravrocata? O fato de termos um dos piores IDH do mundo? Não sei quando surgiram as primeira salas VIPs, mas tenho um palpite de que isso aconteceu depois que as companhia enxugaram seus serviços e preços e pessoas de estratos inferiores da sociedade passaram a ter a possibilidade de entrar em um avião. Foi isso que tanto indignou o ex-ministro Sr. Paulo Guedes, que expressou esse pensamento na sua famosa frase "Empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada!"

É muito triste acompanhar o empobrecimento de cidadãos brasileiros. Há alguns anos, quando eu voltava do trabalho, sempre encontrava um homem vendendo alguma fruta na sinaleira.Á medida que o tempo foi passando, a sua aparência foi ficando cada vez mais esquálida e sua roupa mais folgada e suja. Até que um dia eu o encontrei em um outro semáforo. Nesse dia não mais vendendo limões, mas pedindo esmolas...

Outros exemplos se deram na Boca do Rio. Eu sempre ia a um relojoeiro que tinha uma pequena loja na calçada da rua principal do fim de linha do bairro. Além de trabalhar muito bem, ele tinha um ótimo atendimento. Depois de um tempo, ele se transferiu para uma sala um andar acima, bem menor do que a anterior. Obviamente concluí que já não podia pagar o aluguel da sala anteior. Até que ao procurá-lo depois da pandemia, soube que ele tinha fechado a loja. Na semana passada perguntei a um camelô, que também conserta relógios, o qual me disse que ele havia morrido. Esse não foi o único caso que chamou a minha atenção. Na calçada dessa mesma rua, havia uma papelaria que foi reduzida à metade. Por quanto tempo ela resistirá, não sei dizer.  

Tem sido quase sempre assim, exceto quando há políticas sociais que visam diminuir a pobreza. No entanto, o montante que setores como o agronegócio recebem de subsídios poderia e deveria ser usado para diminuir a enorme distância que separa aqueles considerados VIPs dos simples mortais. Não vou, hipocritamente, dizer que não gostei de ter aquelas mordomias ao meu dispor. No entanto, a equação do meu desejo não inclui a variável "Só eu posso ter".

domingo, 12 de maio de 2024

COMO SER OU NÃO SER MÃE

 Amigas, boa madrugada.

Fiquei contente ao notar que provavelmente serei a primeira pessoa a lhes desejar um feliz dia das mães... 

Sabem, na autobiografia de Jane Fonda - cuja leitura eu recomendo - ela diz que a lição mais difícil e importante que, se quisermos, precisaremos aprender é a de educar noss@s filh@s, No entanto, para preparar para tirar boa nota nessa tarefa tão complicada não há cursos...

Em todos os segundos domingos de maio, eu me ponho a refletir sobre o quanto ser mãe é desafiador e como, nessa sociedade machista,  o ato de ser mãe se impõe como um desafio bem maior do que aquele de ser pai. São vários os exemplos dessa assimetria entre as expectativas em relação a ser mãe e a ser pai. Começa que, ao contrário do que acontece com as mulheres, ninguém questiona se o homem decide não ser pai (se ele resolve ficar solteiro,  passa a ser visto como "o tal"/ "o que não quis mulher nenhuma ", enquanto ela é considerada  "a rejeitada").  Mais do que sabermos, vivemos essas situações díspares rotineiramente. Porém, importa saber: com  que base nos lançamos nessa aventura tão complexa que é ser mãe dentro desse ambiente patriarcal. Penso que o fazemos tendo por base não só os acertos, mas também os erros das nossas próprias mães. É a partir da vivência como filhas que decidimos se queremos ser mães e que tipo de mãe queremos ser. A minha mãe se foi nesse ano e tive o consolo de me lembrar de várias  vezes lhe ter dito: 

- Minha mãe, você foi uma mãe melhor do que a sua,  eu sou uma melhor mãe do que você e tenho a certeza de que minha filha será uma mãe bem melhor do que eu".  Acredito nisso: que a vida só vale a pena se conseguimos nos ver como setas que não atingem a mira, mas não deixam de se lançar, de voar buscando  se aproximar dela. Muitas vezes vacilantes, caminhamos para dar passos mais leves, e ainda assim, firmes, visando ser e fazer melhor.

Por tudo isso, nesse ano não lhes envio uma das mensagens de praxe com flores e corações, nas quais se diz que só temos virtudes e sempre acertamos no modo como orientaram @s noss@s filh@s. Ao contrário,  envio os links de um áudio com Inezita Barroso cantando a música "Mãe é dureza", do texto com o poema "Vigílias das mães" de Cecília Meireles e de um vídeo em que Elisa Lucinda  recita a sua poesia "Chupetas, Punhetas, Guitarras" e um áudio do meu canal VIVERDEPOESIA no qual recito esse mesmo poema, pois todos eles observam a maternidade sobre outros pontos de vista. Desse modo, desejo que os recebam como o perfume de um buquê de jasmim aos sentidos e como a paz aos corações. 


                                                                                                             Vera Passos

terça-feira, 27 de junho de 2023

quarta-feira, 8 de março de 2023

O QUE HÁ DE MACHISMO EM MIM

 

                 

    Nasci de um homem muito machista casado com uma mulher de 18 anos, 13 anos mais jovem do que ela. A minha mãe era uma mulher muito forte e, em alguns assuntos, à frente do seu tempo. Essa mulher, ficou viúva com 35 anos, mas o machismo estava tão internalizado nela que consentiu que ele limitasse o seu futuro: não se permitiu viver uma nova relação, continuar os estudos e constituir uma carreira, usar roupas decotadas etc. Sei que era uma feminista, sem se permitir ser, porque aprendeu a dirigir sozinha, fotografava sem ter tido um curso e me levou ao único psicólogo da cidade para que eu fizesse terapia quando começamos a ter atrito na minha adolescência etc. Meu pai tinha poucos recursos financeiros e ela era uma herdeira de fazenda e outros bens, e, embora contrariada, deixou que ele administrasse os seus bens como bem quis.  A frase que demonstrava a sua ânsia de liberdade, sua sede de ocupar um lugar no mundo menos subjugado, jamais esqueci: “Vá estudar pra não depender de homem!” Está aí o gérmen que brotou em mim o desejo de educar os meus filhos para que contribuíssem para um mundo mais igualitários entre os gêneros.



    Comecei desejando que fosse uma filha a primeira criança que eu poria no mundo, não só porque ela teria uma maior atenção de todos da família, mas também porque temia que sendo um filho, ele se sentisse no direito de controlar a irmã. O universo não quis facilitar as coisas para mim. Tive um filho e só depois, uma menina. O que fiz para que ao menos a minha família não fosse uma réplica do poder dos homens sobre mulheres? Talvez o tenha feito mais por atitudes inconscientes do que conscientes e o maior exemplo deve ter sido a relação de respeito que eles compartilhavam com os seus pais. Eles têm conhecimento de que antes de o conhecer, morei sozinha desde os 18 anos, era motociclista, viajava sozinha etc. Além disso, sabem que era 5 anos mais velha do que ele, que dirigi antes dele, que já tinha vida sexual quando o conheci, que tomei a iniciativa do namoro, que mantive contato com os meus amigos e alguns ex-namorados, que o pedi em casamento depois de 25 anos de relacionamento, que jamais permiti que ele controlasse as minhas iniciativa ou desse palpite na minhas roupas, que manifesto tudo o que me desagrada na relação, que dividimos as despesas, que conversamos e decidimos conjuntamente todas as coisa relativas à família, que nos admiramos, nos encorajamos e partilhamos projetos e sonhos. Entre as conscientes, destaco:


   

 Não permitimos que seu irmão a desrespeitasse;

    Validamos igualmente a fala e os sentimentos dos dois;

    Damos suporte aos planos e anseios de ambos;

   Começamos a dar mesadas a ambos desde cedo para que aprendessem a administrar algum recurso financeiro;

    Requisitamos ambos a assumirem as responsabilidades pelas tarefas domésticas;

    Permitimos que ela trouxesse seu namorado para dormir em seu quarto, do mesmo modo que fizemos

     quando ele quis trazer a namorada;




    No entanto, estou ciente de que ainda foi muito pouco e não só por responsabilidade do pai, mas minha também. Em meus pulmões resistem resíduos do machismo estrutural e vez ou outra me vejo falando ou tomando atitudes que demonstram o quanto o machismo persiste em mim como erva daninha a exigir capina diária. Talvez eles consigam dar uma educação feminista aos seus filhos... Não sei se conseguirão. Provavelmente não, se no caldo cultural persistir o amargor inerente à secular estrutura patriarcal, mas tenho o alento de que eles conseguirão ir além de mim e afinal é para isso que damos continuidade à raça. 


 



sexta-feira, 3 de março de 2023

PROJETO MEXERAM COM TODAS

 

MEXERAM COM TODAS

As mulheres são alvo de violências em todas as partes do planeta, seja na Síria, no Brasil ou no Sudão. O que muda então? Mudam a intensidade e a forma, mas a dura realidade de ser mulher em sociedades patriarcais não mudou ainda não.

Segundo a bíblia, o mundo foi feito por intermédio do verbo. As coisas começam a partir da palavra: pensamos com a palavras, sonhamos com palavras, desejamos com palavras, colocamos o desejo no mundo através da palavra e, só depois, o que era palavra se materializa em algo mais concreto do que ela. No entanto, a palavra pode ser veículo de utopias ou de distopias, de opressão ou de libertação. O projeto “MEXERAM COM TODAS” tem na palavra nas formas oral e escrita o seu instrumento transformador. Através dela visamos encorajar mulheres a tomar consciência dos acontecimentos em que foram desrespeitadas apenas por serem mulheres em um ambiente de machismo estrutural, para que a partir de seus relatos, possam buscar caminhos para trazer para o real a possibilidade de um mundo mais igualitário entre homens e mulheres.



Nesse sentido, em agosto de 2022, realizei a realização a oficina"Escrita Terapêutica para Revelar e Combater a Violência de Gênero", no III Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE, na cidade de Fortaleza.   Nela, convidei 40 mulheres a escreverem um relato de uma situação de violência que sofreram, misturei os textos sem identificação de autoria e os distribuí aleatoriamente. Cadastrei todas elas em um grupo no whatsapp de nome “Mexeram com todas” e pedi que nos enviassem áudios lendo os relatos recebidos. Desse modo, visava estimular a sororidade em todas nós.

Para que esses relatos nao ficassem restritos ao pequeno grupo e fossem ouvidos por pessoas de todos os gêneros iniciei a Etapa 2 do projeto "Mexeram com Todas". Assim, para marcar esse Mês da Mulher de 2023, de uma forma menos folclórica e mais reflexiva, em cada um dos seus 31 dias, um  relato está sendo divulgado sem identificação da autoria do texto nem da voz que o lê.    Penso que essa é uma boa iniciativa para marcar a necessidade de luta pelos direitos da mulher, tão ameaçados nos últimos anos, inclusive com o aumento do número de feminicídios.  Considero que, mais do que engrandecer a beleza e força femininas, é necessário que outras mulheres que sofreram ou sofrem abusos se fortaleçam para denunciá-los, deixando claro que a dor de uma de nós mobiliza a nossa dor, assim como a força de uma fortalece todas. Os podcasts com os relatos podem ser ouvidos no Spotify. Sua repercussão sinaliza que é preciso dar continuidade a ele, orientando novas oficinas e, com a permissão das participantes, tornando público os seus resultados. A quem considerar relevante a iniciativa, solicito que participem do projeto, seja enviando textos, gravando outros ou apenas divulgando o projeto.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

UM NÃO QUE ERA SIM?

UM NÃO QUE ERA SIM?

                                                                                                 
 Ainda lembro bem. De mãos dadas e usando mortalha iguais, seguíamos uma banda no bloco. Quando passamos na frente do clube mais antigo da nossa cidade,   encabulada,   rompi o silêncio e disse: “Hoje é meu aniversário”,   ao que ele   respondeu:  “É o   meu também”.   Descobri que não mentia, décadas depois,  quando  me  enviaram o  link  do seu  perfil  no  facebook. Em algumas  fotos  antigas  era  exatamente  como eu o conhecera: bonito, de cabelos longos.


Como sou uma nostálgica e romântica inveterada, sempre cultivei as lembranças daquele primeiro amor que foi totalmente platônico. Além das mãos, a maior intimidade que tivemos foi no dia em que eu andava de bicicleta próximo à sua casa, seus amigos seguraram a minha bicicleta, ele me deu um beijo no rosto e saiu correndo.  Fora isso, eram sempre danças em carnavais ou festas de réveillon em que, calados, brincávamos no salão circular ao som de marchas de carnaval. No final, ele sempre me pedia em namoro e, como de era posto na moral social para as moças direitas da época, eu dizia que iria pensar.  Eu  bem sabia que  a minha resposta compulsoriamente seria um NÃO, mas durante o intervalo solicitado para pensar, gostava de sonhar que poderia ser um SIM. Um SIM que os meus pais jamais permitiriam, claro. 

  A paixão entre nós era conhecida na cidade. Lembro de uma conversa entre          meu pai e cerca de oito amigos na sala de nossa casa, em que me diziam: com o    filho de (nome do pai dele), não.Você pode namorar com o filho de Fulano ou     Beltrano, ambos, obviamente, amigos do meu pai e presentes na sala. A mim     restava apenas   ouvir.  Só a   perplexidade com os comentários era diferente   naquele meu hábito de só ouvir.


A tecnologia foi tornando cada vez mais fácil uma comunicação entre nós. E eu confesso que gostaria de lhe perguntar sobre o que foi para ele aquela experiência tão ingênua, de talvez rirmos juntos dos costumes da época etc. Tenho uma curiosidade de saber como o outro me via, que impressão tinha da minha realidade, como interpretava o meu comportamento... Talvez isso se dê só por uma necessidade de conhecer o meu passado para melhor compreender a argamassa que compõe as paredes que dão sustentação àquilo que sou hoje. Há muito sei que aquela pessoa não combinava com o ideal de companhia que, já naquela época, eu queria para mim. Mas ainda acho estranho não ser possível sequer uma conversa amigável, com uma pessoa que por anos foi o motivo dos meus suspiros juvenis.



Agora que ele já não tem cabelos e eu já não chamo a atenção, quando entro no salão, as  novas  tecnologias  me  permitem  constatar  que  nos  tornamos seres totalmente antagônicos em termos de valores e visão de mundo. E eu me pergunto em que circuito da festa momesca, o que foi paixão se tornou apenas serpentina no chão e suponho que aquele “NÃO” era mesmo para ser “NÃO”.


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A LOUCURA DAS PALAVRAS


 

Se substituída por um sinônimo, uma palavra nem sempre tem o mesmo significado. Ele pode sugerir outro sentido, algumas nuances a mais, mudar a intensidade, soar estranho etc. É isso o que acontece com “histeria”. Qualquer busca, seja em dicionário físico ou virtual, vai te levar a sinônimos como “nervosismo”, mas os exemplos serão quase todos no feminino. Quando você escutou a frase: “Ele está histérico!”? Compare com a frequência com que ouviu a mesma expressão associada às mulheres. E convenhamos, dizer que alguém está nervoso não tem o mesmo peso que dizer que essa pessoa está histérica, não é mesmo?

Na antiguidade, o termo “histeria” foi cunhado a partir da palavra “útero” e em seu livro “Estudos sobre a histeria”, Freud apresenta os resultados de estudos com 5 pacientes: Anna, Elisabeth, Emmy, Lucy e Katharina. O livro foi publicado em 1895 e desde então, embora o conceito psicanalítico da histeria tenha evoluído bastante, até hoje o adjetivo correspondente continua sendo associado às mulheres. Por que isso se dá? Certamente não é só pelo desconhecimento da evolução desses estudos, mas porque não houve tanta evolução no modo como é avaliado e controlado o comportamento feminimo.

As mulheres não ficavam simplesmente nervosas, ficavam histéricas. E sendo a histeria considerada uma patologia era fácil recorrer à internação para conter seus comportamento e corpos considerados socialmente inapropriados.  Esse é o tema de projeto da poeta Isabela Penov, aprovado pelo Itaú Cultural. Isabela fez uma pesquisa em arquivos de manicômios brasileiros dos últimos 100 anos nos quais observou que os diagnósticos e internações de mulheres eram feitos tendo como base os relatos de seus pais, maridos e irmãos. O projeto incluiu uma live em que a psicanalista Monik Sittoni discutiu a relação entre o feminino e a Psicanálise e outra de título “Mulheres no Avesso da Razão” com as escritoras Micheliny Verunschk e Yonina Staseviska, além de uma oficina de escrita com mulheres de várias cidades do país. Eu tive a satisfação de partilhar a experiência com essas mulheres. Mulheres que têm em comum não só a experiência de sofrer o estigma da loucura feminina, mas também o uso da palavra como um remédio para suas dores. Os textos resultantes da oficina estão reunidos no “Manual Prático de Desvarios”, disponível no link abaixo:

                                           Manual Prático de Desvarios

No dia 04/12/22, no Instituto Sarath, em São Paulo, Isabela Penov fará o lançamento do livro "Compêndio para Moças de Olhares Lânguidos", resultado desse trabalho. Um programa para quem não tem medo de encarar as irracionalidades da nossa realidade e seu reflexo nos campos mais sutis como o das palavras. 


quinta-feira, 19 de maio de 2022

EU GOSTO DE SER MULHER

 
"EU GOSTO DE SER MULHER...`"
MARINA LIMA




Na semana passada eu estava dirigindo e em um programa da rádio Nova Brasil eles pediam aos ouvintes que mandassem mensagem dizendo que músicas os definiam. Imediatamente eu pensei em ”O lado quente do ser”. Há várias músicas que falam de Veras, entre elas tem "Paula e Bebeto" que é animada como eu sou, por natureza. Quando eu fazia Matemática na Ufba, me chamavam de Vera Gata por conta da música de Caetano, mas essa me define melhor. Pelo que me recordo é uma música de Marina Lima. Ainda guardo o disco vinil com capa P&B em que ela a lançou. Maria Bethânia gravou uma versão um pouco diferente, mas igualmente bonita. Também me lembrei de um fato que aconteceu em uma sapataria junto ao Forte de São Pedro. Isso se deu há uns 40 anos e à época eu morava nas proximidades. Eu cantarolava essa música enquanto experimentava uma sandália e a pessoa que me atendia perguntou se eu sempre cantava. Eu lhe respondi que sim e que quando não estava bem, eu cantava  músicas tristes. Não é verdade. Eu adoraria, mas não é  verdade. A tristeza muitas vezes me emudece. Nas piores fases não escrevo, não leio e, obviamente, não canto.  Por vezes sequer ligo o rádio do carro.  
Chico Buarque definiu muito bem esse estado em Roda Viva: ”Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...”. É uma pena que eu me concentre mais no início da música e não no seu refrão que afirma que o mundo roda em um instante. Mas faço sessões de musicoterapia e já aconteceu de  sair melhor apenas ao ouvir o profissional dedilhando uma canção qualquer ao violão, porque a minha miopia mental a apagara do horizonte, e foi renovador conseguir corrigir o foco. Por isso sou muito grata aos musicoterapeutas Luiz Flávio Prado e Renan Ribeiro.  
Ahh, eu gosto de sua uma mulher que mostra mais o que sente, mas nunca quis ser bailarina. A minha grande frustração é não ser cantora. E nem precisaria ser tão maravilhosa quanto Marisa Monte, bastava que ao cantar eu me transportasse para um vilarejo onde pudesse andar e voar!


PRA ACALMAR O CORAÇÃO, LÁ O MUNDO TEM RAZÃO..."
Marisa Monte


 



domingo, 31 de outubro de 2021

HALLOWEEN NO BRASIL?

 


O texto abaixo foi escrito e publicado no jornal estudantil "Lente Azul", no Cefet-Ba em outubro de 2004:. Eu o republico aqui porque ainda me parece atual.

HALLOWEEN NO BRASIL

Conhecer, sim. Imitar, não. Na entrada do Supermercado Bom Preço do Canela, existia uma loja com um pequeno letreiro onde estava escrito “SEW & HEEL (QUICK)’. Achei curioso encontra, na Bahia, uma loja com o nome totalmente em Inglês e me perguntava quem procuraria os seus serviços, uma vez que a grande maioria da população brasileira mal sabe ler. Depois de algum tempo, voltei ao local e vi queo letreiro da loja fora substituído por dois maiores que continham a expressão “Sapataria do futuro”. É bom explicar que o verbo “to sew” significa costurar, que “Heel” significa salto e “Quick”, observem bem, não “Qwik”, pretendia expressar que o serviço era rápido. Eis um letreiro cuja mensagem não cumpria o seu objetivo de informar e persuadir. Sempre conto essa pequena história e pergunto aos meus alunos se eles procurariam a loja caso lessem o primeiro letreiro ao que me respondem que não, por não saberem de que se trata. Olhem que eu faço a pergunta para estudantes do Ensino Médio ou de Cursos Profissionalizantes. Imaginem o que significa tal letreiro para a grande parte da população baiana, que não teve as oportunidades educativas deles. Essa é um bom exemplo do uso da língua estrangeira como elemento de exclusão social. Como professor Pasquale Neto, concordo que palavras em idiomas estrangeiros devem ser usadas quando não há equivalentes na língua portuguesa. A uso da língua é um dos elementos que definem a nossa identidade pessoal, a nossa identidade cultural e os nossos valores. Não se trata aqui de defender a proibição do uso de estrangeirismos, mas sim de evitá-los sempre que possível., visando melhorar a qualidade de nossa comunicação e valorizar a nossa cultura. Como professora de inglês compreendo que posso contribuir para o entendimento do mundo globalizado, onde o inglês é a língua de uso corrente, mas não considero ser de minha responsabilidade fomentar o estímulo ao seu uso em situações desnecessárias e até prejudiciais. Do mesmo modo, distingo bastante a necessidade de conhecimento de línguas estrangeiras daquele de importação de palavras e valores culturais estrangeiros. Porque ensino inglês, não vou “americanizar” os estudantes. Pelo contrário, sempre lhes propicio leituras e discussões que permitam uma análise crítica da realidade da superpotência do mundo atual, a exemplo do livro “Stupid White Man – uma nação de idiotas” de Michael Moore, um dos mais ferozes críticos atuais do estilo de vida americano (American way of life) cujos filmes “Booling for Columbine” (Tiros em Columbine) e Fahrenheit 11/09 foram bastante premiados nos últimos anos. Por tudo dito anteriormente, nunca promovi ou estimulei as iniciativas de halloween em nenhuma das escolas em que lecionei. Para aqueles que não conhecem a festa, trata-se da celebração, nos EUA, do dia das bruxas na véspera do Dia de Todos os Santos, na qual enfeitam-se as casas com abóboras ocas, e crianças vestidas de bruxas ou de outras figuras assustadoras visitam as casas, pedindo doces e ameaçando fazer malvadezas caso não sejam atendidas. Programo, para as últimas semanas de outubro, a leitura e discussão, em aula, do ensaio de Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja de 06/11/96, cujo tema é belissimamente abordado: ”festejar halloween no Brasil é coisa de basbaques. Assim como saborear ”vanila”, vender “off”, despachar “delivery’. É coisa de imitadores. Ainda se fosse para imitar o que a civilização americana tem de fundamental, como o respeito à lei e á ética do trabalho, vá lá”, diz ele. Temos uma cultura muito rica e pouco valorizada, e não compreendo o sentido educativo de apenas reproduzi um evento cultural de outro país. Além do que, não se fala inglês só nos Estados Unidos, quase todo o sul da África fala esse idioma e, considerando a origem dos nossos ancestrais, seria mais sensato buscarmos conhecer, não imitar, as expressões culturais desses países. Querem fazer, não um Song Fest, mas um Festival de Música, um ciclo de filmes instigantes em língua inglesa, uma festa com reisado, capoeira e forró? Contem comigo. Mas se a proposta é holloween, como dizem os estudantes no nosso português da oralidade: “Tô fora!”