quinta-feira, 16 de outubro de 2025
ESCAMAS QUEBRARAM AS MINHAS VIDRAÇAS
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
MEMÓRIAS DE UMA PROFESSORINHA OU NA ESTANTE DE PANDORA
sábado, 8 de março de 2025
DIA 8 DE MARÇO OU DIA DO CANSAÇO
sábado, 17 de agosto de 2024
HEI, VOCÊ AÍ! ME DÁ UM DINHEIRO AÍ!
sábado, 10 de agosto de 2024
SÓ NOS RESTA ACOMPANHAR?
domingo, 7 de julho de 2024
À NOSSA ESPREITA
domingo, 16 de junho de 2024
FORRÓ, UM SOPRO DIVINO
FORRÓ, UM SOPRO DIVINO
Em um vídeo recém recebido (https://www.youtube.com/watch?v=4UrGfuw6GN4), Dominguinhos nos mostra cinco tipos diferentes de ritmos que são tocados durante os festejos juninos: forró pé de serra, baião, xote, arrasta pé e xaxado. Eu até consegui me lembrar do Falamansa que toca o chamado forró universitário, ao qual ele não se referiu, mas confesso que sequer consegui gravar qual deles é o embalo que tanto gosto de dançar com meu benzinho, seja em uma sala de reboco ou não. Afinal, essa matéria não passa pelo túnel nebuloso do intelecto, desliza pela via verdejante do corpo, esse mistério que me carrega e que insisto em naturalizar como se apenas uma carcaça fosse. Mas ele resiste e sela sensações e memórias: da minha aorta alçando voo enquanto deslizo na pista, conduzida por suas mãos com aqueles seus dedos beijando os meus como colibri em pétala recém orvalhada, do meu quadril que tenta avançar entre suas pernas exatos 2,25cm a cada toque da zabumba... Ahhh, e de sua voz ecoando em meu ouvido, acompanhando a música daquele jeito desafinado e gostoso, distoante não porque é experimentação bossanovista, mas porque é carimbo dessa marca registrada que é só sua. E tem a memória de mim também. De me dizer: “Veja, Vera, ele tá tão feliz!”; “Ele também faz seu movimento pra se roçar em você, e requebra, requebra, requebra macio”; “Sinta bem, registre o momento, guarde a sensação de que ele requebra nesse compasso de alegria que, com a caneta dos pés, traça a frase: “Olha, que isso aqui tá muito bom, isso aqui tá bom demais...”
E no almoço do dia seguinte, quando nossa filha pergunta como
foi a reza pra Santo Antônio e o forró que a seguiu, lembro do Sto Antônio que ele me deu em um nicho com florzinhas de metalacê eo bilhete: "Você tem muito a agradecer a ele!" Mas é nesse momento que ele me desafia: “Qual foi mesmo a música
de que eu mais gostei, ontem?” Eu saio correndo desesperada a pesquisar e lhe
respondo sem qualquer certeza, achando que dei um chute que no máximo vai bater na trave:
“Debaixo do barro do chão da pista onde se dança, suspira uma
sustança, sustentada por um sopro divino...”
Nessa hora ele ri satisfeito comemorando a minha excelente
memória e sabedoria sobre esse ser incognoscível que ele é. E é claro que concordo
totalmente com essa sua conclusão, afinal não sou boba nem nada! Eu só sei
que:
Eu não sei do arrasta pé.
Eu não sei do forró pé de serra.
Eu não sei do baião.
Eu não sei do xote.
Eu não sei do xaxado
Eu só sei que estava lá. E ainda estou!
quinta-feira, 13 de junho de 2024
TIRE AS SUAS MÃOS DA MINHA PRAIA
(Lucro – Baiana System)
A luta contra o progresso desmedido, sem planejamento e
análise dos impactos econômicos, sociais, culturais e tendo como critério a sustentabilidade
não é nova e a questão está longe de ser resumida na dicotomia entre progresso
e estagnação, entre o urbano progressista e o rural bucólico e atrasado.
Trata-se de uma batalha que vale a pena ser travada se os adversários são o PROGRESSO
DESMEDIDO e o PROGRESSO RESPONSÁVEL. De fato, o que está em disputa é o crescer
desordenadamente e o crescer de modo planejado, considerando os interesses de
todas as camadas da população, minimizando os impactos ambientais etc. É essa a
questão que está em voga em várias situações contemporâneas. No Brasil de hoje,
ela é um fator de fundo quando analisamos as catástrofes no Rio Grande do Sul e
está em voga quando a maior parte da população brasileira se manifesta contra a
Proposta de Emenda Constitucional que permite o uso de nossas praia.
Em Salvador eu a observo principalmente na questão da mobilidade urbana e no uso do solo. Ao problema dos enorme engarrafamentos na cidade, os órgãos responsáveis têm respondido com viadutos por toda parte, muitas vezes construídos sobre a destruição de lindas áreas verdes. Está também demonstrada a opção de modelos de transporte ultrapassados trafegando em trechos já contemplados por outras 1possibilidades de deslocamento, a exemplo do BRT. Lembro-me bem que na campanha eleitoral para prefeito da cidade, o candidato Hilton Coelho (PSOL) enfatizava que o GLT era mais moderno e mais indicado do que o BRT para implementação na cidade. Mas o que vimos foi o BRT sendo implantado depois de anos dessa discussão, portanto com tecnologia ainda mais defasada, em local onde havia árvores centenárias, em um trajeto já percorrido por ônibus convencionais e pelo metrô, menos poluidor e mais rápido.
Já ao problema do crescimento urbano, desde que o gabarito de construção foi modificado (mudança no PDDU), quando João Henrique Carneiro era prefeito, os arranha-céus estão pululando como pústulas de sarampo na pele de crianças não vacinadas. Moro em um bairro que era caracterizado por moradias horizontais, no qual não existia um só prédio de dois andares. Hoje estamos cercados por edifícios com cerca de vinte andares, alguns deles se denominando bairro, como o Green Ville que de “green” e de “ville” não tem nada. A hipocrisia no modus operandi das empreiteiras é tão grande que têm o displante de utilizar nomes da flora e da fauna nos prédios e grupos de construções que foram construídas nos lugares onde antes havia justamente inúmeras espécies da flora e da fauna! Exemplo muito marcante disso foi o que transformou o Horto Florestal da Cidade do Salvador no famoso bairro “Cidade Jardim”, onde impera o concreto e foi tão mal dimensionados que se um morados faz uma festa, ninguém pode visitar alguém dos prédios vizinhos porque a rua vira um grande engarrafamento e não há vagas para nela estacionar. Recentemente e igualmente grave foi que escavaram o morro logo abaixo da Cidade Jardim só para construírem mais um dos “trocentos” supermercados Hiper Ideal. Afinal, tudo depende de quem está a fazer. Do poder político e aquisitivo do proponente. Não é mesmo?
Mas a grande e pior das novidades não é só que esses edifícios estão sendo cornstruídos em frente ao mar, em um projeto de tornar nossa orla igual a Copacabana, na qual não corre nenhuma brisa, é que começaram a construir no canteiro entre as duas pistas da orla, entre as pistas da Avenida Otávio Mangabeira! Cada dia que passo por lá, vou contando quantos andares já foram construídos em um deles. Comecei achando que eram 3, mas já ultrapassam 6!
Mais um exemplo que destaco é o que está prestes a acontecer na Praia do Buracão, no Rio Vermelho:
Projeção de sombras que incidiriam sobre a Praia do Buracão caso sejam construídas as três torres planejadas pela Novonor (antiga Odebrecht) no Rio Vermelho, em Salvador; doutora em química contra o projeto alerta para o risco às correntes marítimas e à ventilação da cidade — Foto: Ilustração do arquiteto Daniel Pessoa a partir de detalhes do projeto/Movimento SOS (portal Globo)
Há alguns dias, ouvi a fala do deputado Alceu Moreira, (pasmem) DO RIO GRANDE DO SUL, que teve a
brilhante ideia de pôr em votação na Câmara essa Proposta de Emenda
Constitucional denominada popularmente de PEC das PRAIAS. Vale escutar o áudio, porque
ele nem disfarça que o objetivo é liberar as praias pra especulação
imobiliária! Por que será que, entre
todos os problemas do país e, especialmente, aqueles gravíssimos do RS, essa
"ilustre excelência" está tão preocupado com isso? Matéria publicada
no UOL relara a lista de oito senadores e um governador a serem beneficiados
pela sua aprovação e que há ainda 116 vereadores, 65 prefeitos, 41 deputados
estaduais e 31 federais, 31 vice-prefeitos e 2 vice-governadores. Também podem
ser favorecidos pela eventual mudança na legislação empresas do setor
imobiliário, da agricultura e empresários que possuem imóveis nos chamados
terrenos de marinha, que pertencem à União.
Só faltou que o deputado Alceu encerrasse sua fala com a
seguinte frase:
Hotel Tambaú, uma construção particular na praia de João Pessoa, feita em 1970 para uso privado.
Essa luta é muito antiga, mas continuamos como estacas de braços dados, impedindo a boiada de passar
quinta-feira, 23 de maio de 2024
EU E VERY IMPORTANT PEOPLE
Nessa que foi a minha última viagem, tive a experiência de ir para uma SALA VIP no Aeroporto de Congonhas, a convite de uma das pessoas que viajaram comigo. Sempre detestei essa sigla VIP e me perguntava o proquê de haver pessoas muito importantes, designação que ers agravada pela constatação de que isso era um marcador de classe social. O fato é que no Brasil da pandemia, o número de pessoas desimportantes, que sempre foi enorme nesse país estremamente perverso e desigual, foi aumentando vertiginosamente (de 2019 a 2022, o IDB diminuiu 3 pontos, passando o país para a 89a. posição). Nunca perguntei nem havia parado muito para pensar como seria uma sala VIP. Só achava que teria cadeiras mais afastadas e confortáveis. Ontem eu descobri que não era apenas isso. Não foram só cadeiras o que vi. Havia vários salgadinhos, diferentes tipos de bolo e biscoitos, máquina de café, capuccino etc, geladeira com cerveja, refrigerante, água e vinho e banheiros exclusivos em um ambiente refrigerado.E pelo que me informaram, essa não era uma sala tão VIP assim. Outras são muito melhores!
O que faz com que os bancos brasileiros invistam dinheiro em montar esses espaços? Certamente tem relação com seus lucros, que estão entre os maiores do mundo! O que se dá na mente de alguns brasileiros que os faz terem a necessidade de se sentirem mais importantes nos aeroportos e em todos os lugares do país? É a herança escravrocata? O fato de termos um dos piores IDH do mundo? Não sei quando surgiram as primeira salas VIPs, mas tenho um palpite de que isso aconteceu depois que as companhia enxugaram seus serviços e preços e pessoas de estratos inferiores da sociedade passaram a ter a possibilidade de entrar em um avião. Foi isso que tanto indignou o ex-ministro Sr. Paulo Guedes, que expressou esse pensamento na sua famosa frase "Empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada!"
É muito triste acompanhar o empobrecimento de cidadãos brasileiros. Há alguns anos, quando eu voltava do trabalho, sempre encontrava um homem vendendo alguma fruta na sinaleira.Á medida que o tempo foi passando, a sua aparência foi ficando cada vez mais esquálida e sua roupa mais folgada e suja. Até que um dia eu o encontrei em um outro semáforo. Nesse dia não mais vendendo limões, mas pedindo esmolas...
Outros exemplos se deram na Boca do Rio. Eu sempre ia a um relojoeiro que tinha uma pequena loja na calçada da rua principal do fim de linha do bairro. Além de trabalhar muito bem, ele tinha um ótimo atendimento. Depois de um tempo, ele se transferiu para uma sala um andar acima, bem menor do que a anterior. Obviamente concluí que já não podia pagar o aluguel da sala anteior. Até que ao procurá-lo depois da pandemia, soube que ele tinha fechado a loja. Na semana passada perguntei a um camelô, que também conserta relógios, o qual me disse que ele havia morrido. Esse não foi o único caso que chamou a minha atenção. Na calçada dessa mesma rua, havia uma papelaria que foi reduzida à metade. Por quanto tempo ela resistirá, não sei dizer.
Tem sido quase sempre assim, exceto quando há políticas sociais que visam diminuir a pobreza. No entanto, o montante que setores como o agronegócio recebem de subsídios poderia e deveria ser usado para diminuir a enorme distância que separa aqueles considerados VIPs dos simples mortais. Não vou, hipocritamente, dizer que não gostei de ter aquelas mordomias ao meu dispor. No entanto, a equação do meu desejo não inclui a variável "Só eu posso ter".
domingo, 12 de maio de 2024
COMO SER OU NÃO SER MÃE
Amigas, boa madrugada.
Fiquei contente ao notar que provavelmente serei a primeira pessoa a lhes desejar um feliz dia das mães...
Sabem, na autobiografia de Jane Fonda - cuja leitura eu recomendo - ela diz que a lição mais difícil e importante que, se quisermos, precisaremos aprender é a de educar noss@s filh@s, No entanto, para preparar para tirar boa nota nessa tarefa tão complicada não há cursos...
Em todos os segundos domingos de maio, eu me ponho a refletir sobre o quanto ser mãe é desafiador e como, nessa sociedade machista, o ato de ser mãe se impõe como um desafio bem maior do que aquele de ser pai. São vários os exemplos dessa assimetria entre as expectativas em relação a ser mãe e a ser pai. Começa que, ao contrário do que acontece com as mulheres, ninguém questiona se o homem decide não ser pai (se ele resolve ficar solteiro, passa a ser visto como "o tal"/ "o que não quis mulher nenhuma ", enquanto ela é considerada "a rejeitada"). Mais do que sabermos, vivemos essas situações díspares rotineiramente. Porém, importa saber: com que base nos lançamos nessa aventura tão complexa que é ser mãe dentro desse ambiente patriarcal. Penso que o fazemos tendo por base não só os acertos, mas também os erros das nossas próprias mães. É a partir da vivência como filhas que decidimos se queremos ser mães e que tipo de mãe queremos ser. A minha mãe se foi nesse ano e tive o consolo de me lembrar de várias vezes lhe ter dito:
- Minha mãe, você foi uma mãe melhor do que a sua, eu sou uma melhor mãe do que você e tenho a certeza de que minha filha será uma mãe bem melhor do que eu". Acredito nisso: que a vida só vale a pena se conseguimos nos ver como setas que não atingem a mira, mas não deixam de se lançar, de voar buscando se aproximar dela. Muitas vezes vacilantes, caminhamos para dar passos mais leves, e ainda assim, firmes, visando ser e fazer melhor.
Por tudo isso, nesse ano não lhes envio uma das mensagens de praxe com flores e corações, nas quais se diz que só temos virtudes e sempre acertamos no modo como orientaram @s noss@s filh@s. Ao contrário, envio os links de um áudio com Inezita Barroso cantando a música "Mãe é dureza", do texto com o poema "Vigílias das mães" de Cecília Meireles e de um vídeo em que Elisa Lucinda recita a sua poesia "Chupetas, Punhetas, Guitarras" e um áudio do meu canal VIVERDEPOESIA no qual recito esse mesmo poema, pois todos eles observam a maternidade sobre outros pontos de vista. Desse modo, desejo que os recebam como o perfume de um buquê de jasmim aos sentidos e como a paz aos corações.
Vera Passos
terça-feira, 27 de junho de 2023
quarta-feira, 8 de março de 2023
O QUE HÁ DE MACHISMO EM MIM
Nasci de um homem muito machista casado com uma mulher de 18 anos, 13 anos mais jovem do que ela. A minha mãe era uma mulher muito forte e, em alguns assuntos, à frente do seu tempo. Essa mulher, ficou viúva com 35 anos, mas o machismo estava tão internalizado nela que consentiu que ele limitasse o seu futuro: não se permitiu viver uma nova relação, continuar os estudos e constituir uma carreira, usar roupas decotadas etc. Sei que era uma feminista, sem se permitir ser, porque aprendeu a dirigir sozinha, fotografava sem ter tido um curso e me levou ao único psicólogo da cidade para que eu fizesse terapia quando começamos a ter atrito na minha adolescência etc. Meu pai tinha poucos recursos financeiros e ela era uma herdeira de fazenda e outros bens, e, embora contrariada, deixou que ele administrasse os seus bens como bem quis. A frase que demonstrava a sua ânsia de liberdade, sua sede de ocupar um lugar no mundo menos subjugado, jamais esqueci: “Vá estudar pra não depender de homem!” Está aí o gérmen que brotou em mim o desejo de educar os meus filhos para que contribuíssem para um mundo mais igualitários entre os gêneros.
Comecei desejando que fosse uma filha a primeira criança que
eu poria no mundo, não só porque ela teria uma maior atenção de todos da
família, mas também porque temia que sendo um filho, ele se sentisse no direito
de controlar a irmã. O universo não quis facilitar as coisas para mim. Tive um
filho e só depois, uma menina. O que fiz para que ao menos a minha família não fosse
uma réplica do poder dos homens sobre mulheres? Talvez o tenha feito mais por
atitudes inconscientes do que conscientes e o maior exemplo deve ter sido a
relação de respeito que eles compartilhavam com os seus pais. Eles têm conhecimento
de que antes de o conhecer, morei sozinha desde os 18 anos, era motociclista,
viajava sozinha etc. Além disso, sabem que era 5 anos mais velha do que ele, que
dirigi antes dele, que já tinha vida sexual quando o conheci, que tomei a
iniciativa do namoro, que mantive contato com os meus amigos e alguns
ex-namorados, que o pedi em casamento depois de 25 anos de relacionamento, que
jamais permiti que ele controlasse as minhas iniciativa ou desse palpite na
minhas roupas, que manifesto tudo o que me desagrada na relação, que dividimos
as despesas, que conversamos e decidimos conjuntamente todas as coisa relativas
à família, que nos admiramos, nos encorajamos e partilhamos projetos e sonhos.
Entre as conscientes, destaco:
Não permitimos que seu irmão a desrespeitasse;
Validamos igualmente a fala e os sentimentos dos dois;
Damos suporte aos planos e anseios de ambos;
Começamos a dar mesadas a ambos desde cedo para que aprendessem a administrar algum recurso financeiro;
Requisitamos ambos a assumirem as responsabilidades pelas tarefas domésticas;
Permitimos que ela trouxesse seu namorado para dormir em seu quarto, do mesmo modo que fizemos
quando ele quis trazer a namorada;
sexta-feira, 3 de março de 2023
PROJETO MEXERAM COM TODAS
MEXERAM COM TODAS
As mulheres são alvo de violências em
todas as partes do planeta, seja na Síria, no Brasil ou no Sudão. O que muda
então? Mudam a intensidade e a forma, mas a dura realidade de ser mulher em
sociedades patriarcais não mudou ainda não.
Segundo a bíblia, o mundo foi feito
por intermédio do verbo. As coisas começam a partir da palavra: pensamos com a
palavras, sonhamos com palavras, desejamos com palavras, colocamos o desejo no
mundo através da palavra e, só depois, o que era palavra se materializa em algo
mais concreto do que ela. No entanto, a palavra pode ser veículo de utopias ou
de distopias, de opressão ou de libertação. O projeto “MEXERAM COM TODAS” tem
na palavra nas formas oral e escrita o seu instrumento transformador. Através
dela visamos encorajar mulheres a tomar consciência dos acontecimentos em que
foram desrespeitadas apenas por serem mulheres em um ambiente de machismo
estrutural, para que a partir de seus relatos, possam buscar caminhos para
trazer para o real a possibilidade de um mundo mais igualitário entre homens e
mulheres.
Nesse sentido, em agosto de 2022, realizei a realização a oficina"Escrita Terapêutica para Revelar e Combater a Violência de Gênero", no III Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE, na cidade
de Fortaleza. Nela, convidei 40
mulheres a escreverem um relato de uma situação de violência que sofreram,
misturei os textos sem identificação de autoria e os distribuí aleatoriamente.
Cadastrei todas elas em um grupo no whatsapp de nome “Mexeram com todas”
e pedi que nos enviassem áudios lendo os relatos recebidos. Desse modo, visava
estimular a sororidade em todas nós.
Para que esses relatos nao ficassem restritos ao pequeno grupo e fossem ouvidos por pessoas de todos os gêneros iniciei a Etapa 2 do projeto "Mexeram com Todas". Assim, para marcar esse Mês da
Mulher de 2023, de uma forma menos folclórica e mais reflexiva, em cada um dos
seus 31 dias, um relato está sendo
divulgado sem identificação da autoria do texto nem da voz que o lê. Penso que essa é uma boa iniciativa para
marcar a necessidade de luta pelos direitos da mulher, tão ameaçados nos
últimos anos, inclusive com o aumento do número de feminicídios. Considero que, mais do que engrandecer a
beleza e força femininas, é necessário que outras mulheres que sofreram ou sofrem
abusos se fortaleçam para denunciá-los, deixando claro que a dor de uma de nós
mobiliza a nossa dor, assim como a força de uma fortalece todas. Os podcasts com os relatos podem ser ouvidos no Spotify. Sua repercussão sinaliza que é preciso dar continuidade a ele, orientando novas oficinas e, com a permissão das
participantes, tornando público os seus resultados. A quem considerar relevante a iniciativa, solicito que participem do projeto, seja enviando textos, gravando outros ou apenas divulgando o projeto.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2023
UM NÃO QUE ERA SIM?
A paixão entre nós era conhecida na cidade. Lembro de uma conversa entre meu pai e cerca de oito amigos na sala de nossa casa, em que me diziam: com o filho de (nome do pai dele), não.Você pode namorar com o filho de Fulano ou Beltrano, ambos, obviamente, amigos do meu pai e presentes na sala. A mim restava apenas ouvir. Só a perplexidade com os comentários era diferente naquele meu hábito de só ouvir.
A tecnologia foi tornando cada vez mais fácil uma comunicação entre nós. E eu confesso que gostaria de lhe perguntar sobre o que foi para ele aquela experiência tão ingênua, de talvez rirmos juntos dos costumes da época etc. Tenho uma curiosidade de saber como o outro me via, que impressão tinha da minha realidade, como interpretava o meu comportamento... Talvez isso se dê só por uma necessidade de conhecer o meu passado para melhor compreender a argamassa que compõe as paredes que dão sustentação àquilo que sou hoje. Há muito sei que aquela pessoa não combinava com o ideal de companhia que, já naquela época, eu queria para mim. Mas ainda acho estranho não ser possível sequer uma conversa amigável, com uma pessoa que por anos foi o motivo dos meus suspiros juvenis.
segunda-feira, 28 de novembro de 2022
A LOUCURA DAS PALAVRAS
Se substituída por um sinônimo, uma palavra nem sempre tem o
mesmo significado. Ele pode sugerir outro sentido, algumas nuances a mais,
mudar a intensidade, soar estranho etc. É isso o que acontece com “histeria”.
Qualquer busca, seja em dicionário físico ou virtual, vai te levar a sinônimos
como “nervosismo”, mas os exemplos serão quase todos no feminino. Quando você
escutou a frase: “Ele está histérico!”? Compare com a frequência com que ouviu
a mesma expressão associada às mulheres. E convenhamos, dizer que alguém está
nervoso não tem o mesmo peso que dizer que essa pessoa está histérica, não é
mesmo?
Na antiguidade, o termo “histeria” foi cunhado a partir da
palavra “útero” e em seu livro “Estudos sobre a histeria”, Freud apresenta os resultados
de estudos com 5 pacientes: Anna, Elisabeth, Emmy, Lucy e Katharina. O livro
foi publicado em 1895 e desde então, embora o conceito psicanalítico da
histeria tenha evoluído bastante, até hoje o adjetivo correspondente continua sendo
associado às mulheres. Por que isso se dá? Certamente não é só pelo
desconhecimento da evolução desses estudos, mas porque não houve tanta evolução
no modo como é avaliado e controlado o comportamento feminimo.
As mulheres não ficavam simplesmente nervosas, ficavam
histéricas. E sendo a histeria considerada uma patologia era fácil recorrer à
internação para conter seus comportamento e corpos considerados socialmente inapropriados.
Esse é o tema de projeto da poeta
Isabela Penov, aprovado pelo Itaú Cultural. Isabela fez uma pesquisa em arquivos
de manicômios brasileiros dos últimos 100 anos nos quais observou que os diagnósticos
e internações de mulheres eram feitos tendo como base os relatos de seus pais,
maridos e irmãos. O projeto incluiu uma live em que a psicanalista Monik
Sittoni discutiu a relação entre o feminino e a Psicanálise e outra de título “Mulheres
no Avesso da Razão” com as escritoras Micheliny Verunschk e Yonina Staseviska,
além de uma oficina de escrita com mulheres de várias cidades do país. Eu tive
a satisfação de partilhar a experiência com essas mulheres. Mulheres que têm em comum não só a experiência de sofrer o estigma da loucura feminina, mas também o uso da palavra como um remédio para suas dores. Os textos resultantes
da oficina estão reunidos no “Manual Prático de Desvarios”, disponível no link abaixo:
No dia 04/12/22, no Instituto Sarath, em São Paulo, Isabela
Penov fará o lançamento do livro "Compêndio para Moças de Olhares Lânguidos", resultado desse trabalho. Um programa
para quem não tem medo de encarar as irracionalidades
da nossa realidade e seu reflexo nos campos mais sutis como o das palavras.
quinta-feira, 19 de maio de 2022
EU GOSTO DE SER MULHER
domingo, 31 de outubro de 2021
HALLOWEEN NO BRASIL?
O texto abaixo foi escrito e publicado no jornal estudantil "Lente Azul", no Cefet-Ba em outubro de 2004:. Eu o republico aqui porque ainda me parece atual.
HALLOWEEN NO BRASIL
Conhecer, sim. Imitar, não. Na entrada do Supermercado Bom Preço do Canela, existia uma loja com um pequeno letreiro onde estava escrito “SEW & HEEL (QUICK)’. Achei curioso encontra, na Bahia, uma loja com o nome totalmente em Inglês e me perguntava quem procuraria os seus serviços, uma vez que a grande maioria da população brasileira mal sabe ler. Depois de algum tempo, voltei ao local e vi queo letreiro da loja fora substituído por dois maiores que continham a expressão “Sapataria do futuro”. É bom explicar que o verbo “to sew” significa costurar, que “Heel” significa salto e “Quick”, observem bem, não “Qwik”, pretendia expressar que o serviço era rápido. Eis um letreiro cuja mensagem não cumpria o seu objetivo de informar e persuadir. Sempre conto essa pequena história e pergunto aos meus alunos se eles procurariam a loja caso lessem o primeiro letreiro ao que me respondem que não, por não saberem de que se trata. Olhem que eu faço a pergunta para estudantes do Ensino Médio ou de Cursos Profissionalizantes. Imaginem o que significa tal letreiro para a grande parte da população baiana, que não teve as oportunidades educativas deles. Essa é um bom exemplo do uso da língua estrangeira como elemento de exclusão social. Como professor Pasquale Neto, concordo que palavras em idiomas estrangeiros devem ser usadas quando não há equivalentes na língua portuguesa. A uso da língua é um dos elementos que definem a nossa identidade pessoal, a nossa identidade cultural e os nossos valores. Não se trata aqui de defender a proibição do uso de estrangeirismos, mas sim de evitá-los sempre que possível., visando melhorar a qualidade de nossa comunicação e valorizar a nossa cultura. Como professora de inglês compreendo que posso contribuir para o entendimento do mundo globalizado, onde o inglês é a língua de uso corrente, mas não considero ser de minha responsabilidade fomentar o estímulo ao seu uso em situações desnecessárias e até prejudiciais. Do mesmo modo, distingo bastante a necessidade de conhecimento de línguas estrangeiras daquele de importação de palavras e valores culturais estrangeiros. Porque ensino inglês, não vou “americanizar” os estudantes. Pelo contrário, sempre lhes propicio leituras e discussões que permitam uma análise crítica da realidade da superpotência do mundo atual, a exemplo do livro “Stupid White Man – uma nação de idiotas” de Michael Moore, um dos mais ferozes críticos atuais do estilo de vida americano (American way of life) cujos filmes “Booling for Columbine” (Tiros em Columbine) e Fahrenheit 11/09 foram bastante premiados nos últimos anos. Por tudo dito anteriormente, nunca promovi ou estimulei as iniciativas de halloween em nenhuma das escolas em que lecionei. Para aqueles que não conhecem a festa, trata-se da celebração, nos EUA, do dia das bruxas na véspera do Dia de Todos os Santos, na qual enfeitam-se as casas com abóboras ocas, e crianças vestidas de bruxas ou de outras figuras assustadoras visitam as casas, pedindo doces e ameaçando fazer malvadezas caso não sejam atendidas. Programo, para as últimas semanas de outubro, a leitura e discussão, em aula, do ensaio de Roberto Pompeu de Toledo na revista Veja de 06/11/96, cujo tema é belissimamente abordado: ”festejar halloween no Brasil é coisa de basbaques. Assim como saborear ”vanila”, vender “off”, despachar “delivery’. É coisa de imitadores. Ainda se fosse para imitar o que a civilização americana tem de fundamental, como o respeito à lei e á ética do trabalho, vá lá”, diz ele. Temos uma cultura muito rica e pouco valorizada, e não compreendo o sentido educativo de apenas reproduzi um evento cultural de outro país. Além do que, não se fala inglês só nos Estados Unidos, quase todo o sul da África fala esse idioma e, considerando a origem dos nossos ancestrais, seria mais sensato buscarmos conhecer, não imitar, as expressões culturais desses países. Querem fazer, não um Song Fest, mas um Festival de Música, um ciclo de filmes instigantes em língua inglesa, uma festa com reisado, capoeira e forró? Contem comigo. Mas se a proposta é holloween, como dizem os estudantes no nosso português da oralidade: “Tô fora!”















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