sábado, 8 de março de 2025
DIA 8 DE MARÇO OU DIA DO CANSAÇO
Nada contra receber flores e cartões elogiosos de felicitações. Tudo contra o fato de que o dia das mulheres seja traduzido e festejado dessa maneira. Contra constantemente me lembrarem do quão guerreira sou. Preciso ser, dentre outras coisas, para encarar, cotidianamente, manifestações machistas. Não quero precisar responder a todas elas, não suporto ter que me manifestar contra elas todas as vezes em que sou desrespeitada. Em um dado momento só fico triste, em nada contribuo para que a outra pessoa se perceba preconceituosa e, quem sabe, repense sua conduta nessa sociedade onde o patriarcado parece o ar que se respira desde o surgimento da vida no planeta. Que nos cabe, para não morrer asfixiadas, respirar o machismo nosso de cada dia.
Não é preciso dar exemplos, bem sei, mas o faço, talvez para que não me esqueça dessas situações e de que tive disposição e coragem para me manifestar a respeito, para não me curvar e expor melhor o lombo à chicotada. Mas então, vamos lá. Ouvi gritos de 4 homens nesses últimos 15 dias:
Um deles gritou me mandando voltar para casa. Era um cambista que me oferecia seus ingressos pelo dobro do preço, a quem eu ousei responder: "Deus me livre!" Possivelmente eu deveria dizer: "Só isso? Desculpe-me senhor, mas não tenho condições de comprar o ingresso que você oferece". Eu me voltei e gritei dizendo que ele não me conhecia, que me devia respeito, que eu ia pra onde quisesse e apontei o carro da polícia próxima a nós. Claro que eu tinha conhecimento de que os policiais iriam rir, me ridicularizar e até intimidar se os procurasse. Assim fizeram em uma ocasião em que chamei os policiais, quando estava sendo agredida por ter entrado em defesa de uma moça negra e humilde que estava sendo desrespeitada por um homem branco, rico e arrogante.
O segundo exemplo foi de outro senhor que passava uma quantidade enorme de compras em um caixa onde só era permitida a compre de 30 itens. Quando reclamei, esse me respondeu que estava pagando, que fazia o que queria e que eu me calasse. Obviamente, revoltada, lhe disse que eu não iria me calar, mas confesso que, pela sua agressividade, temi receber um soco na cara.
O terceiro foi um guardador que me chamou a ocupar uma vaga e depois me cobrou o estacionamento antecipadamente. Eu lhe disse que nunca fazia isso e que pagaria no retorno. Ele respondeu: “É, eu tenho que confiar em você e você não pode confiar em mim”! Sabemos que, na minha volta, o meu carro estaria lá, mas ele poderia estar ou não. "Vá então pra zona azul", disse ele. Afirmei: "Vou sim, sem problemas"! (e veja que sempre dou preferência a estacionar em uma vaga onde o pagamento não vai pra prefeitura, mas pra quem está trabalhando no local). Porém, achei que não devia voltar ao carro e estacionar mais á frente, fazendo exatamente o que ele mandou. Como insistisse nesse discurso, terminei usando o argumento que detesto: a rua é pública, então posso estacionar nela quando desejar. Ele continuou retrucando, enquanto eu saía. Na volta, já temendo o encontro com ele, confesso que temi ver o meu carro arranhado ou com os pneus furados. Mas verifiquei que estava no mesmo estado. No entanto, como previ, ele já não estava lá.
O último foi de um atendente de uma loja na qual compro regularmente há anos. É um ótica pequena em que atendem ele e sua mãe. A data de entrega dos meus óculos já tinha expirado há tempos, eu já tinha ido várias vezes lá sem sucesso e, em duas dessas vezes ele tomou o meu endereço garantindo que entregaria a mercadoria no mesmo dia. Quando lhes disse que me aborrecia a demora tão longa, que eu já tinha ido lá inúmeras vezes, ele começou a gritar: “Se o laboratório não entrega, eu não posso fazer nada!”. Lembrei-me de que em uma das vezes anteriores eu tinha respondido que, se o laboratório não cumpre os prazos, seria melhor eles trabalharem com outros profissionais. Como ele continuasse aos berros, eu lhe disse que observasse a diferença entre o meu tom de voz e o dele. Depois lhe falei que baixasse o tom de voz comigo. Como ele continuou, eu passei a repetir: “Eu não ouço grito de meu marido, não vou ouvir de você!”. Foi aí que sua mãe veio botar panos quentes, me pedir desculpas, dizer que ele estava nervoso etc etc. Saí pensando na minha resposta. Será que não havia uma admissão de que eu poderia sim ouvir gritos do meu marido, pelo simples fato dele ter esse status? Cheguei â conclusão de que não. Não só porque este nunca me gritou, mas também por o amar profundamente e saber que é um dos homens menos machistas que conheço. Sendo assim, seria mais tolerável aceitar as suas desculpas se o fizesse.
Mas as coisas não são simples assim. Ainda hoje precisei observar o machismo nele!
Vejam como começou o meu dia 8 de março: quando tomávamos nosso café, eu lhe disse que bebesse da água que estava nas garrafas na geladeira, porque eu decidira utilizar o restante de um botijão de água mineral que sobrara de nossa viagem no carnaval. Ele reclamou dizendo que eu deveria ter deixado lá no garrafão, já aberto. Foi quando lhe informei que água parada assim estraga e que eu tinha feito isso para não perdermos a água, esse bem tão valioso. Ele disse que eu estava enganada. Eu poderia até lembra-lo das pesquisas de Pasteur, mas não o fiz. Ao contrário, aromatizei a água com limão e hortelã e lhe perguntei se estava satisfeito. Daí, subi para reescrever um texto e fui surpreendida por ele, dizendo que havia consultado o Google e visto que em água mineral não havia cloro, por isso ela estava mais susceptível a estragar. Eu retruquei: "Não lhe disse"? Ele justificou sua atitude por reconhecer o erro (como se isso fosse um grande e difícil ato), falou algumas bobagens e encerrou a conversa dizendo: "Viu? Aprenda!" e quase bateu em retirada.
Essa última história me parece bastante emblemática. Primeiro porque se passou em minha casa e o protagonista foi um exemplar bem melhorado dos homens, exatamente aquele que escolhi muito cuidadosamente para me casar. Observemos:
- Não era preciso dizer que pedir desculpas é algo nobre, porque essa é justamente uma das atitudes que fazemos em excesso, ensinadas que fomos a de achar que quase tudo é de nossa, senão culpa, responsabilidade,
- As falas das mulheres são postas em dúvida com maior frequência;
- Ele tentou encerrar uma conversa me ensinando o que já sei.
Claro que eu lhe chamei de volta pra mostrar o que acabara de fazer, ao que ele não respondeu com a admissão de uma conduta autoritária, mas com um sorriso que interpreto como: “Isso é engraçado”.
Há um ponto ainda importante relacionado ao tratamento machista que recebi no início do dia de hoje. Depois do ocorrido, decidi fazer um áudio contando o caso e o enviar para os grupos dos quais participo, ou seja, para cerca de 700 pessoas, sendo a maioria mulheres. O triste não foi verificar que menos de 10 mulheres responderam a mensagem discutindo o que relatei ou contando experiencias semelhantes, mas que a grande maioria respondeu me enviando mensagens com rosas e cartões elogiosos de felicitações!
ASSIM CAMINHA A SORORIDADE, COM PASSOS DE FORMIGA E SEM VONTADE!
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Comadre a sua sensibilidade é extraordinária e ao externá-la com um fundo de poesia da vida diária você desperta em mim olhares que muitas vezes me passam despercebidos, obrigada pela aula, obrigada por limpar as minhas lentes, não pare nunca de escrever que um dia a gente lê
ResponderExcluirNorma Souza de Oliveira
ExcluirExcelente! 👏
ResponderExcluirAcho que dia do cansaço combina muito bem.
Parabéns!
Esses são exemplos diários de seu ponto de vista. E mais comuns do que imaginamos.
ResponderExcluirOi Vera querida, eu demoro para visualizar as mensagens divulgadas, suas e de outras( os), mas admiro- a como escritora/poeta! Seus textos são fantásticos e nos fazem refletir sobre assuntos do cotidiano, que muitas vezes nos envolvem e não temos o seu olhar realista. Obrigada amiga por nos enviar conteúdos, como este! Abraços!
ResponderExcluirBoa tarde Vera !
ResponderExcluirLi e reli o seu texto ..
Sua escrita diz muito de mim, das minhas inquietações no caminhar dessa existência .
Grata pela reflexão