quinta-feira, 13 de junho de 2024

TIRE AS SUAS MÃOS DA MINHA PRAIA


"Tire as construções de minha praia, não consigo respirar.
As meninas de mini saia, não conseguem respirar
Especulação imobiliária e o petróleo em alto mar..."

                                                                        (Lucro – Baiana System)

A luta contra o progresso desmedido, sem planejamento e análise dos impactos econômicos, sociais, culturais e tendo como critério a sustentabilidade não é nova e a questão está longe de ser resumida na dicotomia entre progresso e estagnação, entre o urbano progressista e o rural bucólico e atrasado. Trata-se de uma batalha que vale a pena ser travada se os adversários são o PROGRESSO DESMEDIDO e o PROGRESSO RESPONSÁVEL. De fato, o que está em disputa é o crescer desordenadamente e o crescer de modo planejado, considerando os interesses de todas as camadas da população, minimizando os impactos ambientais etc. É essa a questão que está em voga em várias situações contemporâneas. No Brasil de hoje, ela é um fator de fundo quando analisamos as catástrofes no Rio Grande do Sul e está em voga quando a maior parte da população brasileira se manifesta contra a Proposta de Emenda Constitucional que permite o uso de nossas praia.

Em Salvador eu a observo principalmente na questão da mobilidade urbana e no uso do solo. Ao problema dos enorme engarrafamentos na cidade, os órgãos responsáveis têm respondido com viadutos por toda parte, muitas vezes construídos sobre a destruição de lindas áreas verdes. Está também demonstrada a opção de modelos de transporte ultrapassados   trafegando em trechos já contemplados por outras 1possibilidades de deslocamento, a exemplo do BRT. Lembro-me bem que na campanha eleitoral para prefeito da cidade, o candidato Hilton Coelho (PSOL) enfatizava que o GLT era mais moderno e mais indicado do que o BRT para implementação na cidade. Mas o que vimos foi o BRT sendo implantado depois de anos dessa discussão, portanto com tecnologia ainda mais defasada, em local onde havia árvores centenárias, em um trajeto já percorrido por ônibus convencionais e pelo metrô,  menos poluidor e mais rápido.

Já ao problema do crescimento urbano, desde que o gabarito de construção foi modificado (mudança no PDDU), quando João Henrique Carneiro era prefeito, os arranha-céus estão pululando como pústulas de sarampo na pele de crianças não vacinadas. Moro em um bairro que era caracterizado por moradias horizontais, no qual não existia um só prédio de dois andares. Hoje estamos cercados por edifícios com cerca de vinte andares, alguns deles se denominando bairro, como o Green Ville que de “green” e de “ville” não tem nada. A hipocrisia no modus operandi das empreiteiras é tão grande que têm o displante de utilizar nomes da flora e da fauna nos prédios e grupos de construções que foram construídas nos lugares onde antes havia justamente inúmeras espécies da flora e da fauna! Exemplo muito marcante disso foi o que transformou o Horto Florestal da Cidade do Salvador no famoso bairro “Cidade Jardim”, onde impera o concreto e foi tão mal dimensionados que se um morados faz uma festa, ninguém pode visitar alguém dos prédios vizinhos porque a rua vira um grande engarrafamento e não há vagas para nela estacionar. Recentemente e igualmente grave foi que escavaram o morro logo abaixo da Cidade Jardim só para construírem mais um dos “trocentos” supermercados Hiper Ideal. Afinal, tudo depende de quem está a fazer. Do poder político e aquisitivo do proponente. Não é mesmo?

Mas a grande e pior das novidades não é só que esses edifícios estão sendo cornstruídos em frente ao mar, em um projeto de tornar nossa orla igual a Copacabana, na qual não corre nenhuma brisa, é que começaram a construir no canteiro entre as duas pistas da orla, entre as pistas da Avenida Otávio Mangabeira! Cada dia que passo por lá, vou contando quantos andares já foram construídos em um deles. Comecei achando que eram 3, mas já ultrapassam 6!

Mais um exemplo que destaco é o que está prestes a acontecer na Praia do Buracão, no Rio Vermelho:

Projeção de sombras que incidiriam sobre a Praia do Buracão caso sejam construídas as três torres planejadas pela Novonor (antiga Odebrecht) no Rio Vermelho, em Salvador; doutora em química contra o projeto alerta para o risco às correntes marítimas e à ventilação da cidade — Foto: Ilustração do arquiteto Daniel Pessoa a partir de detalhes do projeto/Movimento SOS (portal Globo)

Há alguns dias, ouvi a fala do deputado Alceu Moreira,  (pasmem) DO RIO GRANDE DO SUL, que teve a brilhante ideia de pôr em votação na Câmara essa Proposta de Emenda Constitucional denominada popularmente de PEC das PRAIAS. Vale escutar o áudio, porque ele nem disfarça que o objetivo é liberar as praias pra especulação imobiliária!  Por que será que, entre todos os problemas do país e, especialmente, aqueles gravíssimos do RS, essa "ilustre excelência" está tão preocupado com isso? Matéria publicada no UOL relara a lista de oito senadores e um governador a serem beneficiados pela sua aprovação e que há ainda 116 vereadores, 65 prefeitos, 41 deputados estaduais e 31 federais, 31 vice-prefeitos e 2 vice-governadores. Também podem ser favorecidos pela eventual mudança na legislação empresas do setor imobiliário, da agricultura e empresários que possuem imóveis nos chamados terrenos de marinha, que pertencem à União.

Só faltou que o deputado Alceu encerrasse sua fala com a seguinte frase:

 "Vamos aproveitar que está todo mundo ligado nessa tragédia e passar a boiada dos arranha-céus!”


                        Hotel Tambaú, uma construção particular na praia de João Pessoa, feita em 1970 para uso privado.

Essa luta é muito antiga, mas continuamos como estacas de braços dados, impedindo a boiada de passar

quinta-feira, 23 de maio de 2024

EU E VERY IMPORTANT PEOPLE

Nessa que foi a minha última viagem, tive a experiência de ir para uma SALA VIP no Aeroporto de Congonhas, a convite de uma das pessoas que viajaram comigo. Sempre detestei essa sigla VIP e me perguntava o proquê de haver pessoas muito importantes, designação que ers agravada pela constatação de que isso era um marcador de classe social. O fato é que no Brasil da pandemia, o número de pessoas desimportantes, que sempre foi enorme nesse país estremamente perverso e desigual, foi aumentando vertiginosamente (de 2019 a 2022, o IDB diminuiu 3 pontos, passando o país para a 89a. posição). Nunca perguntei nem havia parado muito para pensar como seria uma sala VIP. Só achava que teria cadeiras mais afastadas e confortáveis. Ontem eu descobri que não era apenas isso. Não foram só cadeiras o que vi. Havia vários salgadinhos, diferentes tipos de bolo e biscoitos,  máquina de café, capuccino etc, geladeira com cerveja, refrigerante, água e vinho e banheiros exclusivos em um ambiente refrigerado.E pelo que me informaram, essa não era uma sala tão VIP assim. Outras são muito melhores!

O que faz com que os bancos brasileiros invistam dinheiro em montar esses espaços? Certamente tem relação com seus lucros, que estão entre os maiores do mundo! O que se dá na mente de alguns brasileiros que os faz terem a necessidade de se sentirem mais importantes nos aeroportos e em todos os lugares do país? É a herança escravrocata? O fato de termos um dos piores IDH do mundo? Não sei quando surgiram as primeira salas VIPs, mas tenho um palpite de que isso aconteceu depois que as companhia enxugaram seus serviços e preços e pessoas de estratos inferiores da sociedade passaram a ter a possibilidade de entrar em um avião. Foi isso que tanto indignou o ex-ministro Sr. Paulo Guedes, que expressou esse pensamento na sua famosa frase "Empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada!"

É muito triste acompanhar o empobrecimento de cidadãos brasileiros. Há alguns anos, quando eu voltava do trabalho, sempre encontrava um homem vendendo alguma fruta na sinaleira.Á medida que o tempo foi passando, a sua aparência foi ficando cada vez mais esquálida e sua roupa mais folgada e suja. Até que um dia eu o encontrei em um outro semáforo. Nesse dia não mais vendendo limões, mas pedindo esmolas...

Outros exemplos se deram na Boca do Rio. Eu sempre ia a um relojoeiro que tinha uma pequena loja na calçada da rua principal do fim de linha do bairro. Além de trabalhar muito bem, ele tinha um ótimo atendimento. Depois de um tempo, ele se transferiu para uma sala um andar acima, bem menor do que a anterior. Obviamente concluí que já não podia pagar o aluguel da sala anteior. Até que ao procurá-lo depois da pandemia, soube que ele tinha fechado a loja. Na semana passada perguntei a um camelô, que também conserta relógios, o qual me disse que ele havia morrido. Esse não foi o único caso que chamou a minha atenção. Na calçada dessa mesma rua, havia uma papelaria que foi reduzida à metade. Por quanto tempo ela resistirá, não sei dizer.  

Tem sido quase sempre assim, exceto quando há políticas sociais que visam diminuir a pobreza. No entanto, o montante que setores como o agronegócio recebem de subsídios poderia e deveria ser usado para diminuir a enorme distância que separa aqueles considerados VIPs dos simples mortais. Não vou, hipocritamente, dizer que não gostei de ter aquelas mordomias ao meu dispor. No entanto, a equação do meu desejo não inclui a variável "Só eu posso ter".

domingo, 12 de maio de 2024

COMO SER OU NÃO SER MÃE

 Amigas, boa madrugada.

Fiquei contente ao notar que provavelmente serei a primeira pessoa a lhes desejar um feliz dia das mães... 

Sabem, na autobiografia de Jane Fonda - cuja leitura eu recomendo - ela diz que a lição mais difícil e importante que, se quisermos, precisaremos aprender é a de educar noss@s filh@s, No entanto, para preparar para tirar boa nota nessa tarefa tão complicada não há cursos...

Em todos os segundos domingos de maio, eu me ponho a refletir sobre o quanto ser mãe é desafiador e como, nessa sociedade machista,  o ato de ser mãe se impõe como um desafio bem maior do que aquele de ser pai. São vários os exemplos dessa assimetria entre as expectativas em relação a ser mãe e a ser pai. Começa que, ao contrário do que acontece com as mulheres, ninguém questiona se o homem decide não ser pai (se ele resolve ficar solteiro,  passa a ser visto como "o tal"/ "o que não quis mulher nenhuma ", enquanto ela é considerada  "a rejeitada").  Mais do que sabermos, vivemos essas situações díspares rotineiramente. Porém, importa saber: com  que base nos lançamos nessa aventura tão complexa que é ser mãe dentro desse ambiente patriarcal. Penso que o fazemos tendo por base não só os acertos, mas também os erros das nossas próprias mães. É a partir da vivência como filhas que decidimos se queremos ser mães e que tipo de mãe queremos ser. A minha mãe se foi nesse ano e tive o consolo de me lembrar de várias  vezes lhe ter dito: 

- Minha mãe, você foi uma mãe melhor do que a sua,  eu sou uma melhor mãe do que você e tenho a certeza de que minha filha será uma mãe bem melhor do que eu".  Acredito nisso: que a vida só vale a pena se conseguimos nos ver como setas que não atingem a mira, mas não deixam de se lançar, de voar buscando  se aproximar dela. Muitas vezes vacilantes, caminhamos para dar passos mais leves, e ainda assim, firmes, visando ser e fazer melhor.

Por tudo isso, nesse ano não lhes envio uma das mensagens de praxe com flores e corações, nas quais se diz que só temos virtudes e sempre acertamos no modo como orientaram @s noss@s filh@s. Ao contrário,  envio os links de um áudio com Inezita Barroso cantando a música "Mãe é dureza", do texto com o poema "Vigílias das mães" de Cecília Meireles e de um vídeo em que Elisa Lucinda  recita a sua poesia "Chupetas, Punhetas, Guitarras" e um áudio do meu canal VIVERDEPOESIA no qual recito esse mesmo poema, pois todos eles observam a maternidade sobre outros pontos de vista. Desse modo, desejo que os recebam como o perfume de um buquê de jasmim aos sentidos e como a paz aos corações. 


                                                                                                             Vera Passos

terça-feira, 27 de junho de 2023

quarta-feira, 8 de março de 2023

O QUE HÁ DE MACHISMO EM MIM

 

                 

    Nasci de um homem muito machista casado com uma mulher de 18 anos, 13 anos mais jovem do que ela. A minha mãe era uma mulher muito forte e, em alguns assuntos, à frente do seu tempo. Essa mulher, ficou viúva com 35 anos, mas o machismo estava tão internalizado nela que consentiu que ele limitasse o seu futuro: não se permitiu viver uma nova relação, continuar os estudos e constituir uma carreira, usar roupas decotadas etc. Sei que era uma feminista, sem se permitir ser, porque aprendeu a dirigir sozinha, fotografava sem ter tido um curso e me levou ao único psicólogo da cidade para que eu fizesse terapia quando começamos a ter atrito na minha adolescência etc. Meu pai tinha poucos recursos financeiros e ela era uma herdeira de fazenda e outros bens, e, embora contrariada, deixou que ele administrasse os seus bens como bem quis.  A frase que demonstrava a sua ânsia de liberdade, sua sede de ocupar um lugar no mundo menos subjugado, jamais esqueci: “Vá estudar pra não depender de homem!” Está aí o gérmen que brotou em mim o desejo de educar os meus filhos para que contribuíssem para um mundo mais igualitários entre os gêneros.



    Comecei desejando que fosse uma filha a primeira criança que eu poria no mundo, não só porque ela teria uma maior atenção de todos da família, mas também porque temia que sendo um filho, ele se sentisse no direito de controlar a irmã. O universo não quis facilitar as coisas para mim. Tive um filho e só depois, uma menina. O que fiz para que ao menos a minha família não fosse uma réplica do poder dos homens sobre mulheres? Talvez o tenha feito mais por atitudes inconscientes do que conscientes e o maior exemplo deve ter sido a relação de respeito que eles compartilhavam com os seus pais. Eles têm conhecimento de que antes de o conhecer, morei sozinha desde os 18 anos, era motociclista, viajava sozinha etc. Além disso, sabem que era 5 anos mais velha do que ele, que dirigi antes dele, que já tinha vida sexual quando o conheci, que tomei a iniciativa do namoro, que mantive contato com os meus amigos e alguns ex-namorados, que o pedi em casamento depois de 25 anos de relacionamento, que jamais permiti que ele controlasse as minhas iniciativa ou desse palpite na minhas roupas, que manifesto tudo o que me desagrada na relação, que dividimos as despesas, que conversamos e decidimos conjuntamente todas as coisa relativas à família, que nos admiramos, nos encorajamos e partilhamos projetos e sonhos. Entre as conscientes, destaco:


   

 Não permitimos que seu irmão a desrespeitasse;

    Validamos igualmente a fala e os sentimentos dos dois;

    Damos suporte aos planos e anseios de ambos;

   Começamos a dar mesadas a ambos desde cedo para que aprendessem a administrar algum recurso financeiro;

    Requisitamos ambos a assumirem as responsabilidades pelas tarefas domésticas;

    Permitimos que ela trouxesse seu namorado para dormir em seu quarto, do mesmo modo que fizemos

     quando ele quis trazer a namorada;




    No entanto, estou ciente de que ainda foi muito pouco e não só por responsabilidade do pai, mas minha também. Em meus pulmões resistem resíduos do machismo estrutural e vez ou outra me vejo falando ou tomando atitudes que demonstram o quanto o machismo persiste em mim como erva daninha a exigir capina diária. Talvez eles consigam dar uma educação feminista aos seus filhos... Não sei se conseguirão. Provavelmente não, se no caldo cultural persistir o amargor inerente à secular estrutura patriarcal, mas tenho o alento de que eles conseguirão ir além de mim e afinal é para isso que damos continuidade à raça. 


 



sexta-feira, 3 de março de 2023

PROJETO MEXERAM COM TODAS

 

MEXERAM COM TODAS

As mulheres são alvo de violências em todas as partes do planeta, seja na Síria, no Brasil ou no Sudão. O que muda então? Mudam a intensidade e a forma, mas a dura realidade de ser mulher em sociedades patriarcais não mudou ainda não.

Segundo a bíblia, o mundo foi feito por intermédio do verbo. As coisas começam a partir da palavra: pensamos com a palavras, sonhamos com palavras, desejamos com palavras, colocamos o desejo no mundo através da palavra e, só depois, o que era palavra se materializa em algo mais concreto do que ela. No entanto, a palavra pode ser veículo de utopias ou de distopias, de opressão ou de libertação. O projeto “MEXERAM COM TODAS” tem na palavra nas formas oral e escrita o seu instrumento transformador. Através dela visamos encorajar mulheres a tomar consciência dos acontecimentos em que foram desrespeitadas apenas por serem mulheres em um ambiente de machismo estrutural, para que a partir de seus relatos, possam buscar caminhos para trazer para o real a possibilidade de um mundo mais igualitário entre homens e mulheres.



Nesse sentido, em agosto de 2022, realizei a realização a oficina"Escrita Terapêutica para Revelar e Combater a Violência de Gênero", no III Encontro Nacional de Mulheres do SINASEFE, na cidade de Fortaleza.   Nela, convidei 40 mulheres a escreverem um relato de uma situação de violência que sofreram, misturei os textos sem identificação de autoria e os distribuí aleatoriamente. Cadastrei todas elas em um grupo no whatsapp de nome “Mexeram com todas” e pedi que nos enviassem áudios lendo os relatos recebidos. Desse modo, visava estimular a sororidade em todas nós.

Para que esses relatos nao ficassem restritos ao pequeno grupo e fossem ouvidos por pessoas de todos os gêneros iniciei a Etapa 2 do projeto "Mexeram com Todas". Assim, para marcar esse Mês da Mulher de 2023, de uma forma menos folclórica e mais reflexiva, em cada um dos seus 31 dias, um  relato está sendo divulgado sem identificação da autoria do texto nem da voz que o lê.    Penso que essa é uma boa iniciativa para marcar a necessidade de luta pelos direitos da mulher, tão ameaçados nos últimos anos, inclusive com o aumento do número de feminicídios.  Considero que, mais do que engrandecer a beleza e força femininas, é necessário que outras mulheres que sofreram ou sofrem abusos se fortaleçam para denunciá-los, deixando claro que a dor de uma de nós mobiliza a nossa dor, assim como a força de uma fortalece todas. Os podcasts com os relatos podem ser ouvidos no Spotify. Sua repercussão sinaliza que é preciso dar continuidade a ele, orientando novas oficinas e, com a permissão das participantes, tornando público os seus resultados. A quem considerar relevante a iniciativa, solicito que participem do projeto, seja enviando textos, gravando outros ou apenas divulgando o projeto.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

UM NÃO QUE ERA SIM?

UM NÃO QUE ERA SIM?

                                                                                                 
 Ainda lembro bem. De mãos dadas e usando mortalha iguais, seguíamos uma banda no bloco. Quando passamos na frente do clube mais antigo da nossa cidade,   encabulada,   rompi o silêncio e disse: “Hoje é meu aniversário”,   ao que ele   respondeu:  “É o   meu também”.   Descobri que não mentia, décadas depois,  quando  me  enviaram o  link  do seu  perfil  no  facebook. Em algumas  fotos  antigas  era  exatamente  como eu o conhecera: bonito, de cabelos longos.


Como sou uma nostálgica e romântica inveterada, sempre cultivei as lembranças daquele primeiro amor que foi totalmente platônico. Além das mãos, a maior intimidade que tivemos foi no dia em que eu andava de bicicleta próximo à sua casa, seus amigos seguraram a minha bicicleta, ele me deu um beijo no rosto e saiu correndo.  Fora isso, eram sempre danças em carnavais ou festas de réveillon em que, calados, brincávamos no salão circular ao som de marchas de carnaval. No final, ele sempre me pedia em namoro e, como de era posto na moral social para as moças direitas da época, eu dizia que iria pensar.  Eu  bem sabia que  a minha resposta compulsoriamente seria um NÃO, mas durante o intervalo solicitado para pensar, gostava de sonhar que poderia ser um SIM. Um SIM que os meus pais jamais permitiriam, claro. 

  A paixão entre nós era conhecida na cidade. Lembro de uma conversa entre          meu pai e cerca de oito amigos na sala de nossa casa, em que me diziam: com o    filho de (nome do pai dele), não.Você pode namorar com o filho de Fulano ou     Beltrano, ambos, obviamente, amigos do meu pai e presentes na sala. A mim     restava apenas   ouvir.  Só a   perplexidade com os comentários era diferente   naquele meu hábito de só ouvir.


A tecnologia foi tornando cada vez mais fácil uma comunicação entre nós. E eu confesso que gostaria de lhe perguntar sobre o que foi para ele aquela experiência tão ingênua, de talvez rirmos juntos dos costumes da época etc. Tenho uma curiosidade de saber como o outro me via, que impressão tinha da minha realidade, como interpretava o meu comportamento... Talvez isso se dê só por uma necessidade de conhecer o meu passado para melhor compreender a argamassa que compõe as paredes que dão sustentação àquilo que sou hoje. Há muito sei que aquela pessoa não combinava com o ideal de companhia que, já naquela época, eu queria para mim. Mas ainda acho estranho não ser possível sequer uma conversa amigável, com uma pessoa que por anos foi o motivo dos meus suspiros juvenis.



Agora que ele já não tem cabelos e eu já não chamo a atenção, quando entro no salão, as  novas  tecnologias  me  permitem  constatar  que  nos  tornamos seres totalmente antagônicos em termos de valores e visão de mundo. E eu me pergunto em que circuito da festa momesca, o que foi paixão se tornou apenas serpentina no chão e suponho que aquele “NÃO” era mesmo para ser “NÃO”.