O texto abaixo foi escrito e publicado no jornal estudantil "Lente Azul", no Cefet-Ba em outubro de 2004:. Eu o republico aqui porque ainda me parece atual.
HALLOWEEN NO BRASIL
Conhecer, sim. Imitar, não. Na entrada do Supermercado Bom
Preço do Canela, existia uma loja com um pequeno letreiro onde estava escrito “SEW
& HEEL (QUICK)’. Achei curioso encontra, na Bahia, uma loja com o nome totalmente
em Inglês e me perguntava quem procuraria os seus serviços, uma vez que a
grande maioria da população brasileira mal sabe ler. Depois de algum tempo,
voltei ao local e vi queo letreiro da loja fora substituído por dois maiores
que continham a expressão “Sapataria do futuro”. É bom explicar que o verbo “to
sew” significa costurar, que “Heel” significa salto e “Quick”, observem bem, não
“Qwik”, pretendia expressar que o serviço era rápido. Eis um letreiro cuja
mensagem não cumpria o seu objetivo de informar e persuadir. Sempre conto essa
pequena história e pergunto aos meus alunos se eles procurariam a loja caso
lessem o primeiro letreiro ao que me respondem que não, por não saberem de que
se trata. Olhem que eu faço a pergunta para estudantes do Ensino Médio ou de
Cursos Profissionalizantes. Imaginem o que significa tal letreiro para a grande
parte da população baiana, que não teve as oportunidades educativas deles. Essa
é um bom exemplo do uso da língua estrangeira como elemento de exclusão social.
Como professor Pasquale Neto, concordo que palavras em idiomas estrangeiros
devem ser usadas quando não há equivalentes na língua portuguesa. A uso da
língua é um dos elementos que definem a nossa identidade pessoal, a nossa identidade
cultural e os nossos valores. Não se trata aqui de defender a proibição do uso
de estrangeirismos, mas sim de evitá-los sempre que possível., visando melhorar
a qualidade de nossa comunicação e valorizar a nossa cultura. Como professora
de inglês compreendo que posso contribuir para o entendimento do mundo
globalizado, onde o inglês é a língua de uso corrente, mas não considero ser de
minha responsabilidade fomentar o estímulo ao seu uso em situações
desnecessárias e até prejudiciais. Do mesmo modo, distingo bastante a necessidade
de conhecimento de línguas estrangeiras daquele de importação de palavras e
valores culturais estrangeiros. Porque ensino inglês, não vou “americanizar” os
estudantes. Pelo contrário, sempre lhes propicio leituras e discussões que
permitam uma análise crítica da realidade da superpotência do mundo atual, a
exemplo do livro “Stupid White Man – uma nação de idiotas” de Michael Moore, um
dos mais ferozes críticos atuais do estilo de vida americano (American way of
life) cujos filmes “Booling for Columbine” (Tiros em Columbine) e Fahrenheit
11/09 foram bastante premiados nos últimos anos. Por tudo dito anteriormente,
nunca promovi ou estimulei as iniciativas de halloween em nenhuma das escolas
em que lecionei. Para aqueles que não conhecem a festa, trata-se da celebração,
nos EUA, do dia das bruxas na véspera do Dia de Todos os Santos, na qual
enfeitam-se as casas com abóboras ocas, e crianças vestidas de bruxas ou de
outras figuras assustadoras visitam as casas, pedindo doces e ameaçando fazer
malvadezas caso não sejam atendidas. Programo, para as últimas semanas de
outubro, a leitura e discussão, em aula, do ensaio de Roberto Pompeu de Toledo
na revista Veja de 06/11/96, cujo tema é belissimamente abordado: ”festejar
halloween no Brasil é coisa de basbaques. Assim como saborear ”vanila”, vender “off”,
despachar “delivery’. É coisa de imitadores. Ainda se fosse para imitar o que a
civilização americana tem de fundamental, como o respeito à lei e á ética do
trabalho, vá lá”, diz ele. Temos uma cultura muito rica e pouco valorizada, e não
compreendo o sentido educativo de apenas reproduzi um evento cultural de outro
país. Além do que, não se fala inglês só nos Estados Unidos, quase todo o sul
da África fala esse idioma e, considerando a origem dos nossos ancestrais, seria
mais sensato buscarmos conhecer, não imitar, as expressões culturais desses
países. Querem fazer, não um Song Fest, mas um Festival de Música, um ciclo de
filmes instigantes em língua inglesa, uma festa com reisado, capoeira e forró?
Contem comigo. Mas se a proposta é holloween, como dizem os estudantes no nosso
português da oralidade: “Tô fora!”