sexta-feira, 9 de outubro de 2020

JULHO 2020

 


JULHO
                      Vera Passos

O calendário perdeu o juízo.
É sempre um domingo
Sem praia nem futebol.
As canetas já não 
Sangram as agendas
E a sexta-feira reivindica
O privilégio da cerveja gelada.
Os dias ganharam a alforria.
Não conquistaram a liberdade.


segunda-feira, 22 de junho de 2020

MINHAS INSIGNIFICÂNCIAS




Inspirada pelo série "Aguçador os sentidos" do livro "Pequena coleção de insignificância", escrevi os poeminhas abaixo:



                                 
"Abrir a gaveta 
  Para conhecer
  A família de objetos
  Que mora nela"

                                  "Perguntar ao arco-íris
                                    Qual a cor do seu vestido"

                                                    
"Abrir o armário
  E espiar 
  Os sapatos adúlteros"

                                               "Fazer cócegas 
                                                 Na luz do sol
                                                 Até vê-lo 
                                                 Chorar de rir."


domingo, 2 de fevereiro de 2020

IEMANJÁ É A MESMA, E EU?


A ida a uma festa de Iemanjá há exatos 9 anos, motivou uma publicação de título xxx com a foto abaixo. Escrevi o texto porque uma amiga me viu de longe, vestida de branco, andando sob a areia da praia do Rio Vermelho e me achou bonita e feliz. Eu, ao contrário, não me sentia nada bem. Era um daqueles dias em que, eu tinha vencido a resistência de ficar na cama e aceito o convite para sair, porque insistiam e o destino era uma festa daquela natureza! O estado em que participei da festa naquele fevereiro de 2011 foi completamente diferente do que participei dela hoje e, é claro, a experiência vivida foi igualmente distinta.

Por iniciativa minha, aderimos à ideia de minha filha de dormir no apartamento de sua tia na Praia da Paciência. Chegamos lá próximo a 1h do dia 2, com planos de acordar e nos unir à programação
da 35a. Festa de Iemanjá da Pracinha do Alto de São Gonçalo. 

Eu só dormi depois das 2h e terminamos subindo a ladeira com atraso. Como o cortejo já havia descido com os presentes, descemos para encontrá-lo antes da entrega, sem sucesso. Assim, compramos 4 rosas (1 para ser jogada por cada um de nós e uma 4ª. na intenção de nosso filho, morando fora do país) e fomos fazer uma oferenda familiar. Fomos até o mais próximo que pudemos da murada junto à casa dos pescadores, até que eu não quis continuar, pois a caminhada sobre as pedras era muito difícil para alguém que perdeu muito do seu equilíbrio, seja por conta de medicamentos, seja pela idade e estilo de vida sedentário. Assim, logo joguei a minha rosa amarela e a azul do meu filho, que caíram sobre as pedras. Vendo isso, eles decidiram ir jogar as suas mais adiante, me deixaram e seguiram andando.

Eu, magnetizada pela profusão de tipos, com cabelos, olhos, peles e vestimentas exóticas, muito satisfeita em ver tantas pessoas com uma aparente liberdade de ser e se apresentar, fiquei observando o movimento do entorno. Mas a festa do Rio Vermelho também é uma festa de largo a cada dia mais longa e populosa.  Às vezes parece mais regada a cerveja do que às águas da Deusa. São muitos holofotes, muitas câmeras e pessoas posando para elas. Junto de mim havia um círculo de velas sobre uma reentrância no rochedo que foi fotografado infinitamente. Assim, resolvi tentar me conectar com o sagrado que me parecia tão difuso naquele momento.

Fichei os olhos e senti umas pedrinhas roçando os meus pés. Vi depois que pareciam pipocas, mas havia de fato uma pedra maior. Eu a apanhei para mostrar ao meu filho pelo celular e lhe dar, quando ele estivesse em nosso país. Pouco depois, percebi um zumbido de música próximo a mim. Quando localizei sua origem. Há meio metro, vi um homem negro, barrigudo, com uma bermuda branca, de cabelos raspados dos lados e com um topete e duas guias azuis e douradas no pescoço, entoando cânticos em uma língua africana, enquanto, com os pés imersos, apanhava e derramava água do mar sobre a sua cabeça voltada para o chão da praia. Eu reclinei o meu corpo e aproximei o ouvido esquerdo para acompanhar melhor o seu cantar. Quando terminou, ele pegou uma rosa branca e foi posicionando em seus chacras. Depois, despetalou a rosa sobre a outra mão, as macerou e esfregou com elas uma das duas estátuas de madeira que estava sobre as pedras e depois limpou a estátua na água com três movimentos de baixo para cima. Repetido o procedimento com a outra estátua, ele devolveu as imagens sobre um tecido branco já aberto como lençol, as enrolou e colocou em uma sua bolsa. Em seguida, pegou a maior das guias azuis, segurou uma de suas pontas no seu umbigo e com a outra mão aproximou a outra extremidade da areia imersa. Imaginei que ele fosse colocar a guia já limpa sobre as pedras. Ele não o fez. Ao devolver essa guia, retornou com a outra e procedeu do mesmo jeito. Por fim, agora com o corpo mais erguido, ele começou novos cânticos, acompanhados por mim e pelo ritmo das batidas de suas palmas.

Assim que ele pegou a suas sandálias, legitimas ou não, para ir embora, eu lhe falei:

- “Obrigada por ter feito o seu ritual perto de mim, eu estava tentando me conectar com algo assim”. Ele abriu um largo sorriso, apertou a minha mão, me ofertou a rosa branca que havia restado em suas mãos e saiu. 

Quando meu marido e filha voltaram, lhes contei, ainda em estado de transe, que eu havia ido dar um presente para Iemanjá e ela havia me retribuído o presente. Sim, Iemanjá é a mesma, a festa cresce, muita gente expõe uma fé que talvez busquem, mas não encontraram ainda, demos de cara com bêbados já largados sobre as pedras no alvorecer e axés são vendidos para pessoas em fila, mas ainda há a possibilidade de conexão com a própria fé e até a chance de contagiar outros com ela. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

COMO FESTEJAR O ANO NOVO

Em seu poema “O tempo” , Drummond escreveu:


“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.(...)”

O que fazemos para nos embriagar com a ideia de que viveremos um Novíssimo Ano? Depois de nos vestirmos com roupas brancas e novas, (algumas mulheres até usam peças íntimas com a dita cor do ano) vamos a uma festa com um grande número de pessoas, música e comida, damos pulos no mar e nos agarramos a alguns amuletos que nos assegurem grandes esperanças.

A mim, o Reveillon não entusiasma, mas já foi uma data na qual eu fiz quase tudo isso. Até o dia em que, com cerca de vinte anos, antes da virada, me dei conta de que não desejaria abraçar a maioria das pessoas da festa e saí correndo dela. Não deu tempo de chegar em casa e o relógio marcou a meia noite enquanto eu estava em um taxi tendo seu motorista como única companhia. Ao menos não precisei abraçá-lo por mera convenção. Talvez nos tenhamos desejado um Feliz Ano Novo. Não me lembro se isso se deu, mas mantenho a determinação de fugir desses encontros festivos em que um grande número de pessoas desconhecidas se reúnem em uma alegria artificial. No entanto, isso não significa que o Ano Novo não possa ser festejado. Em trecho do poema “Passagem do ano”, o próprio Drummond sugere um modo de fazê-lo:



“Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se espirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer”.

domingo, 8 de dezembro de 2019

LAÇOS POÈTICOS

              Há dez anos, fizemos com Elisa Lucinda  a  Oficina de Poesia Falada que  gerou o  grupo DI VERSOS - Arte Poética Singular. Foram vários os recitais realizados e muito maior o número de encontros para prepará-los. Na nossa confraternização deste final de ano, como em todos os festejos, teremos a presença da convidada de honra: a Poesia.
             Em um recital na Faculdade 2 de Julho, eu comemorei o fato de estar aprendendo a falar poesia em público através do texto abaixo, que dialoga com um poema de Adélia Prado. Resolvi postá-lo em homenagem às pessoas que ainda participam do grupo (Silvana Mota, Fátima Santiago, Mara Vanessa, Jina Carmen, Luciano Santana, Marina Neves e Verusa Silveira) e àquelas que, por diversos motivos, se afastaram parcial ou definitivamente dele, como Juliana Machado, Mazé, Sarah Carneiro, Eugênia Galef, Rhuna, Nanda Leturiondo etc.


DE HUMANOS

DIREITOS HUMANOS

“Sei que Deus mora em mim
Como sua melhor casa
sou sua paisagem,
sua retorta alquímica
e para sua alegria
seus dois olhos.
Mas esta letra é minha.
(Adélia Prado em Oráculos de Maio, p.73)


Na verdade, Adélia, a letra pode se tua,
mas os sentimentos também moram em mim.
Não recebi teu com de traduzi-los em versos,
Bem sei. Apenas peço a Deus a alquimia
de fazer da minha voz, olhos e mãos,
dessa efêmera casa enfim,
instrumentos de uma precisa fotografia
da mais preciosa revelação
aos que comungam conosco essa humanidade.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

SEM ANESTESIA

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SEM ANESTESIA
              Vera Passos

Despir-se até as veias,
Flexionar as pernas.
Seja bonina ou dor,
Da placenta de palavras,
Parir o feto que for.

domingo, 18 de agosto de 2019

INSONE



Bicicleta, Red, Moto, Ciclo, Andar De Bicicleta


BICICLETA

Mais de mês que meu nego viajou. A saudade pisava meu rosto, mas não deixava que atrapalhasse a lida do dia. Arrastava as pernas de toneladas: limpar a casa, lavar a roupa, fazer a comida que comia feito passarinho...Tudo lento, amiudado.  

À noite, ficava acordada, mantendo os seus olhos abertos. Ciúmes do volante sob suas mãos.

Nas segundas, boca piu no braço com fruta, ovo e verdura, o que dava para levar com os trocados que ainda tinha. E o povo da feira perguntando por ele...

Na volta, uma saia amarrada, um toço na cabeça e um coração de joelhos. O vento aliviou meu cansaço, empurrando a bicicleta.

Ouvi um grito:

- Ei, moça!

Me virei.

Ele, flecha de fogo em minha direção.