terça-feira, 11 de novembro de 2014

LEITURA NATURAL DA NATUREZA DO CORAÇÃO DOS HOMENS




“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer. Uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens”.  
                               

                                                                                            Ferreira Gullar



LEITURA NATURAL



Tendo lido os jornais
- infectado a mente, enauseado os olhos -
descubro, lá fora, o azul do mar
e o verde repousante que começa nas samambaias da sala
e recrudesce nas montanhas.






Para que perco tantas horas do dia
nessas leituras necessárias e escarninhas?
Mais valeria, talvez, nas verdes folhas, ler
o que a vida anuncia.




Mas vivo numa época informada e pervertida.
Leio a vida que me imprimem
e só depois
o verde texto que me exprime.






sábado, 8 de novembro de 2014

A BENÇA, MEU TIO?



           Um homem cujo nome é  Vicente Cunha Passos aparentemente seria meu irmão, no entanto, é meu tio e padrinho. É provável que ele tenha sido o irmão mais querido do meu pai e o maior desafeto de minha mãe. Eram todos primos e neles corre uma herança genética e comportamental que os põe propensos às mesmas doenças. Tio Vicente foi o motivo ou a desculpa para inúmera brigas entre meus pais. Eu, como filha primogênita, herdeira da mesma carga genética, a preferida de minha mãe e a menos amada por meu pai, fui um tipo de Exu ou Hermes, mas só levava notícias más entre mamãe e titio. Ela saia comigo em um táxi para os seguir o meu pai e ver se estava em algum bordel com o seu irmão, cuja fama de boêmio e mulherengo era bem conhecida na nossa cidade. Voltávamos sempre constatando que os dois estavam juntos em um bar, talvez matando as saudades de irmãos, cumprindo a determinação divina de que foram escolhidos e escolheram partilhar pais e infância. Os dois, com temperamentos e comportamentos bem distintos, deveriam ter lições contrárias a aprender em vida.  Acredito eu que a lição de meu pai era se permitir ser feliz, abrir-se para a vida, sentir-se merecedor de dádivas materiais e imateriais.  Apesar de machista,  precisava se tornar mais forte para lidar com a mulher que tanto amava e o tentava controlar. Ela por seu turno, tentava ajudá-lo a vencer um distúrbio psíquico grave.  Ao meu tio, penso que  cabia aprender a ser mais moderado, não exagerar na busca do prazer carnal, talvez fruto de uma tentativa de fugir de uma tristeza soterrada.




       Fui batizada por esse tio, por desígnios de Deus e para desespero de minha mãe. Eles haviam convidado, provavelmente por determinação dela, seu tio Dário Cunha e sua esposa Elvira para serem meus padrinhos em Santa Bárbara. Naquela manhã, no entanto, seu tio não compareceu à cerimônia por razões que desconheço. No momento de ser concretizado o batismo, na falta de opção e provavelmente, sob pressão do meu pai, fui batizada por tio Vicente e, talvez, por sua irmã com a qual não convivi. Escondido o episódio, durante toda a minha vida infância e juventude, pedi a benção ao tio Dário, que era uma espécie de mediador nos conflitos dos Cunha. 
       
        Por volta dos meus 14 anos, em uma das vindas de Minas Gerais do meu tio Meinardo Passos ou do tio Joaquim, meu pai parou sua rural, embaixo de uma mangueira do Hotel Solar Santana, propriedade da família, e, chorando, revelou aos seus 3 filhos que possuía uma irmã de nome Lourdes, viva e morando em Santa Bárbara. Não posso revelar os sentimentos ou os pensamentos dos meus irmãos, mas eu fiquei chocada e identificada com o sofrimento e fraqueza daquele homem em ter vivido tantos anos afastado de sua única irmã e ter sido conivente na decisão de boicotar uma possível relação de amor entre ela e seus filhos.

       No início do ano de 1975, lendo um horóscopo com previsão para 76, tenho o pressentimento de que meu pai morreria no mês de agosto daquele ano. Manifesto isso para as minhas amigas que tentam me convencer do contrário.  Em agosto, aos meus 17 anos, como previ, morre o meu pai. Ele se queima vivo em seu maior gesto de desespero, coragem e solidão. Em consequência disso e de todo o sentimento gerado por sua ação, concluo que será insuportável a convivência diária entre minha mãe e eu. já consciente de seu autoritarismo e desequilíbrio. Certamente, ela viria morar em Salvador e eu não suportaria seus desmandos e desrespeito a mim. A herança deixada fica totalmente controlada pela mãe que tem agora a tarefa de gerir a família sem a presença de seu marido, mas não é capaz de demonstrar sua insegurança e sofrimento e se nega a permitir qualquer liberdade financeira aos filhos. Não consigo aguardar os meus 21 anos para receber a parte do quinhão que me era devida, comprar a minha alforria. Então, a ameaço de entrar com um processo e de esperar o seu desfecho, trancando o curso de Arquitetura na UFBa, voltando para Feira de Santana e procurando viver de aulas particulares de Português, Inglês e Matemática. Não sei se blefei ou se teria a coragem de enfrentar minha própria mãe em um tribunal. Pelo fato de nos parecermos fisicamente, talvez tivesse a sensação de estar lutando contra mim mesma. Ela cede, decide me conceder uma parte do fruto dos rendimentos de alugueis, juros bancários, 3 fazendas e de um dos maiores hotéis da cidade. Ceder não é a palavra mais acertada, porque ela determinou a forma com que eu receberia o dinheiro e o valor devido. Assim, todos os meses entre meus 18 e 21 anos, eu viajei para Feira e fui à casa do seu tio Dário, onde pedia a sua benção, ele reclamava de minha rebeldia e me dava indiretas sobre o trabalho que lhe dava ao ser forçado a abrir sua carteira e me emprestar o valor acertado.

     Anos mais tarde, descubro que meu pai, assim como meu tio Vicente, teve amantes, que o meu tio Dário não havia me batizado e era pelo meu tio Vicente que eu precisva ser abençoada. Fiquei aterrorizada ao saber que o meu padrinho era aquele a quem eu tantas vezes havia procurado para lhe repetir, chorando, mensagens agressivas determinando que se afastasse da família do seu irmão! Nessa situação, até hoje não fui capaz de tratá-lo como afilhada, nem nele vi nenhum gesto de quem tivesse a responsabilidade de ser meu pai substituto. 


       Em 2012, quando eu e meu companheiro resolvemos comemorar bodas de prata, nos casando no civil, precisei procurar o meu batistério e me dei conta de que não sabia quem era a minha madrinha. A essa altura, tio Dário e tia Elvira já haviam morrido. A busca da revelação foi vã, porque o documento havia sido extraviado em Santa Bárbara, no processo de vinda para o Bispado de Feira. Casei-me muito triste com esse questionamento e a constatação de que meu pai não poderia participar da cerimônia e minha mãe não queria nela estar. Porém, continuei a investigação indo à casa de tio Vicente e tia Aidil, para saber deles quem era a minha madrinha. Bastante envelhecido e sofrendo do mal de Alzheimer, ele não me reconheceu e falou: "parece mesmo que eu batizei um filho de Milton". Depois de várias buscas sem sucesso, em um momento de contato telefônico com minha mãe, eu lhe pergunto, muito calma e estrategicamente, que me diga quem era a minha madrinha. Ela me diz ter sido "uma pretinha que trabalhava na casa de minha avó paterna e que já deveria estar morta." Concluo que, se ela era mais nova do que minha mãe, havia grandes possibilidade de que eu a encontrasse para montar mais um quebra-cabeças do meu passado. Eu conto a suas irmãs, minhas tias Ovídia e Maria das Graças,  que não acreditam nessa versão, mas continuam a busca a meu pedido. Em um outro telefonema, eu digo a minha mãe que não localizei essa mulher e ela me diz que se enganou e acha que foi mesmo tia Lourdes, já morta. Então, para desvendar o meu passado, dar mais um passo rumo à possível verdade do que fui, para o entendimento do que sou e decisão do que quero ser, já marquei uma viagem até Santa Bárbara, onde, poderei, ao menos falar com a sua filha, aquela que cuidou da minha tia até a sua morte, rever as fachadas das casas vizinhas, onde meus pais e avós moraram  e visitar a igreja onde fui batizada. 

       Termino esse longo relato, me sentindo mais limpa e leve e declarando ao meu primo Vicentinho, com o qual não convivi e que se tornou meu amigo no facebook: "De alma lavada, sinto tristeza pelos primos que não fomos, fico feliz pelo pouco contato e carinho que foi possível existir com o seu irmão mais velho, Roberto Passos, e amo todos pelos laços que ainda poderemos desenvolver."


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

EU VOU PRA MARACANGÁIA E NÃO VOU SOR!








           Eu vou pra Maracangalha (FLICA), eu vou. Eu vou de chapéu de palha (nordestino) eu vou, eu vou visitar a Anália (Gal Dacruz) eu vou..,Eu vou com essa pele e raízes que não renego, mas eu vou.. Eu vou, pq Iansã me mandou e Oxossi me protege,,, eu vou! Se Anália Rosa, não quiser ir eu vou só, não vou só que Andrea Tourinho topou. Eu vou só, eu vou só NÃO sou Amélia, EU VOU!

http://www.flica.com.br/#
http://www.flica.com.br/noticias/
http://www.flica.com.br/programacao/geral/#
http://varelanoticias.com.br/com-homenagens-a-dorival-caymmi-e-mae-stella-de-oxossi-festival-literario-agita-cachoeira/

AGUARDEM A RESENHA
EU VOU FAZER, EU VOU!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DE UMA MULHER QUE AMA MUITOS HOMENS




Há 12 anos,  os TRABALHADORES desse país exaurem suas energias com menos pressão, porque existem esperanças em suas vidas com os programas de bolsas família, desemprego e tudo mais. Mas, há exatos 12 anos,  quem paga as contas somos nós: classe média - como eu - os assalariados já descontados, no contracheque, arrochados desde FHC.  QUEM PAGA É VC E EU! E AINDA QUEREM NOS FAZER ENGOLIR ESTATÍSTICAS DE QUE SOMOS IGUAIS - DE QUE OS POBRES, TB SÃO CLASSE MÉDIA! ELES NÃO ASCENDERAM À CLASSE MEDIA... NÓS É QUE ESTAMOS DESCENDO LADEIRA ABAIXO EM DIREÇÃO À POBREZA! SENÃO À  MISÉRIA, ENQUANTO A CLASSE "AAA' CONTINUA ASSISTINDO TUDO EM SEUS JATINHOS PARTICULARES, PREOCUPADA COM A POSSIBILIDADE DE NÃO AUMENTAREM SEUS LUCROS ATÉ A ESTRATOSFERA... JÁ SEREM OS MAIORES LUCROS E JUROS DO PAÍS LHES PARECE MUITO POUCO!
'

EM ESPECIAL, SOFREM OS PROFESSORAS COMO EU (AS EDUCADORAS QUE FICARAM MUDAS NA DITADURA DO PODER, DEPOIS QUE APANHARAM DA POLÍCIA DO PARTIDO DOS "TRABALHADORES",  ENQUANTO PAULO FREIRE SE REVIRA EM SEU TÚMULO, PORQUE É EM SEU NOME, QUE INSTAURAM A CLASSE MÉDIA DA REALEZA BURGUESA DOS DIRIGENTES. E NUMA FILOSOFIA BASEADA EM NOME DE MARX E ENGELS?  FAZEM HORRORES CITANDO O MAIOR EDUCADOR QUE JÁ HOUVE NESSE PAÍS, ELOGIANDO OS ALTOS E BAIXO DO MELHOR JUIZ PERFORMÁTICO QUE JÁ HOUVE NA HISTÓRIA DESSE PAÍS! LENDO AS TEORIAS DO MAIOR GEÓGRAFO INTENACIONALMENTE CONHECIDO: MILTON (QUE ORGULHO DO MEU PAI TER SIDO SEU HOMÔNIMO) SANTOS...
http://www.brasilescola.com/geografia/milton-santo
http://corujasapiens.wordpress.com/2013/02/01/milton-santos-globalizacao-parte-1/

AGORA, VC, QUE VIVE TODAS AS CONTRADIÇÕES DO CAOS HISTÓRICO, SOCIAL, INDIVIDUAL E DA NATUREZA, PROCURE UMA ORDEM QUE TE GUIE.. SE CONHECE O CONCEITO DE DIALÉTICA, VÁ LÁ CONSEGUIR, OU SÓ TENTAR, FAZER UMA SÍNTESE!  EU ESTOU CÁ BUSCANDO UMA COM OS BOTÕES SOBRE O MEU PEITO E OS POUCOS NEURÔNIOS QUE AINDA ME RESTAM... TENTO OUVIR OS BATICUNS DA MINHA INTUIÇÃO,  OUVI-LA, AUSCUTÁ-LA.  E EU AGRADEÇO A DEUS POR ISSO!  SIM, A DEUS, PORQUE TODOS OS GRANDES MESTRES, SANTOS, FILÓSOFOS, GÊNIOS E CIENTISTAS DA HUMANIDADE O BUSCAVAM EM SEUS ESTUDOS E PRÁTICA (VC LEU O "TAO DA FÍSICA"?)... INFELIZMENTE, QUANDO FALARAM SOBRE ELES, OS PASSARAM AOS LIVROS DIDÁTICOS COMO SUPERHOMENS, QUE NUNCA ERRARAM... AO CONTRÁRIO DE VC E EU! QUER SABER? LEIA A REALIDADE, LEIA A SUA VIDA, LEIA AS SUAS RELAÇÕES FAMILIARES, LEIA A SUA HISTÓRIA, SUA TRAJETÓRIA, LEIA SUA ÁRVORE GENEALÓGICA, VÁ AO FUNDO DE SUAS RAÍZES, ENCARE AS SUAS MAZELAS E APRENDA COMO OS SEUS MAIORES ERROS... EU ESTOU TENTANDO. E A MINHA SÍNTESE, MUITO MENOS POÉTICA DO QUE A DE VINÍCIUS...

... É DE QUE ESTOU VIVA, QUE A VIDA CONTINUA NO BRASIL E NO MUNDO, SOU OBRIGADA A EXERCER A MINHA CIDADANIA DO JEITO EM QUE ACREDITO A CADA DIA, SEMPRE MUDANDO NA DIREÇÃO, INTENSIDADE E SENTIDO DO VENTO QUE ME TOCA OS CABELOS E FACE. ESTOU, INCESSANTEMENTE, CAINDO E LEVANTANDO,  BUSCANDO SER FELIZ NESSE MELHOR MOMENTO QUE É O AQUI E O AGORA... O FUTURO? SERÁ APENAS A CONSEQUÊNCIA DE QUEM O FIZER, PARA QUEM O VIR, DE QUEM ESTIVER PRESENTE, DE QUEM AINDA NÃO TIVE SIDO LEVADO PELA SENHORA DA FOICE, DAQUELES QUE NÃO EMBARCAREM SOBRE O RIO GUIADOS POR CARONTE RUMO AO MUNDO DE HADES, PARA O OUTRO REINO, ONDE TUDO É MAIS MISTÉRIO DO QUE A SUA CONTRAPARTE: A PRÓPRIA VIDA!


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

TÃO DIVERSAS E, AO MESMO TEMPO, PRIMAS ENTRE SI!


NARCISO DEIXA TURVO O ESPELHO, ONDE NÃO SE MIRA

(TÃO DIVERSAS E, AO MESMO TEMPO, PRIMAS ENTRE SI!)





        Eu era a aluna mais nova de uma turma só de mulheres em um colégio de freiras. Não me destacava nos esportes, nas notas, nem nas artes, o que me fazia ficar muito quieta, observando as colegas mais velhas, que já possuíam seios e namorados. Coisas que me pareciam ainda muito distantes da minha realidade de menina bem comportada. Eram muitas colegas e duas turmas desde a 5a. série até a 8a. Não lembro de todas, confundo as qualidades... e, possivelmente, os defeitos também, minha memória apagou muitas lembranças tristes desse tempo. A austeridade e negação do prazer impostos pelas freiras católicas eram, para mim, um prolongamento do ambiente familiar claustrofóbico. Quanto às freiras, mantínhamos uma curiosidade danada sobre o que eram, de verdade, sobre o que havia em seus corações disfarçados em hábitos. A escola era das irmãs Sacramentinas, vulgo Asilo. Que sugestivo nome me parece! Um monte de garotas em plena puberdade sob a vigilância de freiras, sem contato com meninos, obrigadas a rezar, cantar o hino da França e a usar uniformes com saias plissadas, blusas brancas com de mangas curtas - nada de mangas compridas - embora estivéssemos morando na Princesa do Sertão em salas com basculhantes e muros altos e ainda portando um pequeno escudo de ferro na lapela. Não lembro quantas éramos... temos tentado, há cerca de um mês, avivar coletivamente as nossas memórias, através de publicações em grupos no facebook e no whatsapp. Nesse universo, pouco conhecemos das colegas da época e muito menos sabemos, depois de passados 40 anos. Em em quem se tornaram como fruto das diferentes opções de vida que fizeram e pelas quais tiveram que se responsabilizar em seus aspectos positivos e negativos. Entre todas, a vida seguia e segue com seus aspectos duais e complementares.

       O fato é que algumas delas passavam por nossas vidas nos despertando irritação, enquanto outras fisgavam o   nosso olhar. Da minha sala, trago vivas várias imagens e emoções envoltas em um véu turvo e sinuoso como é esse fenômeno ou abstração. Sinto agora que memória e coração também sofrem efeito das forças newtonianas e antagônicas de repulsa e atração. Enquanto algumas faziam vir à tona toda a minha raiva contida, havia outras que me despertavam grande admiração. Esses sentimentos não se deram por um mero acaso, mas possivelmente por sincronicidade que se justificam pela declaração de C. G. Jung: “Percebemos nos outros as outras mil facetas de nós mesmos.” A ideia de que observamos no outro aspectos de nós mesmos pode ser compreendida de um modo positivo ou negativo.  Na vida adulta é mais fácil aproveitar esses aspectos como oportunidades enriquecedoras de nos conhecermos mais profundamente, mas quando isso se dá na adolescência, época em que a busca por identidade é tormentosa e exaustiva, essa frase não parece fazer sentido algum. É preciso maturidade para disciplinar o olhar para que ele veja além da aparência e não se esconda apenas turvando a água em que se mira. 

      Williane era um dos meus desafetos e a mútua aversão se transformou completamente, quando fui obrigada a morar com ela. Ela parecia só se interessar por estudar, era muito seletiva ou tímida e extremamente determinada, enfim, a filha que minha mãe queria, ou dizia querer ter. Para piorar a nossa animosidade, morávamos na mesma rua e ainda aprendíamos piano com as mesmas professoras! Sentia nela uma competitividade que me dava ódio. Nós nos tornamos grandes amigas, ao descobrir que a nossa animosidade não era uma emoção natural, mas fruto de uma exaustiva comparação estabelecida entre nós. Melhor, ao me aproximar dela, descubro que sua mãe tem temperamento parecido com o meu. Outro fato a ser analisado, penso eu. Certamente nos sentimos mais livres e felizes longe de expectativas alheias e quando permitimos nos ver com os nossos próprios olhares. Por atração que gera atração ou vice-versa, nossos filhos foram colegas, se tornaram amigos e estão cursando Engenharia na UNIFACS. Assim, todos saímos ganhando com o resultado da equação, ao provarmos que a energia do universo não é limitada, mas de expansão amorosa, por mais difícil que nos pareça senti-la. 

    Chamava-se Mariângela, a garota que me despertava a maior admiração: ela já tinha um corpo de mulher, parecia segura e demonstrava um espírito de liderança nato. Jamais esqueci do dia em que a professora de Português, a freira mais temida por todas nós, nos desafiou a escrever a biografia de uma colega. Tive dificuldades em escolher alguém e terminei escrevendo sobre a garota que havia feito a minha biografia. Era por gratidão que eu o fazia. Quando Mariângela teve a coragem de perguntar à Irmã Maria do Carmo, se poderia escrever sobre si mesma, passei a ser sua fã, embora confesse que menos pela autenticidade do que pelo destemor. Não havia dúvidas, eu queria ser como ela! Embora eu não manifestasse nenhuma das qualidades observadas nela, mais tarde precisei exercitá-las exaustivamente.  Talvez esses atributos estivessem latentes em mim, buscando um momento ideal para se manifestarem, como aquela gota que faz derramar um jorro d'água de um copo já cansado de ocultar seu conteúdo.  Não nos vimos por muitos anos e hoje, depois que muitas cachoeiras rolaram  pelos cursos dos rios de nossas vidas, ao retomamos contato, depois de 4 décadas, foi justamente a minha franqueza que me permitiu lhe revelar essa oculta atração. Na juventude, esse segredo revelado poderia inflar o seu ego. Ao contrário, ela me pede que eu escreva sobre isso para mostrar às suas filhas e eu o faço com a certeza de que a atual amorosidade, é capaz de superar qualquer sentimento de disputa ou inveja. 

        Eis aí o relato de observações muito pessoais que buscam entender os estudos da psicologia analítica: a água da roda do tempo, se vivido verdadeiramente, é o elemento capaz de nos limpar de todos os males. Parabéns às mulheres, às Psiquês que, ao contrário dos Narcisos, são capazes de se mirar nos espelhos das águas do tempo e de nelas mergulhar, emergir e aguardar que
suas mandalas tranquilas e silenciosamente se formem e possam, enfim, se encarar de frente. Para que fiquem felizes ao ver suas caras internas de pássaros sem asas a voar unidas, através das nuvens e tempestades, em direção às cordilheiras de suas essências divinais.



quarta-feira, 15 de outubro de 2014

EU MEREÇO, NÓS MERECEMOS ou (inútil, a gente semos inútil!


Nós, professores brasileiros merecemos festejar o dia de  hoje, apesar de todas as dores que implica ser professor nesse país, no qual a saúde será sempre melhorada, depois de recolhidas as CPMF e afins, onde a educação sempre será priorizada, depois de recolhidos os royalties do pré-sal, em tempos de graves denúncias na Petrobrás. E assim se vai perpetuando a ignorância - não a burrice (que fique bem claro) do povo do nosso país. Eles, NÓS, em cuja constituição lhe são atribuídos direitos negados secularmente e ainda não se cansam de ter a esperança em um Brasil melhor e vão elegendo políticos que lhes prometem o que pretendem, antecipada e deliberadamente lhes negar. Do mesmo modo como ignoram a capacidade, dos incansáveis trabalhadores brasileiros, dessa brava gente que resiste e ainda busca comida em lixeiras e carrega carroças como burros de carga pelas ruas das capitais e andam pendurados em ônibus lotados e sub-humanos depois do emprego e da mobilidade prometidos na copa. Enfim, que desperdiçam criatividade e talento nas filas dos bancos mais lucrativos do mundo e morre em corredores de hospitais, onde faltam médicos, equipamentos e esparadrapos.

Finalmente, gostaria de lembrar que a maioria de nós, dos professores de carteirinha e de verdade, dos formados para isso, é comprometida com o que faz. Ao contrário dos OUTROS PROFISSIONAIS - ESPECIALMENTE DAQUELES DE COLARINHOS BRANCOS - que ganham mais, sugando sempre maiores privilégios e ganhos financeiros extraídos dos nossos minguados salários. Que fique muito claro que não foram ser professores aqueles que eram incapazes de passar em outros vestibulares mais competitivos (eu abandonei um curso de Arquitetura para ensinar Matemática e depois ainda quis estudar Letras e fIz dois cursos de Pós-Graduação UFPE/CEFET/UNICAMP. Gostar de estudar, é condição sine qua non para exercer essa digna profissão, que está longe de ser uma espécie de sacerdócio OU MISSÃO, embora essa atividade tenha sido inaugurada em nossas terras por padres Jesuíta. Esses muitas vezes escolheram SEUS futuros por falta de escolha e não por vocação para a batina ou para o magistério, Vale reforçar também que conhecer o conteúdo de uma disciplina é condição necessária, mas jamais suficiente para ensiná-la. Quem nasceu ou decidiu escolher essa profissão, como bem disse,  professora doutora Norma Oliveira, é educador 24 horas por dia (ainda ontem, meu filho reclamava porque, eu me atrasei em uma loja dando conselhos à funcionária do caixa de que, teclasse 100 ou 1 vez no botão da máquina de cartões de créditos, a máquina funcionaria em igual tempo. A diferença é que ela, a funcionária, estaria provocando uma possível  LER nesse dedo que usava centenas de vezes em cada atividade da sua longa jornada de trabalho.)! Ouvimos já tantas vezes que, não salvaremos o mundo com educação, mas jamais o faremos sem ela. já dizia aquele que mais lutou por uma educação emancipadora, libertadora e amorosa. Escutamos a mensagem dele? Prestem atenção, professores, a educação é batata em se considerando os seus dividendos. QUEM PENSA QUE A EDUCAÇÃO É CARA, CALCULE OS CUSTOS DA FALTA DELA!  Não somos arrogantes como a maioria dos profissionais formados em outras profissões, mas aceitamos que nos digam que somos MENOS, de que merecemos condições e salários piores. Enfim, esquecemos, repetidas vezes, do valor DO GRANDE VALOR QUE TEMOS E DEVE SER LEMBRADOS EM TODOS OS DIAS DA SEMANA, DE SEGUNDA A DOMINGO. Do grande valor que temos, além de tudo, por formar todos os demais profissionais, competente, indiscriminada e continuamente!




terça-feira, 14 de outubro de 2014

O LUTO DO DIA DE HOJE

MORTES COTIDIANAS
                  Vera Passos*



A gente tem de morrer tantas vezes nessa vida, que precisamos ir preparando a morte, talvez, definitiva.  O nascimento é a primeira dessas mortes, quando deixamos a bolha escurinha, quente e úmida, onde estamos em total sintonia com aquele ser que nos gerou e acolhe em uma simbiose perfeita, do qual extraímos tudo de que necessitamos. O sopro inicial é um grande esforço, mas o fazemos em nome da vida que nos aguarda e das sucessivas mortes que a acompanham. É com tristeza e choro que manifestamos essa morte sempre prematura. Morremos ao sair da infância, o que tem acontecido cada vez mais cedo, devido ao apelo exaustivo da sociedade midiática e consumista,  que impõe às crianças necessidades vãs, as tornando adultos mirins para o quê não estão de modo algum preparadas. Assim é que se tornam mães sem sequer terem ensaiado as brincadeiras com suas pequenas bonecas.
Na adolescência, é toda a nossa identidade que morre e buscamos, desesperados, outra que nos caiba. Rabiscamos assinaturas possíveis e estilos de vestir e de nos portar em público que nos definam. Ora nos escondemos, ora nos mostramos escandalosa e agressivamente.
 Mais tarde, em outros rituais como ao entrar para a vida profissional e no casamento, vivemos diferentes mortes. Fenecemos quando findam os nossos relacionamentos, e constatamos, que se apagou a chama do que foi uma grande paixão. Quando somos mães, morremos ao ver sair de nós aqueles seres que mantínhamos seguros dentro dos nossos corpos e agora se lançam no mundo em suas próprias descobertas e riscos.
Embora, ao nascer tivéssemos como destino o envelhecimento e a morte, a constatação do caminhar para o fim, na imagem nossa de cada dia, é a mais difícil das mortes enfrentadas. Dela fugimos angustiados! Porém ela teima em se expor nos espelhos que são os nossos antigos, e agora também velhos, amigos. Enquanto seguimos nessa trilha misteriosa e tão imprevisível que é a vida, vemos irem-se parentes e amigos. São muitas, e tantas, essas mortes... Às vezes a vida nos prende em armadilhas traiçoeiras a ponto de querermos, voluntária e estranhamente, morrer de fato e chegarmos a atentar contra a própria existência.  Em estado de depressão, nos sabotamos e matamos vários dos nossos dias. É Tanatos que nos faz navegar pelo inconsciente, embora a vida seja cheia de possibilidades, tenhamos diversos talentos e, lá fora, brilhe um sol fulgurante sob mar azul sem fim. 
Enfim, poderia continuar discorrendo sobre uma infinidade de mortes. Mas por me sentir muito viva agora, planejo a cerimônia que registrará a minha morte. Não quero carpideiras, mas os sons da leve música de algum choro sincero dos que sentirão a minha falta. O ritual do velório é muito sombrio, embora certo luto seja necessário para que os meus filhos reflitam o que significa para cada um deles a perda de sua mãe. Para internalizarem como querem guardar essa memória. Em um gesto solidário, ecológico e de celebração à vida, já doei os meus órgãos. Que minhas cinzas sejam jogadas em campo florido, enquanto o ar conduz belos poemas e cantos sobre a arte de viver. Viver em plenitude, saboreando os bons momentos, aprendendo com os maus e partilhando cada um deles.
E que venham outras vidas e suas respectivas mortes. Se elas existirem!
          *Professora de matemática e artesã, escreve no  verapassos.blogspot.com


SUGESTÕES INDISPENSÁVEIS: 

 "DESPEDIDA", um poema de Ferreira Gullar: 

"AS CORES DE ABRIL", uma música de Vinícius e Toquinho: