quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

TRABALHO VOLUNTÁRIO NA REDE BOM PREÇO



Antes de começar a histórIa segue a minha resposta:  piorou substancialmente, na limpeza, na quase inexistência de empacotadores e gerentes, na falta de carrinhos nos devidos lugares, na qualidade dos produtos e dos sacos, especialmente nos de frutas e verduras, nos preços  e na satisfação dos próprios funcionários.

    No final da tarde de ontem, fui no `BOM PREÇO` de Armação, para comprar um queijo gorgonzola para colocar em uma pizza. Só havia 2 marcas: uma delas que eu sabia ser uma das mais caras, cujo quilo custava cerca de RS 20,00 a mais do que a outra. Optei por experimentar a nova marca. Quando ia colocar na pizza, minha filha achou o cheiro um pouco forte demais, diferente. Confirmamos e decidimos não usá-lo. Hoje eu o levei para trocar. Como tinha médico no Itaigara, tentei trocar na loja do Shopping de lá. Eu me dirigi ao SAC, onde não havia funcionário, á moça do caixa, disse que a pessoa tinha ido fazer outra atividade e mandou um raros empacotadores me atender. Ele ficou em dúvida, olhou o cupom fiscal e me disse que eu achasse o queijo lá, eu poderia pegar o queijo de dentro do carro e trocar por outro. Não havia, então fui almoçar e segui a rotina prevista para o dia. Na volta para casa, passei pela loja onde o comprei e também não havia ninguém no SAC. O guarda veio atender, fez cara feia, outro empacotador também fez  a mesma cara e disse que estava dentro do prazo de validade. Quando ambos viram o estado do queijo com uma parte liquefeita pelo calor de Salvador,  acharam que o queijo havia se estragado com o calor.  Eu lhes avisei que estava sólido quando fui na outra filial. Levantaram a possibilidade de que eu havia deixado o queijo fora da geladeira durante a noite. Depois, uma moça apareceu e disse que eu fosse trocar. Eu lhe informei que provavelmente compraria outra marca e avisei que mandasse verificar se estava, todos assim, porque esses queijos estragados poderiam causar infecção em várias pessoas. Ela disse que resolveria isso imediatamente. Fui na prateleira de queijos, abri uma pontinha do lacre de um deles e estava pior do que o meu. Comprei a outra marca, vários outros itens, peguei a fila, paguei e ao sair, resolvi voltar lá para ver se algo tinha sido feito. 

            É claro que estavam todos lá. Fico imaginando quantas pessoas compraram (comprarão)
 esse queijo, quantas reclamaram (reclamarão), quantas tiveram (terão) condições de mantê-lo estragado na geladeira até poderem ir reclamar, quantas jogaram (jogarão) fora pela impossibilidade de retornarem lá? 

Conclusão: nessa mensagem estou prestando um serviço gratuito de Atendimento ao Consumidor para a rede de Supermercados  Walmart :
  
AVISO:

SENHORES CLIENTES
PEDIMOS A GENTILEZA DE NÃO COMPRAR O QUEIJO GORGONZOLA DO RÓTULO AZUL DA FOTO ABAIXO, POIS ESTÁ ESTRAGADO.
AGRADECEMOS,
  GERÊNCIA




Moral da História:  QUEIJO FEDIDO X QUEIJO ESTRAGADO = INFECÇÃO INTESTINAL

domingo, 2 de fevereiro de 2014

UM PORTUGUÊS, UMA BAIANA E MUITOS FILHOS ADOTIVOS

     Eu os conheci ainda pequena. Eram uma espécie de parentes da família que apareciam na nossa cidade de tempos em tempos. Naquela época, jamais pensei que se tornariam tão importantes na minha vida...
Ela sempre dizia que ele havia me adotado como filha e recordava a cena dele fazendo contas no escritório e eu ajoelhada ao seu lado. Eram os momentos em que ele verificava os lucros obtidos nos investimentos que fizera com a minha herança e me dizia: você é rica, pode gastar mais.


     Para mim, ele foi uma espécie de pai ideal, aquele que não faz exigências, já te vê como adulta e do qual não precisa esconder o que é. Como eu, ele não tinha papas na língua e isso fez com que nossa relação fosse muito verdadeira. Um dia ele afirmou que eu era virgem e se dispôs a colocar a sua mão no fogo por isso. Eu lhe respondi, dando uma gargalhada: ´se eu fosse você, não o faria, corre grande risco de se queimar...` Ele deu uma risadinha e encerramos a conversa. Em outra ocasião ele queria que eu lhe prometesse telefonar todos os dias só para lhe assegurar que eu estava bem. Afirmei que não o faria, afinal não havia telefones em todos os lugares e eu poderia esquecer ou não achar um orelhão. Concluí lhe tranquilizando com o ditado: `notícia ruim não anda, voa`. Ela, por seu turno, vivia me perguntando seu eu queria que ela fosse minha mãe. Eu lhe garantia que não seria uma boa ideia pois nossa relação seria diferente. 

     O gosto pela música era mais uma afinidade que havia entre nós. Ele tinha um som chamado três em um no qual escutávamos Frank Sinatra e Noel Rosa. De meu lado, eu sempre lhe mostrava as novidades da música brasileira. Um dia o fiz ouvir com atenção a música A NÍVEL DE, de João Bosco, que trata de dois casais que fizeram todas as trocas possíveis:  

(...)Estruturou-se um troca-troca
e os quatro: hum-hum... oqué... tá bom... é...
Só que Odilon, não pegando bem a coisa,
agarrou o Vanderley e a Yolanda ó na Adelina.
Vanderley e Odilon
bem mais unidos
empataram capital
e estão montando
restaurante natural
cuja proposta
é cada um come o que gosta(...)



     Ele deu risada e a ouviu repetias vezes, balançando negativamente a cabeça. Se dizia escandalizado com essas coisas, mas passava todas as noites de carnaval admirando as mulheres peladas dos desfiles do Rio e mantinha uma coleção escondida da revista Playboy.  Ela fazia questão de conservar o seu corpo bem feito com cintura de pilão, ancas largas e pernas grossas e rígidas fazendo toda manhã uma sequência de exercícios físicos que tentou me ensinar, sem sucesso. Eu sempre perguntava a ela se eles ainda faziam sexo e ela respondia sorrindo. Um dia me segredou: quando você tiver um marido e quiser lhe pedir uma coisa muito importante, deixe para falar sobre o assunto na cama, depois de vocês namorarem. 


     Como todo bom português. ele era bem machista em sua relação com a esposa e eu sempre me metia nas discussões lhe mostrando o quanto estava sendo autoritário. Eles tinham um afilhado muito querido que morava longe.  Ele estava prestes a vir passar o verão na Bahia e eles não paravam de repetir  como ele era bonito, inteligente, carinhoso e divertido. Na noite em que o rapaz chegou, quando batemos os olhos um no outro, deu paixonite aguda. Quando fomos dormir, do meu quarto eu os ouvia fazendo planos: eles vão se casar e ele virá morar aqui na Bahia. No entanto, seu sobrinho era tímido e só trocamos um beijo no momento da despedida.

     Eu sentia o amor que ele tinha por mim, embora fosse incapaz de me fazer um carinho. Uma vez, depois do fim de um namoro, quando me viu chorando, ele passava a mão em minha cabeça de um modo que mais parecia um empurrão do que um afago. Aliás do que mais me lembro são de suas mãos brancas com uma aliança grossa batendo sobre a mesa depois das refeições nas quais tinha sempre arroz especial que só ela sabia fazer. 

      Ele tinha uma biblioteca extensa e eu comecei a ler livros recomendados por ele como Os 7 Minutos de Irving Wallace e a sua coleção de Alexandre Dumas. Quando ele morreu, eu comprei dela a coleção completa de Monteiro Lobato para dar a minha sobrinha Bianca. Quando Bee cresceu, eles vieram para os meus filhos e agora que eles também estão crescidos, mantenho os livros no meu quarto. Aliás, é uma das poucas coisas que tenho dele. Assim que ele se foi, ela me deu um colar bem grosso de prata que ele usava por recomendação médica. O colar desapareceu da minha casa, mas não as lembranças.

sábado, 18 de janeiro de 2014

INTERTEXTUALIDADE, UMA FORMA DE HOMENAGEM

Ontem, na Livraria Cultura, eu tive o prazer de falar poesia no lançamento do livro do filho de Luciana Castro, professora do IFBA. Poderia ter escolhido poemas infantis  de autores como Vinícius de Moraes, Ferreira Gullar, Roseana Murray ou José Paulo Paes, mas preferi homenagear a minha colega. Aquela mãe reconhece, incentiva e divulga os talentos do filho. Ele, João Felipe, muito compenetrado nos seus dez anos, tocou guitarra, cantou em português e inglês, leu versos do seu livro Sussurrador de Poesias, deu entrevista e escreveu autógrafos afetuosos.


Apresentei um dos exemplos de intertextualidade de que mais gosto por diversas razões. O poema OU ISTO OU AQUILO de Cecília Meireles é bastante conhecido, mas pouco se sabe daquele escrito por Ronaldo Ribeiro Jacobina, de título É ISTO E É AQUILO. O livro CANTIGAS PARA NINAR CECÍLIA E POEMAS PARA ACORDAR GENTE GRANDE é uma bela homenagem à autora de Romanceiro da Inconfidência. Além disso, em seu poema, Jacobina menciona a ludicidade na educação - tema da dissertação de mestrado de Luciana - e rompe com uma das bases da lógica aristotélica.

A lógica formal admite o princípio do 3o. excluído, o que significa dizer que uma proposição ou é verdadeira ou é falsa, não havendo uma terceira possibilidade. Ao admitir o terceiro incluído, Ronaldo não só reafirma os versos de Cecília como os atualiza. Embora não possamos negar a importância dos estudos científicos,  a cada dia, temos maior consciência dos seus limites em abarcar a complexidade da realidade física, dos fenômenos sociais e da subjetividade de cada indivíduo em suas amplas dimensões. Nas palavras do poeta, não há antagonismos entre as operações lógicas de conjunção e disjunção, portanto É ISTO E É AQUILO e É ISTO OU É AQUILO são duas proposições verdadeiras e não contraditórias. Confirme lendo as  poesias no final dessa postagem.

Um dos exemplos clássicos de intertextualidade são os poemas baseados na CANÇÃO DO EXÍLIO. Vários autores como Drummond, Osvald de Andrade, Murilo Mendes, Cassiano Ricardo, Jô Soares, Casemiro de Abreu e Mário Quintana fizeram textos a partir dela. Além dos poemas, há também o exemplo de uma canção de Chico Buarque e Antônio Carlos Jobim. As criações que dialogam com o poema de Gonçalves Dias podem ser lidas no endereço: http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/466791

A experiência, o livro de Ronaldo Jacobina e a leitura de alguns textos me fizem concluir que a definição mais simples e pessoal que posso dar ao recurso da intertextualidade resume-se na palavra homenagem.

OU ISTO OU AQUILO
                              Cecília Meireles

Ou se tem chuva, e não se tem sol
Ou se tem sol, e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
Ou se põe o anel, e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares, não fica no chão,
Quem fica no chão, não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.


É ISTO E É AQUILO
                              Ronaldo Ribeiro Jacobina

Às vezes, se tem chuva e sol, sol e chuva.
É o casamento da raposa, aquela das uvas.

Às vezes, a gente está, sem estar, nos lugares.
Há quem, sem sair do chão, viva nos ares.

Vênus, estrela da manhã, arde
Também como estrela da tarde.

Não sei se brinco ou se estudo. Ora bolas!
Aprender brincando é minha escola.

Mestre não é só quem sabe, mas quem procura.
Quantas vezes a lucidez está na loucura?!

E quando a pergunta é resposta
E a resposta é pergunta?

Sem ser igual, pode ser isto e ser aquilo?
Insisto nisto: pode ser aquilo e ser isto?

Dá um nó no juízo
Quando é isto e é aquilo.

É isto e aquilo, aquilo e isto.
Antes que eu pire, desisto.
Com o terceiro incluído, acabo os dísticos.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

POESIAS PARA 4 MENINAS DE TODAS AS IDADES

Dalva é minha amiga desde a juventude. Era a melhor amiga de Williane, minha colega desde o ginásio e com quem morei por alguns anos. Fui vizinha de Dalva quando ela, Álvaro e seus filhos moravam em um condomínio em frente a mim em Stella Maris e tive o prazer de partilhar sua amorosidade, força e alegria. Muitas coisas mudaram... ela não mora na Bahia, mas não deixa de vir ver seus parentes e amigos assim que pode. Na festa dos seus quinze, ops, 50 anos, lhe presenteei falando uma poesia de Martha Medeiros. Neste sábado, ela comemorará seus 55 anos, junto com os 50 de Lídia, sua irma, os 75 de sua mãe e o batizado de sua netinha Júlia. Fui intimada a ir e falar poesia nesse grande momento de alegria familiar, Infelizmente, tenho viagem marcada para a manhã desse mesmo dia. Assim, escrevo abaixo as poesias que pensei apresentar Para as 4 meninas:



CANÇÃO 



DO 



EXÍLIO 



FACILITADA
                                     José Paulo Paes



lá?
ah!



sabiá…
papá…
maná…
sofá...
  
sinhá…

cá?              

bah!

CINDERELA
Adélia Prado

Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação, 
porque aos 50 (ou 55 ) anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta 
e põe tudo arcaico, como a matéria da alma, 
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço 
a cada ano mais. 
Sob juramento lhes digo: 
tenho 18 anos. Incompletos.

Antibélica
                           Elisa Lucinda

Fazia roupinhas de boneca, meu Deus, 
Tão linda que ela era! 
Tão linda... 
os vestidinhos, bem feitos e muito bem 
acabadinhos 
por dentro e por fora, 
eram arte. 
Eu disse, como você é linda fazendo estas 
roupinhas de boneca! Linda! 
Ela me olhou doce e de dentro dos olhos 
de seus sessenta e cinco anos 
saltou a menina de oito pra me dizer 
singela:
é só tirar o modelo. 
Senti amor pela senhora e pela pequena. 
Ah, tem gente que é poema!


BERÇÁRIO
Eliana Mara Chiossi
Dizem que sou filha de Deus. 
Acho que fui adotada. 
Deus me criou porque encontrou uma cesta na frente da sua casa 
e não ficaria bem, para um Deus, 
deixar aquela menina gulosa berrando. 
Dizem que sou a imagem e semelhança de Deus. 
Acho que fui adotada. 

Deus pariu uma menina
e no hospital trocaram as etiquetas de identificação.
Deus me viu crescendo, me olhava sempre com o olhar perplexo:
 de onde será que veio essa menina estranha, 
que não se parece comigo? 

Dizem que Deus é amor.
Então, sou filha de Deus. 
Porque ainda quando tremo,
 ainda que os inimigos cuspam na minha face branda,
 ainda que haja dias em que a vida pouco me interessa, 
eu sou amor também. 

Mas Deus perdoa, 
Deus tolera, 
Deus compreende, 
Deus tolera,
Deus tem uma paciência de Jó.
Acho que fui adotada.



Desejo às 4 mulheres cujas vidas serão festejadas amanhã, 4 de janeiro, que nunca lhes falte a consciência de que vieram ao mundo para se construírem, a cada dia, a imagem e semelhança de Deus.

sábado, 28 de dezembro de 2013

NATAL PODE SER NASCIMENTO DE ATITUDES


Estou muito contente comigo e o motivo é bem simples como essa árvore na varanda da minha casa. Ouvi em um filme que a diferença entre conhecimento e sabedoria é que a última é a primeira posta em prática. 

Há muito tempo sei da roda da vida e dos seus ciclos onde nada é permanente. Já me disse tantas vezes que a vida é mudança, já prometi escrever em frente à minha cama um cartaz dizendo ISSO PASSA para me relembrar que o estado de tristeza, como o de alegria, não são perenes, mas onde andava a coragem para por em prática essa convicção? Então, estou muito feliz comigo porque nesse Natal, a despeito de ter a perna direita enfaixada e não poder sair para as últimas compras em lojinhas de artesanato como sempre faço, eu consegui me adaptar a essa situação: arrumei a casa, fiz duas árvores naturais na varanda, simplifiquei a ceia, coloquei uma bota de Papai Noel, fui à confraternização do grupo de poesia DIVERSOS - Arte Poética Singular e com eles participei de um recital em um abrigo de idosos, com a ajuda de Luzia, coordenei a Confraternização do Sinasefe - Ba, do qual sou diretora cultural, como todos os anos, coordenei as apresentações das crianças na confraternização do meu Condomínio. Enfim, com a ajuda mental e medicamentosa corretas passei um dos melhores natais dos últimos tempos. As pessoas eram as mesmas (além de nós 4, da família de meu irmão e da família de minha cunhada, a madrinha de Liza, a madrinha de Ciro e a minha querida sogra-mãe, Wandinha), a casa era a mesma, houve brincadeiras de troca de presentes como sempre, mas tudo foi melhor porque eu adotei a atitude mental que me permitiu viver mais ou estar atenta e feliz com o que acontecia a cada momento. 

Pensei em questionar no quanto saberei fazer isso no Ano Novo, porém, graças aos céus, me lembrei que pensar nisso é viver o futuro e sair desse momento de satisfação comigo mesma aqui e agora enquanto escrevo esse pequeno texto de registro do que houve de crescimento em mim mesma. Partilhar essa experiência também é um motivo de satisfação, é claro.












sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

MINHA CARTA AO ANO NOVO



Com dezesseis anos, motivada por um gesto de extrema violência de minha mãe, tive o meu primeiro sentimento de que a vida pode parecer determinadamente desinteressante. No ano seguinte, meu pai deu a maior prova do grande peso que ela pode ter em nossa mente e a que extremo isso pode nos levar. Mais um ano e eu comecei resoluta um percurso no sentido de uma trajetória que firmasse uma identidade própria: fui aprendendo a viver com a liberdade que acredito ser direito de todo indivíduo, busquei me qualificar e construir uma história profissional,  reconstruí os laços de afeto com meus dois irmãos de sangue e firmei vínculos fraternos profundos e fundamentais com outros tantos seres, busquei contribuir para trazer paz nas relação com as árvores familiares das quais fui o primeiro fruto. Fiz uma longa busca no sentido de me conhecer, encarar e curar as dolorosas feridas e sentir a presença do divino como fonte de aceitação e amparo. Com 28 anos encontrei aquele que vislumbrei ser o meu parceiro no dia a dia e na educação dos nossos filhos. Mas, aos 54 anos, ao chegar à conclusão de que me identificava com a mesma menina órfã que fui aos 16, procurei entender porque enquanto buscava ampliar a minha liberdade, diminuía gradativamente o espaço entre as grades mentais que me aprisionavam. É assustador o quanto o passado pode ser um monstro gigantesco e ao mesmo tempo invisível...  Tenho voltado o meu olhar para os ensinamentos diários dos meus pequenos mestres: Ciro e Liza. Venho aprendendo a olhar os sinais de fragilidade e carência por traz da aparente maturidade dela que também aos dezesseis ainda precisa do cuidado e do colo de sua mãe. Venho constatando que em vários momentos Ciro é mais amadurecido emocionalmente do que eu e apesar de não ser um surfista profissional tem sabido encarar de peito aberto as sucessivas ondas de sua vida. O que desejo de 2014, está intimamente ligado ao desenvolvimento da capacidade de viver a família que construí: a zelar pelo companheiro que tem cuidado de mim por longo tempo, a dar colo àquela que o tem aguardado timidamente. Ao cair da prancha e mergulhar na escuridão do fundo do mar, posso sentir que há tranquilidade no seu profundo silêncio. Do mesmo modo que, ao ser arremessada para além da crista da onda, há a chance de optar pelo desespero de que a prancha bata em minha cabeça e me deixe inconsciente, como agarrar a possibilidade de  me ver acima da imensidão do mar e mais perto de nuvens e estrelas.  

CARTA  
             Mário Quintana

Hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida,
Rasguei-a sem procurar ao menos saber de quem seria...
Eu tenho um medo
Horrível
A essas marés montantes do passado,
Com suas quilhas afundadas, com
Meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas...
Ai de mim,
Ai de ti, ó velho mar profundo,
Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!





Desejo que todos soltemos as âncoras e venhamos à tona dos naufrágios de 2014 com corpo e alma mais leves e presentes. 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O QUE HÁ DE RACISMO EM MIM?


Hoje é o segundo e último dia da JORNADA DAS RELAÇÕES ÉTNICAS E RACIAIS do campus Salvador do IFBA,  no qual se homenageia Abdias do Nascimento. A comissão organizadora tem como presidente o professor e poeta Wesley Correia e vice-presidente, a professora Sônia Brito. Tive o prazer de participar das atividades de ontem, entre elas, uma excelente aula/apresentação de dança da professora da UFBA, Leda Maria Ornellas. No mês da consciência negra - assim como em todos os dias dos demais meses do ano - penso  ser que a pergunta essencial para cada um dos brasileiro se fazer é: o que há de racismo em mim?
Fui convidada por Wesley a participar do Itepé de Poesia apresentado pelo professora Juracy Tavares, em que seria lançado o livro DEUS É NEGRO. Infelizmente, como a atividade começou ás 2I h, o auditório estava esvaziado, mas fiquei gratificada com a qualidade das demais apresentações, com o pouco que pude aprender da cultura afro-brasileira e as reflexões que a oportunidade me provocou. Só apresentei duas poesias do livro de Wesley. A primeira que escolhi para apresentar me ensinou que: 

I) EKEDI ALAKETU,  é a filha principal da casa que não passa pelo transe e que foi iniciada em um terreiro pertencente à nação Ketu Ela é a correspondente feminina de OGÃ, o título do escritor Jorge Amado.

2) MOJEBÁ ou MO JUBÁ é uma expressão em Yorubá que significa  meus respeitos. Essa é uma saudação feita a EXU e à POMBA GIRA. Nessa cultura, EXU representa o mensageiros entre os humanos e os Orixás. na cultura Nagô.

A primeira reflexão foi do quanto, na minha infância, me impressionaram as 7 imagens em madeira de Cristo com características orientais da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Cachoeira, cidade do estado com cerca de 80% de população negra.


Assim que li sobre a condição de EXU como um mensageiro, o associei a Hermes, o filho de Zeus e Maia e mensageiro entre os humanos e os Deuses, cuja imagem é apresentada com um chapéu de abas largas, sandálias de ouro com asas e um cajado denominado caduceu. Isso se deu porque conheço um pouco das mitologias grega e romanas e sou totalmente ignorante da mitologia Afro. Não me são estranhos os nomes Prometeu, Apolo, Ariadne, Cupido ou Eros, Psiquê, Pandora, Hera, Hércules, Zeus dentre outros, mas nada sei  além de que sou de Oxossi e Yemanjá. Sequer sabia que Logunedé é filho de Oxossi e que Okum é mãe de Yemanjá. Vários dos nomes dos deuses dessa mitologia me são familiares, mas desconheço seus significados e histórias.   

Em 2003, quando aprovada a lei que obrigava  o ensino da "História e Cultura Afro-brasileira e Africana"  porque eu não me motivei a incluir isso nas minhas aulas de Matemática e mais tarde, de Inglês, um dos onze idiomas do pais de Nelson Mandela? Sempre fui contra a importação de valores americanos ou ingleses na nossa cultura, mas poderia ter utilizado textos da cultura afro nem que fosse no mural que mantinha para estimular a leitura em inglês dos alunos. Concluí que houve desinteresse de minha parte quando conheci os professores Magno Santos e Jackeline Amor Divino, que apresentaram uma oficina sobre SUDOKU, JOGOS E GRELHAS: BRINCANDO COM "RAÇA", LÓGICA, CIÊNCIA E ETNOMATEMÁTICA. Eu, como membro da SBEM, vi palestras e li trabalhos de expoentes da  Etnomatemática como seu fundador UBIRATàD’AMBRÓSIO e Sérgio Nobre, tinha a obrigação de buscar me apropriar e disseminar esse conhecimento.

Em uma mesa temática, sobre Arte e Militância: diálogos e perspectivas, coordenada pelo professor Breno Dias e cujos convidados eram Jorge Washinton do Bando de Teatro Olodum, a dramaturga Fernanda Júlia Barbosa e a cantora Margareth Menezes, ouvi a última usar o termo denegrir e defender a liberdade de negros usarem os cabelos  raspados, esticado e ou aloirados, como se não houvesse uma representação simbólica nisso e como se imposição midiática e comercial fossem sinônimo de liberdade. Nesse momento, também me dei conta de que as duas mulheres que trabalharam por dez anos em minha casa ainda são chamadas por mim de minhas empregadas. Ao final, fomos presenteados com uma apresentação da excelente cantora de duas muito oportunas músicas.


"Um indivíduo sem raízes é como uma árvore sem raízes ou uma casa sem alicerces. Cai no primeiro vento."    Ubiratã  D’Ambrósio