
quarta-feira, 20 de abril de 2011
É TARDE.

sábado, 2 de abril de 2011
AU REVOIR!
PASSAPORTE*
meu nome o livro já fala: é Sarah
Salvador, Equador ou Paris. Nunca para
meu cadastro de pessoa física este corpo
que por dentro é fogo, nuvem e vento
meu registro geral foi registrado em verso.
Desde o meu nascimento,
numa cidade com nome de Feira,
nutro certo encantamento
por tudo que une e não sabe ser disperso.
meu telefone estará liberado
não há passarinho, nem ninho que reste
mas pra falar comigo ou Nelson
sem esvaziar o bolso, não é complicado
só pelas redes sociais, use a internet!
minha formação profissional
segue um caminho itinerante
já que acredito na beleza do instante
minhas atividades atuais
aproveitar as chances da vida
em uma corrida sem fim pra aqui e acolá
encontrar saídas
descobrir entradas,
para essa vontade desmedida
de aprender, de sonhar
por fim, minhas referências pessoais
é melhor que eu não diga
ou que se pergunte a alguém
que me ame demais...
Na saudade, elas são sempre geniais
mais verdadeiro
é que se descubra,
sozinho, consigo
na ausência do meu baiano tempero
da minha louca ternura
do meu eterno desassossego
Alors, eu já posso partir?
E aí? Garantem esperar, pour moi?
* (Versão do poema Currículo de Karina Rabinovitz)
segunda-feira, 14 de março de 2011
VIVA A POESIA, NA BAHIA!
Ontem houve o lançamento de duas Antologias organizadas pelo poeta Goulart Gomes para o qual o nosso grupo foi convidado a falar poesia, no dia a ela dedicado. Aguardando os vários autores, a apresentação começou bem mais tarde do horário previsto. O ambiente era descontraído, mas não nos concentramos como de hábito e cometemos alguns erros. Sempre me aborreço quando acontecem e lembro que costumava falar aos meus alunos "Errar o que não sabe, tudo bem. Mas preste atenção para não errar o que sabe". O fato é que eu esqueci as primeiras palavras da poesia CREDO, que já apresentei várias vezes. Pedi socorro a Eurídice que a fala comigo e às outras colegas que conhecem seus versos e ninguém pôde sussurrar as palavras "DE TAL MODO É ".
Surpeendentemente, um dos autores foi colega na Sociedade Brasileira de Educação Matemática. Assim, além dele, revi uma ex-colega de pensionato, um ex-professora da Matemática da UFBA e uma ex-colega de trabalho.
Houve lançamento em São Paulo e foi comentário geral de como havia sido mais informal e agradável o mesmo evento na Bahia. De nossa parte, é inegável o prazer que tivemos não só pela crescente empatia firmada em cada encontro, como pela satisfação de falar os versos que escolhemos por uma identidade enigmática de sentidos.
Falei com Vicente Cariri que o poema "Deus é Mulher" é o meu preferido de "Alma Assoreada". Mais tarde, pude enfim, conversar com Ronaldo Jacobina sobre o seu belo livro "Conversa para Ninar Cecília e Canções para Acordar Gente Grande" que eu tanto procurara quando estávamos ensaiando o recital com poemas de Cecília Meireles e Mário Quintana. Fechando o rol de surpresas, já em casa, ao folhear o "Poetrix 4 - Terra", fui compelida a escrever:
sexta-feira, 11 de março de 2011
VEREDAS LITERÁRIAS

A crônica abaixo foi selecionada através do Concurso Adélia Prado, promovido pela Editora Assis. Em fevereiro, houve o lançamento da coletânea Veredas Literárias, na cidade de Uberlândia-MG, com a participação de alguns dos autores publicados.
MORTES COTIDIANAS
Vera Passos
A gente tem de morrer tantas vezes nessa vida, que precisamos ir preparando a morte, talvez, definitiva. O nascimento é a primeira dessas mortes, quando deixamos a bolha escurinha, quente e úmida onde estamos em total sintonia com aquele ser que nos gerou e acolhe em uma simbiose perfeita, do qual extraímos tudo de que necessitamos. O sopro inicial é um grande esforço, mas o fazemos em nome da vida a nos que nos aguarda e das sucessivas mortes que a acompanham. È com tristeza e choro que manifestamos essa morte sempre prematura. Morremos ao sair da infância, o que tem acontecido cada vez mais cedo, devido ao apelo exaustivo da sociedade midiática e consumista que impõem às nossas crianças necessidades vãs, as tornando adultos mirins para o quê não estão de modo algum preparadas. Assim é que se tornam mães sem sequer terem ensaiado as brincadeiras com suas pequenas bonecas. Na adolescência, é toda a nossa identidade que morre e buscamos desesperados outra que nos caiba. Rabiscamos assinaturas possíveis e estilos de nos vestir e nos portar em público que nos definam. Ora nos escondemos, ora nos mostramos escandalosa e agressivamente.
Mais tarde, em novos rituais como ao entrar para a vida profissional e ao casar, vivemos outras diferentes mortes. Quando somos mães, morremos ao ver sair de nós aqueles seres que mantínhamos seguros dentro dos nossos corpos e agora se lançam no mundo em suas próprias descobertas e riscos. Fenecemos quando findam os nossos relacionamentos, e constatamos, que se apagou a chama do foi uma grande paixão.
quinta-feira, 3 de março de 2011
ODÔ, ODÔ, ODÔ, ODOYÁ!
Seus olhos me viram dançando na beira das ondas ao som dos atabaques dos terreiros e desejaram serem câmeras a registrar aquele momento em que eu sequer supunha ser observada. Seu desejo era de, mais tarde, poder me mostrar essa tomada para que eu me lembrasse de como sou em estado de leveza. Desde o alvorecer até a minha saída para o café coletivo em que se tentava conscientizar os vizinhos a coletar as fezes dos seus cachorros, quando os levavam em passeio pela praça do bairro, eu vi tantas coisas...
Vi a venda de bençãos com preços tabelados, a profusão de fotógrafos disputando espaço e as devotas performáticas experimentando as melhores posições para serem fotografadas, muitos baianos em dia de festa aproveitando a oportunidade para ganhar um trocado, vendendo produtos diversos, desde cervejas, refrigerantes, até passeios de barco e fitas da filha de Olokum. Na saída, me deparei com a visão chocante de um homem dormindo na areia branca envolto em um lençol azul turquesa.
E de que vinha a minha alegria de longe observada? Do breve encontro de paz com uma das expressões da Mãe Divina (a mãe de todos os Orixás na tradição Iorubá), da certeza de que iria rever e abraçar alguns amigos, da constatação de que o número de presentes de plástico vem diminuindo a cada ano e do varal em que um homem e uma criança expunham uma amostra do lixo com que sujamos a casa daquela que é venerada no dia 2 de fevereiro - dia de festa no mar. É preciso mais do que isso?
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
O REALISMO NA X BIENAL DO NORDESTE
Coincidentemente, a X Bienal era exibida durante a segunda ação movida pela Comissão dos Direitos dos Animais da OAB-BA para proibir o desfile dos jegues e cavalos no cortejo da Festa do Bonfim, sob a alegação de que os bichos são submetidos a grande estresse, esforço físico desmedido, sons estridentes, açoites e temperaturas escaldantes. Contra a ação judicial, os donos dos animais e das carroças brincam dizendo ser "uma moral de jegue”. Segundo eles, não faz sentido mudar uma tradição que inclusive já chegou a dar prêmios às carroças mais enfeitadas. Argumentam também que o percurso é pequeno, os animais bebem água fresca e são tratados com muito carinho. Entretanto, que ações são movidas quando bípedes, racionais, eleitores e cidadãos são expostos a um trânsito barulhento, desordenado, perigoso e totalmente caótico, carregando carroças entupidas de papelões em dias nada festivos, apenas para lhes garantir a sobrevivência?
Quando um homem é usado como burro de carga, ele realiza uma tarefa que este animal está mais preparado para desempenhar e deixa de desenvolver inúmeras das capacidades próprias de sua natureza. Se lhe fossem dadas as condições de desenvolver seus particulares potenciais, esse ser vivo poderia contribuir para o desenvolvimento do país em diversas áreas do conhecimento, inclusive nas áreas de cunho tecnológico, em que além de decisões técnicas são imprescindíveis decisões mais humanas e relevantes quando o assunto for democratização do domínio e direito ao uso das tecnologias. Neste campo, o planejamento do que desenvolver deve ser fruto de análises filosóficas onde predominam três perguntas: de quem? para quê? para quem?
A instalação nos mostra uma cena rotineira de mais um dos inúmeros Catadores de Papelão que cruzam o nosso caminho nas estressantes avenidas das cidades ao final das tardes. Se lhe dirigíssemos a palavra, nada ouviríamos do Davi de Antônio Miranda. No entanto, somos levados a repetir a fala de Chico Buarque:
(...)atravessou a rua com seu passo tímido
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Morreu na contra mão atrapalhando o tráfego”